Este Papai Noel sanguíneo e pançudo, zigomas encarnados, barba branquinha e um saco de regalos nas costas é uma figura bem recente na tradição do Natal brasileiro.
A figura de faces rosadas e bonomia estampada no rosto simplesmente não existia antes da segunda década do século 20. Só depois do presidente Washington Luís e da Revolução de 1930 é que o velhinho foi conquistando os seus espaços comerciais, na vitrine das lojas e na retina das crianças.
Papai Noel – Foto: Assessoria Floripa Shopping/Divulgação NDOswaldo Cabral não encontrou traços de Papai Noel na sua “Memória do Desterro” durante o primeiro quartel do século passado. O próprio Natal vivia uma discreta liturgia, restrita à Missa do Galo, ao beija-mão do Menino Jesus e à montagem dos presépios caseiros.
SeguirA figura opulenta de Papai Noel é marketing pós Estado-Novo e Segunda Guerra, quando os americanos baldearam para cá alguns dos seus usos e costumes, entre os quais o brilho comercial de Santa Claus, assim como agora estão exportando o costume do Halloween.
A origem daquele que hoje é o próprio emblema do Natal, na estampa do balofo homem-de-vendas, está cravada na antiga Rússia de São Nicolau, seu padroeiro, que a cada Natal montava num corcel branco, para o qual as crianças deixavam o melhor feno do estábulo.
Na Lapônia finlandesa, os cavalos brancos de Noel foram substituídos por renas – e, assim composta, a figura foi adotada por toda a Europa – menos pela França, é claro. Lá o Papai Noel é o Bonhomme, que desce do céu para presentear a criançada, junto com seu parceiro mau, Père Fouettard, este, uma espécie de desmancha-prazeres. Para as criancinhas mal comportadas, em vez de regalos, esse carrasco distribui açoites com um feixe de varas de marmelo…
“Havia algumas comemorações particulares” – registra Cabral – “mas não se falava em Noel ou em presentes de Natal. A primeira notícia da celebração natalina, em Floripa, deu-se em O Mercantil de 1o de janeiro de 1868, revelando, “como grande novidade”, o hábito de se “armar presépios durante a semana do Natal”. A informação vinha acompanhada de um registro certamente pitoresco: “Este ano – dizia o jornal – têm sido inúmeros os presépios, sendo de se notar que poucos sejam merecedores de elogios.”
Não bastasse a falta de generosidade, O Mercantil ainda anexava a seguinte pérola:– Num desses presépios particulares, acessíveis à visita de curiosos, lê-se o aviso que abaixo se transcreve: “Pede-se aos visitantes que não beijem o boizinho, como por diversas vezes tem sido feito.” Pode dar micróbio.Festa, mesmo, começava só depois do Dia de Reis, em 6 de janeiro, quando os ternos saíam a cantar pelas ruas e casas, desde o Natal até a epifania.