Rainha da União da Ilha assumiu coroa aos 40 anos: ‘Me senti viva, não pensei que poderia ser’

23/01/2024 às 06h00

Mariana Bleyer ingressou no Carnaval aos 25 anos e, após anos nos bastidores da agremiação, se tornou a rainha da União da Ilha

Foto de Felipe Bottamedi

Felipe Bottamedi Florianópolis

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A dançarina e empresária Mariana Bleyer de Faria traçou um caminho de “ponta-cabeça” no Carnaval de Florianópolis. Após anos coordenando a ala de passistas da União da Ilha da Magia, ela foi convidada em 2023 para algo que sequer ousava sonhar aos 40 anos: se tornar a rainha na primeira corte da atual campeã, após 15 anos.

Integrante da escola da Lagoa da Conceição desde 2009, Bleyer achava a realeza improvável por dois motivos: via de regra, as pessoas entram como passistas, assumem postos de rainha ou musa e depois se dedicam a organizar a agremiação. Após alguns anos desfilando, ela logo passou ao backstage: definindo roupas de passistas, coordenando a confecção, organizando-as nos desfiles e na Passarela Nego Querido.

“É como se o meu momento já tivesse passado. O foco não era mais eu. Não treinava mais meu samba, não ensaiava. Meu foco era todo para elas”, conta.

“Não posso dizer que ser rainha era um sonho, pois nunca pensei que seria possível viver isso aos 40 anos. Nunca tive como sonhar esse momento”.

O perfil faz parte de uma série de reportagens do ND Mais com as rainhas das escolas de samba de Florianópolis que vão desfilar no Carnaval 2024.

Rainha da UIMDepois de anos dedico aos bastidores do Carnaval, Rainha da UIM volta as atenções para si – Foto: Felipe Bottamedi/ND

Quando o convite veio, Bleyer teve um susto. Não aceitou de cara e pediu um tempo para pensar — para então perceber que ele era irrecusável. “Me sentiria muito frustrada se recusasse. Precisava me sacrificar para estar lá”, ressalta a empresária.

“Me senti viva. É como se resgatasse em mim uma vida que a gente tenta ter e, por ser mulher, acabamos sendo polida”.

As diferentes ‘caixinhas’ da rainha da União da Ilha

Diferente de outras rainhas, o Carnaval de Florianópolis não é um mundo onde Bleyer transita desde a infância mas um no qual entrou e se apaixonou. Não há o peso da tradição ou incentivo familiar, mas sim uma paixão individual que nasceu pelo elo da dança. Esse contato ocorreu aos 25 anos.

Mariana Bleyer durante o Volta à Praça XV, no último dia 19. Escolha da roupa fez referência à Rayssa Leal, a Fadinha – Foto: Hermínio Nunes/Divulgação/NDMariana Bleyer durante o Volta à Praça XV, no último dia 19. Escolha da roupa fez referência à Rayssa Leal, a Fadinha – Foto: Hermínio Nunes/Divulgação/ND

À época aluna de dança de salão, Bleyer foi convidada para ser passista na Ilha da Magia por Patrícia Soares, mãe de uma de suas colegas e então coordenadora da ala de passistas e coreógrafa da comissão de frente. Como o samba era seu ritmo preferido, ela topou.

A União da Ilha da Magia vivia então seus primeiros anos como escola de samba, após um percurso pregresso e bem-sucedido como bloco de Carnaval da Lagoa da Conceição. Bleyer encontrou espaço. “Não tinha tanta identificação entre sambistas. Fomos criando isso juntos”, lembra. Logo ela foi escalada como coordenadora de passistas.

“Como desfilei em todos os anos, é como se eu tivesse acompanhando esse processo”. São 15 anos de trabalho intenso, com ensaios de duas a três vezes por semana na praça Bento Silvério, conversas 24 horas por dia nos grupos de organização e eventos.

Mary no desfile de 2023, como destaque de chão do enredo campeão da UIM – Foto: Arquivo Pessoal/NDMary no desfile de 2023, como destaque de chão do enredo campeão da UIM – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Empresária há três anos, responsável por uma organização que realiza aulas de danças em escolas privadas, ela tira férias e organiza o ano em janeiro, mês crucial para a organização do Carnaval. Transitar entre os dois mundos – o do Carnaval e aquele fora dele, que envolve trabalho e família – resulta num desafio diário de explicar o tamanho da dedicação.

“São duas caixinhas diferentes. Eu não vivo nesse mundo [do Carnaval] e a minha vida de fora sempre quer me tirar dele. E é sempre uma luta para retornar”, conta.

“É um amor muito louco. É difícil estar lá e tem muita coisa que impede, e muita gente que não entende”. Quando questionada dos motivos, ela se emociona. E responde, em meio às lágrimas: “é uma loucura, é uma batalha”.