O livro “A Música do Morro das Mulheres” foi lançado pelo professor da rede municipal de ensino de Florianópolis, Rodrigo Cantos. A obra aborda a manifestação musical das mulheres negras da comunidade do Monte Serrat, do Centro da Capital.
Livro “A Música do Morro das Mulheres” também aborda cacumbi, samba, umbanda, catolicismo, pagode e hip-hop – Foto: Divulgação/ND“Muitas vezes as mulheres foram protagonistas na construção da música na comunidade, em outras elas foram invisibilizadas, por conta da cultura machista. Mas é inegável que elas são os pilares da comunidade do Monte Serrat”, ressalta Rodrigo. “É uma comunidade praticamente matriarcal.”
O autor fez um levantamento que remete ao início do século XX, com destaque para o canto das lavadeiras, o cacumbi e o terno de reis. Passa pelas manifestações mais estabelecidas e duradouras, como samba, umbanda e catolicismo e chega até as novas tendências propostas pela juventude como, o pagode e o hip-hop.
SeguirO estudo se orienta pela perspectiva das relações de gênero, procurando perceber como as mulheres participam das atividades musicais, e como as relações de gênero – instituídas de poder, prestígio, hierarquia e discriminações – afetam, modelam e estruturam o discurso e o fazer musical dos moradores e moradoras daquela comunidade.
Ser um homem branco estudando mulheres negras
Rodrigo conta que o interesse pelo assunto surgiu quando era bolsista de iniciação científica, incentivado por sua orientadora da época. Mesmo após a morte da professora, ele seguiu estudando a temática. Desde então, são 15 anos dedicados ao estudo da música de mulheres negras.
Sobre ser um homem branco estudando mulheres negras, Rodrigo ressalta que é cuidadoso porque existe o “lugar de fala” e ele é externo ao universo que aborda.
“A gente entende que o conhecimento é produzido a partir de pontos de vista. O meu ponto de vista é externo, já que eu sou um homem branco. Mas também é importante porque é complementar ao que é produzido, de alguém de fora”, diz.
Além disso, ele ressalta que nas últimas duas décadas houve uma crescente valorização da cultura negra.
“Houve um movimento de empoderamento da população negra, porque houve investimentos na educação e valorização do conhecimento produzido por ela. Apesar do retrocesso dos últimos três anos, os ganhos foram muito maiores que as perdas nas últimas duas décadas.”
O livro está disponível tanto no formato e-book como no modo impresso, pela Amazon Edições. A obra é resultado do trabalho de conclusão de curso de Rodrigo em Licenciatura em Música na Universidade do Estado de Santa Catarina. Logo que se formou, em 2008, o autor tentou publicar o trabalho, mas, como afirma, a vida o levou a outros rumos. “O projeto de publicação ficou arquivado por alguns anos”, diz.
Mergulho na cultura Afro-brasileira
Rodrigo Cantos atualmente é assessor pedagógico no órgão central da Secretaria Municipal de Educação. Por meio das falas das moradoras – recolhidas por meio de entrevistas e conversas informais –, a pesquisa dele buscou compreender seus saberes, seus conhecimentos, suas histórias e opiniões.
Ele concluiu o doutorado em Antropologia Social na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) em 2018, quando investigou sobre a maestrina brasileira Chiquinha Gonzaga. Lançou seu primeiro livro em 2017, “MPB no feminino: notas sobre relações de gênero na música brasileira”, pela editora Appris.
Rodrigo Cantos atualmente é assessor pedagógico no órgão central da Secretaria Municipal de Educação – Foto: Divulgação/NDEm 2008 recebeu o 3º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero pela Secretaria Especial de Políticas para Mulheres.
Em 2012, ganhou o II Prêmio Nacional de Pesquisa sobre Cultura Afro-brasileira pela Fundação Palmares por sua dissertação de mestrado. No ano de 2014 foi um dos agraciados com o Prêmio Professor Nota 10 da Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis.