A passagem do navio-escola francês Duguay-Trouin por Florianópolis, no início de 1903, deixou como herança uma série de imagens da região do atual bairro José Mendes, que encantam por retratar cenários bucólicos de mais de um século, incluindo o solar do morador que batiza a comunidade colada ao Centro da Ilha de Santa Catarina.
Aspirantes na praia – Foto: Acervo Mons. Jamil Nassif Abib (SP) e Bruno KadletzA partir da página 142 do livro “Ilha de Santa Catarina” (2015), tomo 1, o escritor e pesquisador Gilberto Gerlach resume as informações que conseguiu apurar lendo os jornais da época e reproduz as fotos deixadas pelo comandante francês Lucien-Joseph Berryer (1850-1927) e sua comitiva.
Comandante Lucien – Foto: Acervo Mons. Jamil Nassif Abib (SP) e Bruno KadletzO navio-escola dava a volta ao mundo com o objetivo de formar aspirantes à marinha francesa – como outros militares designados para a mesma tarefa haviam feito em décadas anteriores.
SeguirA tripulação era composta por 556 homens, incluindo os responsáveis pela equipagem, aspirantes e oficiais do Estado-maior da França. A embarcação tinha 17 canhões de diferentes calibres, metralhadora e tubos de lança-torpedos.
A âncora foi lançada no dia 15 de fevereiro, na chamada ponta do José Mendes, próxima à Ilha das Vinhas, e o comandante logo entrou em contato com a autoridade máxima da Ilha, o governador Vidal Ramos (1866-1954).
Em seguida, como era habitual para embarcações que tocavam o litoral catarinense, tratou de abastecer seu navio com água e mantimentos, porque pretendia seguir viagem em breve.
Acervo Mons. Jamil Nassif Abib (SP) e Bruno Kadletz – Foto: O navioChamada de Desterro até 1894, Florianópolis fora visitada por centenas de outros franceses, nas expedições de comandadas por Frézier (1712), Bouvet de Lozier (1738), Bougainville (1763), La Pérouse (1785), Saint-Hilaire, De La Bravière (ambos em 1820) e Coquille (1822).
Além do citado solar no alto do morro, as imagens feitas desta região da Ilha incluíam uma casa de pau-a-pique no meio de um bananal, vistas do porto e do cais, a praia e o desembarque da tripulação. O calado no navio-escola variava de 6,35m avante e 6,75m de ré.
Casinha em meio aos bananais – Foto: Acervo Mons. Jamil Nassif Abib (SP) e Bruno KadletzNa edição do jornal florianopolitano “O Dia”, de 18 de fevereiro de 1903, foi registrado que Lucien-Joseph Berryer era um “official distincto, lhano e affavel, tendo adquirido as symphatias de todos”.
O comandante já havia passado dois anos no Pacífico e trabalhado no serviço de observação e como torpedeiro. Também foi astrônomo, até assumir o comando naval em 1897, passando para a história como um mestre nas táticas de guerra. Em 1914, assumiu o cargo de prefeito marítimo em Brest, cidade do litoral da Bretanha.
Três bons locais para o banho de mar em Florianópolis
José Mendes dos Reis, que dá nome ao bairro, foi um português que chegou em 1737 à Vila de Nossa Senhora do Desterro como membro de um destacamento militar.
Mais tarde, foi sacristão e vigário da vila da Trindade. Ao se casar, em 1739, recebeu como dote parte das terras que compõem a atual comunidade do José Mendes.
Oficiais, marujos e nativos – Foto: Acervo Mons. Jamil Nassif Abib (SP) e Bruno KadletzA expansão foi lenta, com poucas propriedades, mas o crescimento urbano alcançou também esta parte da cidade. Na segunda metade do século 20, foi instalada ali uma fábrica da Coca-Cola, que depois se transferiu para o município de Antônio Carlos.
Hoje, o bairro José Mendes é o menor em extensão de Florianópolis, com menos de 4.000 moradores. Após a construção do túnel Antonieta de Barros, que liga o Centro ao Sul da Ilha, perdeu a relevância comercial que tinha, em especial na via principal, a rua José Maria da Luz.
No passado, três pequenas praias – José Mendes, do Curtume e do Germano – eram procuradas para banho, o que já não acontece hoje em dia por causa da poluição da baía Sul.