No domingo da grande procissão o Calvário se transferia para o Largo Treze de Maio, como se a Galileia começasse ali, na rua Menino Deus. A Verônica subia numa escadinha e entoava o seu doloroso canto, desenrolando o sudário – e, nele, desenhado em sangue, aparecia o rosto de Cristo.
Menino, acompanhei os passos do Senhor subindo o “Gólgota” das ruas Bulcão Vianna e Menino Deus, conduzido pelos pares da Irmandade, todos “roxos de fé”, em suas opas de cor púrpura, as beatas cobrindo o rosto com as rendas da Ilha, as mães tangendo pela mão crianças vestidas de Arcanjos, Nossas Senhoras, Verônicas e Cristos flechados.
Procissão Senhor dos Passos na Capital neste domingo (3) – Foto: Apoio Comunicação/Divulgação NDDepois, Ele voltaria às ruas,morto, dentro de uma urna de vidro. E o “Senhor Morto” era ainda mais impressionante do que o Senhor pedestre e flagelado. Meu receio era de que Ele me considerasse também culpado por sua morte e viesse me buscar no meio da noite, trazendo uma urna de vidro pra mim também.
SeguirTemores de um pequeno pecador, subjugado mais ao medo do que ao dogma. Garoto, fascinava-me a passagem bíblica da prisão de Cristo no Horto das Oliveiras.
Se Ele podia tudo, por que não dava uma de super-herói,gritava “Shazam!” e partia pra cima dos filisteus? – voando como um Capitão Marvel e botando a turma pra correr?- Era para que o Cálice se cumprisse…– explicava minha avó, misteriosa. E ensinou: “Cristo deixou-se prender” “para que se cumprisse o cálice, a grande provação, o ato misericordioso de salvar a humanidade”.
O Mestre reagiu aos guardas romanos com um gesto milagroso,mas pacífico, restaurando a orelha decepada do servo Malcon – e o curou, como se ela jamais tivesse sido arrancada a golpe de arma branca.- Gostaria de ter visto essa “mágica”!- pensei, enquanto observava a estranha orelha de um rapaz da vizinhança, que perdera “meia-orelha”, chamuscada no incêndio de um circo.
O rapaz, chamado“Nilo”, logo passou a ser conhecido como “o orelha queimada”. Para mim,era o servo Malcon em pessoa. Estive em vias de a ele me dirigir, propondo:- Por que é que você não conserta essa sua orelha e pede pro Dos Passos arrumá-la, quando Ele passar por aqui?
De minha parte, estarei na calçada, com fé, vendo passar a procissão, agora na sua 256ª edição,ressuscitada depois da pandemia.Vou pedir ao Senhor da nossa querida Irmandade dois novos milagres –redentores – para a igreja e para o Brasil: por favor, melhore a orelha e o coração dos nossos políticos…