Primeira igreja edificada em SC tem 277 anos e aguarda revitalização há duas décadas

Situado em Governador Celso Ramos, templo é considerado o marco zero da Grande Florianópolis, mas está desprestigiado e não recebe missas há dois anos

Daniela Ceccon e Nícolas Horácio Florianópolis

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Localizada na Armação da Piedade, em Governador Celso Ramos, a Igreja Nossa Senhora da Piedade tem 277 anos. Nas duas últimas décadas, entretanto, aguarda uma reforma que parece impossível. A primeira igreja edificada em Santa Catarina parou em último na fila das prioridades.

Igreja Nossa Senhora da PiedadeIgreja Nossa Senhora da Piedade tem mais de 200 anos de histórias e aguarda reforma há 20 – Foto: Reprodução/NDTV

A construção entregue em 1745, em estilo colonial português, é tombada. Mas nem a relevância histórica, o charme açoriano e o clamor da comunidade local conseguem resgatar o prestígio da construção religiosa.

Há cinco anos, o templo estava com infiltrações e rachaduras comprometedoras, por exemplo. A maior preocupação era o telhado, que ficou esburacado após um temporal. As paredes também ficaram com problemas e a forte chuva apodreceu as madeiras de sustentação e da escadaria que leva ao segundo andar. Resultado: risco iminente de desabamento.

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Avelino é um dos moradores que luta pela revitalização da igreja – Foto: Repdorução/NDTVAvelino é um dos moradores que luta pela revitalização da igreja – Foto: Repdorução/NDTV

Há dois anos, missas não são mais celebradas no local e o jeito foi improvisar num pequeno salão. O pescador e artesão Avelino Odilio Dias falou que a comunidade até conseguiu arrecadar dinheiro para arrumar o telhado, entretanto, a liberação dos órgãos públicos não veio.

“Tínhamos dinheiro ao menos para o telhado e teríamos as celebrações e missas aqui. Hoje, você vê que essa igreja está indo abaixo”, lamentou Avelino.

“A santa, tudo que tinha aqui dentro, que é histórico, de anos, foi deixado. Está morrendo a história da comunidade, que nasceu junto com a igreja. É triste morar aqui e ver isso”, disse a cuidadora Darlene Quintino.

A arquiteta Mariela Zingoni Baro lembrou de um detalhe que torna Nossa Senhora da Piedade especial: “Só 12 igrejas no Brasil do Século 18 foram construídas de frente para o mar. As igrejas eram construídas em frente a uma praça. Por isso temos pena desse estado de completo abandono.”

A arquiteta Mariela também lamenta a situação de abandono da primeira igreja edificada no Estado – Foto: Reprodução/NDTVA arquiteta Mariela também lamenta a situação de abandono da primeira igreja edificada no Estado – Foto: Reprodução/NDTV

A última restauração foi no começo dos anos 2000. Mariela participou do projeto, mas explicou que a manutenção foi insuficiente. “Toda comunidade está querendo ver como fazer e como ter orientação e verba para esse restauro”, declarou a arquiteta.

A igreja faz parte da Arquidiocese Metropolitana de Florianópolis, mas como é tombada pela FCC (Fundação Catarinense de Cultura), o pedido da comunidade é a intervenção imediata do órgão. Ano passado, os moradores criaram uma comissão para cobrar a revitalização. William Brenuvida, membro da comissão, falou sobre a importância do local:

“É o marco zero da Grande Florianópolis. O primeiro empreendimento, de uma empresa mesmo, instituída em Santa Catarina, no período colonial, é a Armação da Piedade. As decisões políticas e religiosas foram ali durante muito tempo.”

Pelas mãos do poder público, uma ciranda

A Prefeitura de Governador Celso Ramos informou, por nota, que apoiou a criação da comissão formada, em 2021, por moradores e amigos empenhados na restauração da igreja.

“Estamos empenhados em promover um conselho municipal de cultura e vamos buscar formalizar um termo de cooperação técnica entre o município e a FCC para a revitalização, conforme exige a legislação estadual e federal. A Igreja é um bem religioso e de importância sociocultural não só para Governador Celso Ramos, portanto, a prefeitura se coloca à disposição para ajudar, porém, não pode agir isoladamente porque a Igreja não é um bem da prefeitura.”

Telhado da Igreja Nossa Senhora da PiedadeTelhado da Igreja Nossa Senhora da Piedade é um dos pontos que mais preocupa a comunidade – Foto: Reprodução/NDTV

O poder público municipal reiterou, na nota, que a revitalização requer autorização da FCC, por ser um bem tombado, e da Mitra Diocesana, dona do edifício.

“Qualquer recurso investido nesta restauração requer aprovação da FCC, da Mitra, e da população. A prefeitura está empenhada na restauração da igreja e fará todo o possível, dentro dos trâmites legais, para que seja restaurada com brevidade.”

A FCC também se manifestou em nota alegando que, até 11 de julho, não existia projeto de restauro para a igreja tramitando na fundação. Além disso, indicou que, desde 2016, notifica a arquidiocese de Florianópolis, pois manutenções em bens tombados seriam de responsabilidade do proprietário, com autorização da fundação.

Rachadura na Igreja Nossa Senhora da PiedadeRachaduras nas paredes também incomodam – Foto: Reprodução/NDTV

“Queremos uma solução! O Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] empurra pra Mitra, a Mitra para a prefeitura, a prefeitura para a comunidade. Não sabemos mais o que fazer”, enfatizou o comerciante Paulo Roberto dos Passos.

A comissão de moradores busca soluções paralelas, principalmente com o apoio da lei de incentivo cultural. A ideia é viabilizar a revitalização e resolver o problema que se arrasta há duas décadas: “Não podemos perder a referência dessa igreja no contexto da história catarinense. Ela é muito importante para nós!”

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