Quando o Carnaval de Florianópolis se tornou um espetáculo

“O Carnaval das Grandes Sociedades em Desterro/Florianópolis – 1858-2011”, do bibliotecário e pesquisador Alzemi Machado, traz à luz sociedades da festividade de outrora

Foto de Paulo Clóvis Schmitz, Especial para o ND

Paulo Clóvis Schmitz, Especial para o ND Florianópolis

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Cidade com pouco apreço pelo passado, Florianópolis comete mais uma insensatez ao relegar ao esquecimento o trabalho de um século e meio das grandes sociedades carnavalescas. Gerações e gerações de foliões fizeram mais pela capital catarinense do que qualquer outro segmento cultural, pelo tempo em que os grupos permaneceram em evidência e pela contribuição dada ao Carnaval, porque foram a origem das escolas de samba e durante décadas representaram o próprio cerne da folia.

Carro de mutação FordFolia, da Limoeiro, em desfile de 1983 – Foto: DIVULGAÇÃO/NDCarro de mutação FordFolia, da Limoeiro, em desfile de 1983 – Foto: DIVULGAÇÃO/ND

O que consola é que sempre há alguém disposto a escarafunchar os arquivos e escancarar, para as novas gerações e para políticos de pouca memória, a herança do que construiu quem aqui esteve antes de nós. Às 18h da próxima quarta-feira (6), será lançado nos jardins do Palácio Cruz e Sousa o livro “O Carnaval das Grandes Sociedades em Desterro/Florianópolis – 1858-2011”, do bibliotecário e pesquisador Alzemi Machado. O volume tem 408 páginas e sai pela editora Cruz e Sousa.

A obra é o coroamento de uma pesquisa que começou há quase duas décadas, quando o autor percebeu que uma tradição cara à cidade estava se perdendo, não só pelas transformações da folia, mas porque o poder público nunca demonstrou interesse em preservar, nem que fosse como acervo ou espólio, uma manifestação autêntica e genuína que já fez de Florianópolis a sede de um dos melhores carnavais do país.

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Sociedades como a Diabo a Quatro, Bons Arcanjos, Filhos de Minerva, Vai ou Racha, Granadeiros da Ilha, Tenentes do Diabo, Trevo de Ouro e Limoeiro foram apenas algumas das dezenas que a cidade criou desde 1858, quando grupos dançantes sem compromisso, a não ser com a alegria proporcionada pela folia se organizaram, incorporando técnicas e práticas correntes no Rio de Janeiro para desfilar – o que não era habitual até então.

Da terceira geraçãode família referênciana folia, SérgioMurilo Xavier assinaas ilustrações do livrodo escritor AlzemiMachado, editadopor Fábio Garcia – Foto: DIVULGAÇÃO/NDDa terceira geraçãode família referênciana folia, SérgioMurilo Xavier assinaas ilustrações do livrodo escritor AlzemiMachado, editadopor Fábio Garcia – Foto: DIVULGAÇÃO/ND

Em fevereiro daquele ano surgiu a Sociedade União Carnavalesca, dirigida por Manuel José de Oliveira. Em seguida, apareceu a Sociedade Carnaval Desterrense, por obra de Manoel Pinto Portella. Com o tempo, vieram os carros de mutação, um pioneirismo que ninguém tira do Desterro, hoje Florianópolis. Essa novidade fez sucesso também fora do Estado e foi exportada para o Rio de Janeiro, onde em 1911 o manezinho Alfredo Juvenal da Silva criou as evoluções que ajudaram a sociedade Democráticos a ganhar o título do Carnaval carioca daquele ano.

Com o trágico fim do Museu do Carnaval, um acervo que se perdeu em enchentes e mudanças de endereço, pouco sobrou dos tempos áureos das grandes sociedades. O que restou são fotos de baixa qualidade, tiradas por foliões anônimos, e o que permanece na memória dos carnavalescos, saudosos da alegria que espalhavam pelas ruas, mesmo com idas e vindas, sequências e interrupções, até a tradição morrer de inanição, em 2012.

A moda que veio para substituir o entrudo

A história do Carnaval no Brasil passa necessariamente pelo entrudo, uma manifestação popular que foi reprimida porque teria um caráter violento – eram brincadeiras de rua que envolviam escravizados e pessoas do povo no período de Momo. O entrudo deu origem às marchinhas, marchas-rancho, sambas de salão e de enredo, frevos e grandes blocos, mas as elites cariocas optaram por importar o modelo europeu dos bailes sociais, mais elitizados, com fantasias, máscaras e lança-perfumes, confetes e serpentinas. Era a transgressão consentida, comportada, mais branca que negra, nos moldes do que também aconteceu quando se tentou embranquecer o futebol no país.

No distante 1912, carro alegórico pronto para desfile no Carnaval da capital catarinense – Foto: DIVULGAÇÃO/NDNo distante 1912, carro alegórico pronto para desfile no Carnaval da capital catarinense – Foto: DIVULGAÇÃO/ND

Como em outras áreas, o modelo carioca chegou às províncias e por aqui resultou em uma novidade que logo caiu no gosto geral. Entre os dias 6 e 8 de março de 1858 houve desfile na rua Augusta, atual João Pinto, com integrantes mascarados que puxavam o cortejo. Os anos seguintes incorporaram cavaleiros vestidos a caráter e bandas de música com fantasias. Depois vieram os carros alegóricos, as declamações poéticas e a distribuição de flores naturais à plateia. Somente em 1860 é que as grandes sociedades, como passaram a ser chamadas, estrearam em São Paulo, e em 1870 foram registradas pela primeira vez em Recife.

No Desterro, viraram tradição os desfiles com a presença de grupos de boi de mamão, pau de fitas e cacumbi. Mas os carros de mutação e evolução, que tanto encantavam o público, ainda estão na lembrança das gerações mais velhas. “O pioneirismo é nosso”, diz o bibliotecário Alzemi Machado, destacando como um momento especial o carro “A grande flor misteriosa”, que os Bons Arcanjos levavam para as ruas no Carnaval de 1885.

Cidade não guardou registros de uma manifestação histórica

Os carros de mutação e evolução eram precedidos pelos carros de rainha e de alegoria. Um dos registros fotográficos mais clássicos é de 1958 e mostra a Granadeiros da Ilha num carro que evoluiu a ponto de uma passista entregar um ramalhete de flores à família do governador Jorge Lacerda, na sacada do palácio do governo, atual Palácio Cruz e Sousa, na praça 15 de Novembro.

Ao contrário do Rio de Janeiro, onde sociedades, blocos e escolas sempre tiveram áreas específicas para se apresentar, por aqui tudo se misturava e tumultuava, no bom sentido, a praça central e a rua Felipe Schmidt.

Ao lado, carro em mutação de alegoria daSociedade Filhos de Minerva, dos anos 1910. Acima,Tenentes do Diabo desfilam na Praça XV em 1956 – Foto: DIVULGAÇÃO/NDAo lado, carro em mutação de alegoria daSociedade Filhos de Minerva, dos anos 1910. Acima,Tenentes do Diabo desfilam na Praça XV em 1956 – Foto: DIVULGAÇÃO/ND

Em seu livro, Alzemi Machado mostra como os carros eram construídos e manuseados. A partir de um enredo pré-definido, criava-se um desenho ou protótipo. A etapa seguinte era a execução do projeto do carro, construindo a estrutura e as caixas dos estágios da mutação, constituídas de chassis de caminhão, madeira, pregos, parafusos, arames, roldanas, cabos de aço, ferramentas e solda. Depois vinha a parte elétrica, que envolvia fios, tomadas, interruptores, bocais, disjuntores e efeitos especiais de água e fumaça, por exemplo.

Sérgio Murilo Xavier, da terceira geração de uma família que criou e manteve a sociedade Granadeiros, diz que eram usados cabos de aço e molinetes, manuseados por uma pessoa que ficava na parte inferior da estrutura.

“Nos carros mais antigos, havia marcas nos molinetes que ajudavam a marcar os movimentos”, conta Sérgio, que também desenhava as maquetes. Era tudo muito artesanal e a madeira de caixaria servia para consolidar as estruturas. Responsável pela instalação dos cabos de energia, a Celesc era quem autorizava o início dos desfiles, após os devidos testes.

Carro Cogumelo Estilizado, de1980 – Foto: DIVULGAÇÃO/NDCarro Cogumelo Estilizado, de1980 – Foto: DIVULGAÇÃO/ND

Um disjuntor interno servia para ligar e desligar a energia. Os carros paravam em locais estratégicos, como na frente no palácio do governo e dos membros da comissão julgadora – porque os desfiles eram competitivos e davam direito a prêmios. Sérgio chegou a levar uma descarga elétrica num dia de desfile com chuva, no Carnaval de 1986. Ele é um dos nativos que mais conhecem a história das grandes sociedades, porque é neto do pioneiro João dos Passos Xavier (um dos criadores da Granadeiros), filho, sobrinho e irmão de carnavalescos com o samba nas veias.

Ele é mais um que lamenta o fim das grandes sociedades e a ausência de peças, vestimentas e registros dos desfiles, privando as novas gerações de conhecer uma manifestação intimamente ligada à história da cidade. Para o autor do livro, Alzemi Machado, esse trabalho de 153 anos deveria ser tombado como patrimônio imaterial de Florianópolis, porque valorizaria o “saber fazer” de centenas ou milhares de artífices e foliões.

Carro de mutação Recordar é Viver no Carnaval de 195 – Foto: DIVULGAÇÃO/NDCarro de mutação Recordar é Viver no Carnaval de 195 – Foto: DIVULGAÇÃO/ND

Mais sobre o assunto

  • O Carnaval das grandes sociedades não foi apenas uma atividade de pessoas anônimas. O pintor Eduardo Dias (1872-1945), um dos grandes nomes da arte catarinense, fez parte de entidades carnavalescas, assim como o folclorista Franklin Cascaes (1908-1983), o desenhista e pintor Acary Margarida (1907-1981) e o pintor Hassis (1926-2001).
  • Por causa da técnica do maquinismo, que permitia a construção dos carros de mutação e evolução, Florianópolis foi citada pelo jornal “Gazeta de Notícias”, do Rio de Janeiro, em 1913, como o lugar onde se fazia o Carnaval “mais artístico” do Brasil. Durante a gestão do prefeito Dario Berger, em 2007, houve uma tentativa de ressuscitar os desfiles das grandes sociedades. Isso foi até 2012, quando essa modalidade de desfile saiu de cena definitivamente.
  • O bibliotecário Alzemi Machado, autor de “O Carnaval das Grandes Sociedades em Desterro/Florianópolis – 1858-2011”, diz que o tema não se esgota com o livro e que pode haver muito material nas mãos de famílias de antigos carnavalescos. Muitas pessoas se afastaram do Carnaval, quando mudaram de religião, e outras se desiludiram com os caminhos que a folia tomou nas últimas décadas.
  • Os carros de crítica também faziam sucesso, questionando, por exemplo, problemas no porto de Florianópolis e apontando o dedo para a questão do limite entre Santa Catarina e Paraná, nas primeiras décadas do século 20. Esse tipo de denúncia começou a desaparecer quando as sociedades passaram a ter apoios e vinculações políticas.
  • Famílias muito tradicionais de Florianópolis sempre se envolveram com o carnaval, e sobretudo com as grandes sociedades. Entre ela aparecem as famílias Xavier, Margarida, Gevaerd, Dias, Jaques, Vieira, Moritz e Callado.
  • O editor Fábio Garcia apostou na edição da impressão da obra pela grande amizade com Alzemi Machado e porque sua editora, a Cruz e Sousa, aposta em obras que tenham a cultura de matriz africana como tema.

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