Eles não se escondem mais atrás de quadrinhos de super-heróis e, há anos, não condizem com os antigos estereótipos fixados na cabeça de muita gente. Você ainda pode encontrá-los fazendo cosplay de Darth Vader ou Arlequina em uma CCXP (Comic Con Experience), mas, por baixo das caracterizações e do amor pela cultura pop, os geeks de hoje em dia estão bem distantes de suas personas dos anos 2000.
Apesar das diferenças entre gerações, a cultura pop continua sendo o pilar que une a comunidade geek – Foto: Pexels/Reprodução/NDNatural de Belém, no Pará, o advogado Marcelo Cunha de Oliveira Bastos faz parte da comunidade geek desde a adolescência. “Acredito que a paixão começou quando fui pela primeira vez no cinema ver ‘Star Wars: O Retorno de Jedi’, conta.
Marcelo considera-se geek desde sua adolescência – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/NDO filme estreou nas telonas em 1983 e, desde então, a preferência de Marcelo pela cultura pop só foi sendo acentuada. Atualmente, com 50 anos, ele garante que o amor que nutre por essa parte de sua vida é tão forte quanto naquela época. “Meu gosto ficou mais apurado, até porque você passa a ter mais técnica ao analisar essas produções, mas sem esquecer a diversão que elas proporcionam”.
SeguirO interesse era tanto que, em 2016, o advogado criou a página @presepadageek no Instagram. “Eu lia muito sobre isso, tinha muitas informações e achei que podia dividir esse conhecimento com as pessoas”.
De lá para cá o advogado já somou 240 mil seguidores. O conteúdo vem rendendo parcerias, ingressos para cabines e pré-estreias, além de brindes exclusivos. Apesar dos “mimos”, Bastos comenta que o perfil o proporciona muito além disso.
“A página é meu antiestresse diário, é onde me divirto e onde faço interação com várias pessoas”, conta.
Giovanna reside em São Paulo, e também faz parte da comunidade geek desde sua adolescência, sendo assídua por videogames e mundos fictícios, como a Terra Média e Hogwarts – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/NDO sentimento é compartilhado por Giovanna Coelho Pagano. Também formada em advocacia, porém atuante da área de marketing digital, a jovem de 24 anos é a administradora responsável por trás da página @umageekmedisse.
Ela conta que o perfil nasceu em outubro de 2019, no mesmo ano em que o longa-metragem “Vingadores: Ultimato” estava em alta. O filme encerrava a fase quatro de uma das maiores franquias cinematográficas e trazia detalhes que somente os fãs mais assíduos das histórias criadas por Stan Lee podiam perceber.
“Meus amigos vivam me questionando sobre assuntos relacionados a isso, já que eu sempre estava por dentro desse mundinho. Foi assim que eles me incentivaram a criar a página, para tirar essas mesmas dúvidas do público”.
É assim que, com o auxílio da internet, tanto Giovanna quanto Marcelo representam o que hoje é a “nova faceta” da comunidade geek, que tenta, diariamente, desmistificar antigas características e preconceitos tão associados a este público.
Um noção bem deturpada, por exemplo, é a de que somente homens se interessam por histórias de ação e aventura. “Uma pesquisa mostrou que 51% dos consumidores da Marvel são mulheres. Foi de uns dez anos para cá que isso mudou, mas ainda há pontos negativos”.
“Por eu ser mulher, eu sou subestimada. Isso é fato. O que eu faço é transformar isso em algo positivo”, diz.
“As pessoas olham para mim e acham que eu sou poser [aquele que finge gostar de algo]. Então eu uso isso como uma vitrine. Eu compartilho meu conteúdo, elas entram no meu perfil pensando que eu falo coisas erradas e se surpreendem ao perceber que eu sei bastante sobre o que estou postando”, conta Giovanna.
A maior representação feminina em cena – e também nas páginas de graphic novels, por exemplo – auxilia neste processo. Com cada vez mais personagens mulheres conquistando o estrelato e o protagonismo nas histórias da cultura pop, esses preconceitos têm cada vez menos espaço nas críticas e rodas de discussão.
Outro problema enfrentado, segundo Marcelo, é a questão da idade. “Às vezes rola uns comentários tipo ‘imagina alguém de 50 anos gostar dessas coisas!’ ou então ‘nessa idade lendo revistinha?’. Mas eu não me importo, não tenho vergonha. Por isso mesmo continuo postando conteúdos em minha página do Instagram”.
É dessa forma que os dois lutam, dia após dia, para que a comunidade geek seja menos “nichada” e antiquada e mais igualitária, abraçando todas as diferenças. “O acesso à informação tem esse poder de mudança”, diz Giovanna.
Mas e os nerds?
Apesar do constante mergulho nos contos de fadas, o mundo real difere das terras mágicas e ficcionais presentes na cultura pop. Quando o termo “geek” foi cunhado, em 1876, ele era sinônimo da palavra “fool“, que em tradução literal significa “bobo”.
Levou mais de 100 anos para que a expressão, de fato, remetesse às pessoas que se interessam por games, computação, filmes e séries.
Foi somente no começo dos anos 1990 que a expressa voltou à tona, desta vez para ficar. Mas como nem tudo é tão simples: o termo passou a ser usado de maneira errônea por pessoas de fora da comunidade para denominar os que se intitulavam como nerds.
Este último grupo, fortemente marcado pela lembrança de personagens como o cientista Sheldon Cooper, da série “The Big Bang Theory”, ou então a investigadora Velma Dinkley, do desenho clássico “Scooby-Doo”, difere dos geeks por possuírem interesses voltados às ciências e aos estudos.
Personagem interpretado por Jim Parsons é um dos melhores exemplos do que era o estereótipo de uma pessoa nerd nos anos 90 e 2000 – Foto: Divulgação/NDO termo “nerd”, entretanto, também surgiu como uma palavra pejorativa, por volta dos anos 1954, para designar alguém como esquisito. O responsável foi o cartunista norte-americano Theodor Seuss, que desenhava personagens magrelos incapazes de socialização.
Por conta disso, como bem explica Marcelo, “na época dos anos 1980 e 1990 havia muito preconceito contra os nerds”.
“É só pegar os estereótipos criados nos filmes daqueles anos. Os nerds eram inteligentes, mas nada tinham de atrativo para outras pessoas. Aí parecia que eles não namoravam, não treinavam, não saíam para festas. Tudo isso é uma inverdade que o tempo tratou de corrigir”, acrescenta.
Apesar da temporada final de Game Of Thrones ser motivo de repúdio entre a comunidade geek, o desenvolvimento do seriado foi de extrema importância para o cultivo de mais pessoas no meio – Foto: Divulgação/NDO pensamento é compartilhado por Giovanna. “A sociedade foi evoluindo para abraçar esses termos. Quando a Marvel introduziu o MCU [Universo Cinematográfico da Marvel], quando “Game of Thrones” foi adaptado, passamos a ter uma maior aceitação. Obras como “Star Wars” e “Harry Potter” também contribuíram para isso. Hoje, quando falo para as pessoas que sou geek, a galera acha irado. Deixou de ser motivo de vergonha ou ridicularização, sabe?”.
“A mensagem é: não tenha vergonha de ser nerd! Não tenha vergonha de assumir esse lado geek, por mais que falem ou que achem besteira. Você não está sozinho! Somos milhões de pessoas que alimentam essa indústria do entretenimento, somos a força motora dela, e precisamos ser reconhecidos por isso sempre!”, relembra Marcelo.
“Tem muita coisa vindo por aí. É um bom momento para sermos geeks”, frisa, completa Giovanna.