A importância dos sambaquis é bem conhecida em Joinville, no Norte de Santa Catarina: desde as séries iniciais, os alunos aprendem sobre os grandes montes que guardam registros da ação de povos pré-históricos e há até um museu específico sobre o tema na cidade.
Materiais são catalogados e armazenados no museu – Foto: Prefeitura de Joinville/DivulgaçãoMas apesar de estarmos falando de estruturas datadas de milhares de anos, ainda há muito o que se descobrir sobre elas. E prova disso que é uma pesquisa sobre um dos sambaquis joinvilenses tem revelado novidades sobre a vida dos povos que habitavam o lugar.
Há cerca de duas semanas, pesquisadores têm se debruçado novamente sobre o Sambaqui Cubatão I, estrutura com oito metros de altura e cerca de 5.600 m² de extensão localizada na Estrada Cubatão Grande, na zona Norte da cidade, bem às margens do rio Cubatão.
SeguirO primeiro registro de estudo do local remete a década de 1960 com a exploração do sambaqui pelo historiador e professor da UFSC, Walter Piazza. Mais recentemente, ele foi estudado em 1999 e entre 2007 e 2010 por equipes do Museu de Sambaqui.
Na atual pesquisa, além de fibras com nós trançados, cordas e cestarias, um material especial tem chamado a atenção dos especialistas: são 190 estacas com ponta encontradas em raro estado de conservação, datadas de 3 mil anos atrás, um diferencial que torna esse sambaqui único.
As estacas são a grande novidade da atual pesquisa – Foto: Prefeitura de Joinville/Divulgação“Esse sítio tem estruturas que são raras, únicas, que não existem no resto do Brasil e talvez no mundo dessa forma, com estruturas da base tão bem conservadas e na quantidade que a gente está encontrando”, explica a arqueóloga Dione da Rocha Bandeira.
A conservação das estacas se deve ao fato de que estavam encharcadas e enterradas, o que facilitou o processo. Assim que retiradas, elas são colocadas em um líquido que permite a conservação e, como outros materiais encontrados, são catalogadas e enviadas ao museu.
Sambaqui tem oito metros de altura e cerca de 5.600 m² de extensão – Foto: Prefeitura de Joinville/Divulgação“Todo sítio é original, é um diferente do outro. A gente encontra muitos materiais, artefatos de rocha, batedores, polidores, lâminas de machado, mas o que a gente encontra de mais original e diferente aqui são as estacas com ponta, conservadas encharcadas ao longo desses mais de 3 mil anos”, destaca Dione.
Outro achado que se destaca na atual pesquisa é a localização de um esqueleto e de adornos de sepultamento. “Logo que começamos a atuar nessa parte elevada, encontramos material humano e um sepultamento estruturado. Estamos tentando evidenciar o sepultamento para ter informações sobre a posição, entre outros detalhes, mas a ideia é retirar para continuar com o trabalho”, fala a arqueóloga.
A pesquisa ainda vai ajudar a entender se há relação entre o grupo que habitava a região e outro grupo que viveu na Baía de Guaratuba, no Paraná. “Depois de terminar, vamos tentar identificar se havia relação entre os grupos. Eu me sinto privilegiado, pra mim isso é um presente”, conta o arqueólogo Julio César de Sá, que fez doutorado sobre o tema.
Dione explica que as estacas são achados únicos – Foto: Prefeitura de Joinville/DivulgaçãoO projeto conta com a parceria da USP, UFSC, UFPel, UFF, Univille, além da Universidade de Barcelona, FioCruz e Museu Nacional do Rio de Janeiro. O objetivo é reunir todo o material do sítio para subsidiar pesquisas atuais e futuras, que ajudem a interpretar o passado.
A iniciativa é financiada pelo Ministério Público, a partir de um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) com a empresa FRIGG S.A., firmado entre o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a Asmasj (Associação dos Amigos do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville). O projeto conta com o apoio da Prefeitura de Joinville, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, que cedeu profissionais para a pesquisam e da Secretaria de Infraestrutura Urbana.