Os reflexos da Semana de Arte Moderna de 1922 levaram cerca de 30 anos para chegar a Santa Catarina. O marco inaugural do modernismo brasileiro, que projetou nomes como Heitor Villa-Lobos, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, completou 100 anos nesta semana.
Obra Operários, de Tarsila do Amaral, de 1933 – Foto: Reprodução/NDEntre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, músicos, poetas, escritores, artistas plásticos e intelectuais brasileiros se reuniram num evento em São Paulo, que buscou introduzir tendências de um novo século em todas as expressões culturais do país.
No entanto, quando se trata de Santa Catarina, as influências não foram imediatas.
SeguirO historiador Rodrigo Rosa, da FCC (Fundação Catarinense de Cultura), conta que o Estado era considerado referência nas artes no final do século 19.
Na literatura, nomes como o de Virgílio Várzea, Luís Delfino e Cruz e Sousa tinham renome nacional, assim como Vitor Meirelles, nas artes plásticas. Santa Catarina, porém, era um Estado “provinciano” e pouco aberto a novidades, segundo Rosa.
Nas duas primeiras décadas do século 20 o Estado atravessava um hiato de expoentes nas artes catarinenses. Havia uma elite intelectualizada devota às linguagens clássicas, que controlava a entrada de novas ideias em Santa Catarina.
“O grupo era fechado a movimentos que pudessem romper com o classicismo. Sendo assim, a Semana de 1922 não repercute em Santa Catarina. São nomes como Altino Flores e Othon Gama d’Eça”, explica Rodrigo.
Nova geração
A Semana de 1922 não ecoa de forma instantânea em Santa Catarina. Contudo, é por volta dessa década que nasce uma nova geração que vai trazer frescor cultural e intelectual ao Estado.
Com anos de atraso, na década de 1950, as ideias divulgadas na Semana de Arte Moderna de 1922 chegaram a Santa Catarina pelas mãos do “Grupo Sul”.
De acordo com o historiador, o grupo formado por jovens na faixa dos 25, 30 anos, em geral, sem formação acadêmica, estava determinado a mudar os parâmetros tradicionalistas das artes.
Salim Miguel, que morreu em 2016, fazia parte do Grupo Sul – Foto: Marco Santiago/Arquivo/NDFazia parte do grupo, entre outras personalidades, Salim Miguel, Eglê Malheiros, Armando Carreirão, Silveira de Souza, Ody Fraga, Walmor Cardoso da Silva e Aníbal Nunes Pires.
Em um segundo momento, os artistas Martinho de Haro e o escritor Guido Wilmar Sassi, Silveira de Souza e Adolfo Boos Júnior.
“Eles adotam uma linguagem mais popular e vão dialogar com os conceitos do eixo Rio-São Paulo”, diz Rosa. O grupo, inclusive, está por trás da criação do Museu de Arte Moderna de Santa Catarina, hoje chamado Masc (Museu de Arte de Santa Catarina).
Em entrevista concedida ao ND em fevereiro de 2012, o escritor Salim Miguel (1924-2016) lembrou que na época da Semana de 1922, Florianópolis “era muito bonita, mas culturalmente estava parada no tempo”.
“Os efeitos da Semana foram sentidos imediatamente no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas levou muito tempo para que as ideias chegassem a Santa Catarina.”
Para Salim, a Semana foi um movimento revolucionário não só no meio artístico. “A arte dos modernistas impactou o meio político do Brasil da época.”
Por aqui, a ação do Grupo Sul se deu em várias frentes. No teatro, com a montagem de peças de George Bernard Shaw, Pirandello e Sartre. Nas artes plásticas, com exposições de arte moderna em Florianópolis.
A tela “Cais”, de Martinho de Haro – Foto: Divulgação/NDNo cinema, com a criação do Clube do Cinema de Florianópolis, que incentivaria a produção do chamado primeiro longa-metragem catarinense, o “Preço da Ilusão”, de 1958.
E, principalmente, na Literatura, com a publicação da “Revista Sul”, que teve mais de 20 edições.