Quintal virtual

Quantas crianças de hoje conhecem uma laranjeira? Ou já colheram, no pé, um cacho de bananas nanicas ou uma goiaba branca?

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A vida tornou-se virtual nesta primeira década do século XXI. Moleques de oito anos jamais sentirão saudades de um quintal repartido por canteiros e árvores frutíferas, da sombra de uma goiabeira, do cacarejar das galinhas ou de um incansável galo garnizé.

As crianças eletrônicas jamais aprenderão a recitar na escola aquele edulcorado poema de Casemiro de Abreu, puro mel derretido e declamado por nove entre dez ginasianos dos anos 1950:- “Oh! Que saudades que eu tenho/ Da aurora da minha vida/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores/ Naquelas tardes fagueiras/ À sombra das bananeiras/ Debaixo dos laranjais!”

Galinha – Foto: Zoobotânico de Brusque/DivulgaçãoGalinha – Foto: Zoobotânico de Brusque/Divulgação

Pieguices à parte, quantas crianças de hoje conhecem uma laranjeira? Ou já colheram, no pé, um cacho de bananas nanicas ou uma goiaba branca?Um quintal. A palavra já soa antiga. Mas todas as casas tinham o seu – modesto que fosse – espécie de território livre onde as crianças descalças conviviam com os bichos domésticos, gatos, cachorros – e até a bizarria de alguma cabra provedora de leite. Estes, eram os bichos “de couro”.

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Os “de pena” estavam representados pelas inevitáveis galinhas e os curiós de gaiola, mais os inquilinos sazonais das vésperas de Natal: os “galipavomeleagris”, ou,melhor dizendo,os perus.Todos – os plúmeos e os implumes – conviviam na mais perfeita harmonia, entre canteiros floridos e caminhos de areia grossa.

Areia, aliás, era a matéria prima de todas as brincadeiras, discórdias e castigos.Uma tarde num quintal era uma “orgia de areia” – ainda bem que a água lavasse tudo, embora não consiga lavar, hoje, o passado que teima em estar “presente”.

É a tal saudade – um sentimento nada eletrônico.Sentimento que emerge no exilado pela pátria, no marinheiro pela família, nos namorados um pelo outro. É a falta que sentimos da nossa casa, dos nossos amigos, da nossa infância, até do nosso travesseiro –enfim, uma saudade dos dias idos e vividos.

É aquele tempo “rebobinado” na memória,como um rolo de celulóide. As saudades de uma criança de hoje serão, certamente, diferentes. Elas sentirão saudades dos videogames, dos autoramas, dos microcomputadores, dos blogs, dos smartphones, dos novos tótens eletrônicos que surgem no dia-a-dia do computador e da televisão interativa.

Maquininha obsessiva – a televisão – que começou a mudar a vida da humanidade em 1935, quando o francês Barthélemy aperfeiçoou o “iconoscópio”inventado pelo físico russo, naturalizado americano, Wladimir Zworykin.

“Iconoscópio”, aliás, seria um nome bem apropriado para essa satânica usina de elétrons, capaz de transmitir imagens de distâncias tão longínquas quanto as do primeiro pouso na Lua, pelo terráqueo Neil Armstrong, em julho de 1969. É a essa “entidade” eletrônica que costumamos entregar nossas tardes e noites, quase com a mesma alegria com que nos entregávamos aos quintais da nossa infância.

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