A praia da Galheta, em Florianópolis, é uma das oito praias de nudismo do Brasil. No local, é possível, ou não, ficar sem roupa. Em uma tarde de março, no fim desta temporada, cerca de 20 pessoas aproveitavam o sol no local.
De acordo com o historiador da FCC (Fundação Catarinense de Cultura) Rodrigo Rosa, o parque municipal da Galheta foi criado em 1990 dada a imensa polêmica que desde os anos 1970 envolvia a região, devido à prática do nudismo (ou naturismo), que foi autorizada pela lei 195/97.
De nudez à família, os paradoxos da praia da Galheta – Foto: Leo Munhoz/ND“19 anos depois, a mesma Câmara de Vereadores retrocede e revoga a lei 195/97 por meio da lei 10.100/2016, muda o nome do parque, que passa a se chamar Monumento Natural Municipal da Galheta, ou seja, o nudismo/naturismo volta a ser, como foi durante os anos 1970, 80 e parte dos 90, um ato sem amparo legal, mesmo na afamada praia de nudismo da Galheta, onde ainda é praticado”, conta.
SeguirRosa explica que por estar muito próxima de uma comunidade das mais tradicionais do leste da Ilha, a Barra da Lagoa, desde o início a frequência de pessoas nuas não era bem vista pelos nativos.
O pescador Valdori Bento Caetano, de 77 anos, frequenta a Galheta desde os oito, no entanto, nunca foi adepto ao nudismo do local.
“A Galheta é a praia mais linda da Ilha. Eu acho que o nudismo não é feio em lugar nenhum, o nudismo com respeito, com consciência. Aqui é onde eu amo e me sinto bem”, conta o morador da Barra da Lagoa.
Imagem mostra rancho de pesca onde os amigos se encontram – Vídeo: Ana Schoeller/ND
Valdori, como é chamado por todos, frequenta com os amigos um pequeno rancho de pesca no fim da praia, onde se reúne com amigos durante a pesca da tainha para realizar pesca artesanal. Além disso, nunca deixou de admirar as belezas naturais do local.
Pescadores são amigos há 40 anos – Foto: Leo Munhoz/NDAmigo de Valdori há 40 anos, Olegario Bartnikowvsky frequenta a Galheta há 53 anos. O policial militar aposentado conta que é no local que se encontra com outros amigos. No entanto, a história era muito diferente há 50 anos.
“Lá no início, não tinha nudismo, não tinha surfista, eram somente pescadores. Tínhamos quatro ranchos e duas parelhas que trabalhavam aqui. O turismo era muito pouco”, conta.
Olegario morava no Córrego Grande quando começou a frequentar a praia, e vinha de lá até a praia a pé. O trajeto tem cerca de 11 km.
Hoje morador das proximidades, diz não se importar com as pessoas nuas que andam pela praia.
“Quem sou eu para achar ruim as pessoas nuas? Por mim eu não me importo. O meu objetivo é ver meus amigos, pegar um peixe e curtir”, conta com sorriso no rosto.
A amizade de Valdori e Olegario é tão forte que foi descrita como “mais valiosa que o dinheiro”.
A liberdade
A dentista Andrea Souza, de 60 anos, estava pela primeira vez completamente nua na praia da Galheta. Segundo ela, a sensação era de “liberdade total”.
“Estou adorando, é uma liberdade total. Apesar de ser mulher e estar nua, percebi assédio de uma pessoa só. Na minha percepção é o esperado. Eu não vejo problema em estar nua, mas a sociedade enxerga esse problema. Não vou ficar nua em um lugar que as pessoas pensam diferente, mas aqui é uma praia de nudismo.”
Andrea Souza comenta a sensação de liberdade de ficar nua pela primeira vez na Galheta – Foto: Leo Munhoz/ND
Mãe de três filhos, Souza conta que como mulher está numa luta contra todo preconceito cultural que existe há anos, sendo assim, vê a nudez como mais uma forma de expressão de uma mulher de 60 anos que aceita seu corpo.
A mesma liberdade foi comentada pela turista americana Rose, de 31 anos, que não quis informar seu sobrenome. Natural do Alabama, a turista diz que esta foi a primeira vez que frequentou uma praia de nudismo, e que o local é lindo.
“Eu me senti segura aqui, é tudo muito diferente. Tudo foi tão intenso, principalmente pela decisão de estar sem roupa, por isso registrei o momento. É libertador para nós podermos estar nuas e, ainda assim, nos sentirmos seguras.”
Além das duas entrevistadas, a praia contava com outros 18 homens, dentre eles, apenas cinco estavam de roupa. Amigos, risadas e cerveja faziam parte da conduta dos frequentadores que foram respeitosos com quem optava por estar de roupa.
Os paradoxos da praia da Galheta são assim: encontros que unem dois pescadores amigos há 40 anos, cachorros que correm livremente, mata costeira preservada e nudismo com respeito.
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