Um livro impresso compõe uma “mancha”, as letras alinhadas e organizadas para formarem as páginas, os capítulos, os romances – o texto, enfim.
Quem lê sabe que a “mancha” vai se tornando um “borrão”, a exemplo daqueles painéis de oftalmologistas, em que as letras aparecem cada vez menores e embaciadas, em degraus decrescentes. É quando apelamos para “os óculos”.
Leitura de um livro – Foto: PixabayQuem teria sido o genial inventor desse cavalete de aumento, encilhado sobre o nosso nasal, a serviço da compreensão? Alberto Manguel, argentino, tido como o leitor mais compulsivo do mundo – já leu quase tantos volumes quanto os contidos na maior biblioteca do planeta, a do Congresso americano – tem um calo sobre o terço médio da face, onde fica o nariz.
SeguirPara ele, um apêndice muito mais útil por sustentar suas lentes do que por servir ao exercício da respiração. Manguel até hoje se espanta com essa “invenção”:- É emocionante imaginar o alívio do primeiro humano de óculos. Um sexto de toda a humanidade é míope.
Entre os leitores, a proporção é muito maior: 24%. Aristóteles, Lutero, Schopenhauer, Goethe, Schiller, Keats, Tennyson, Yeats, Unamuno, James Joyce – e a imensa maioria dos gênios e dos escritores tinham os olhos fracos. O próprio Alberto Manguel, quando jovem, lia para o “cegueta” Jorge Luís Borges, que já não conseguia decifrar “a “mancha”.
O sábio argentino lia pelos olhos do adolescente Manguel – e assim foi até o fim de sua vida.Voltando à inquietante questão: quem teria inventado esse artefato – utilidade tão preciosa e “plural”, os óculos?Parece que, como o avião – que tem mais de um pai além do brasileiro Santos Dumont – os óculos também têm vários “progenitores”.
O primeiro pode ter sido um certo Spina, monge da Idade Média, de quem se dizia que “fazia óculos e ensinava essa arte de graça para os necessitados”. O inspirador de Spina pode ter vindo da Idade Antiga – e ter sido ninguém menos do que o Imperador Nero – louco, míope e fascinado por prismas.
Oficialmente o inventor dos óculos foi um certo Salvino degli Armati, cuja lápide, na parede da Igreja de Santa Maria Maggiore, em Florença, o homenageia como o “O inventor dos Óculos”, e acrescenta: “Que Deus o perdoe e se apiede dos seus pecados, incluído o da bisbilhotice. A.D. 1317.”
Claro que perdoamos tudo ao bom e curioso inventor. Apenas onze anos depois da Bíblia de Gutemberg, de 1450 – em 1461, portanto – fabricantes de óculos ficaram conhecidos em Estrasburgo, Nuremberg e Frankfurt, onde os vidrinhos mágicos já eram oferecidos nas ruas. Os óculos tinham virado artigos de “camelotagem”, em plena Idade Média.
De tão úteis, esses aros envidraçados ainda não cogitam de aposentadoria, mesmo diante da ameaça do “Kindle”, a nova e revolucionária “prateleira” de livros da Amazon. O aparelhinho é um inacreditável “mostrador” de e-Books – e, claro, dispensa os óculos.
Se os olhos do leitor já estiverem cansados, o Kindle faz a caridade de aumentar a letra até que esta possa ser lida por alguém quase cego.Como até a morte serei fiel aos livros de papel, os meus “oclinhos” continuarão fazendo parte da minha caveira – aqui e além. Trago-os sobre o nariz desde a mais remota infância. São perenes credores da minha eterna gratidão.Amém