Rute Ferreira Gebler transforma seus 80 anos em tema de espetáculo musical

Leia a entrevista da soprano que festejará a data no palco com grande elenco

Receba as principais notícias no WhatsApp

Gaúcha de Pelotas, Rute Ferreira Gebler chegou em Florianópolis em 1969, grávida de quatro meses do primeiro bebê e longe do marido, o saudoso engenheiro agrônomo Erico Gebler, que estava estudando na Alemanha. Veio de Chapecó, no Oeste catarinense, onde morou brevemente, para lecionar música no antigo Colégio Coração de Jesus.

Soprano, logo após, entrou para a ACF (Associação Coral de Florianópolis), como solista convidada, tendo sido depois professora de técnica vocal e regente do grupo.

Personagem querida de nossa gente, cidadã honorária florianopolitana e catarinense, tornou-se realizadora de grandes espetáculos, como o “Vozes da Primavera”, apresentado em 10 temporadas.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir
Rute Ferreira Gebler, cantora lírica, professora de técnica vocal, produtora e diretora de espetáculos – Foto: Anna Guimarães/Divulgação/NDRute Ferreira Gebler, cantora lírica, professora de técnica vocal, produtora e diretora de espetáculos – Foto: Anna Guimarães/Divulgação/ND

Agora, sob direção de Sulanger Bavaresco, do Grupo de Teatro O Dromedário Loquaz, a cantora e professora finaliza os detalhes da montagem comemorativa ao seu 80° aniversário.

“Rute Ferreira Gebler – 80 Anos de Vida e Música” estará em cartaz no Teatro Ademir Rosa nos dias 17 e 18 de agosto, às 20h30, com cerca de 70 cantores, 30 músicos, bailarinos, convidados especiais e grandes surpresas, até de outras cidades de Santa Catarina, de outros Estados e de fora do país.

Mãe de Analucia e Daniel, Rute tem quatro netos: Guilherme, Lucas, Tiago e Graziela, que estará no palco também. “Para alegria desta avó, segue a carreira artística. Participa da Cia. Grito e faz trabalhos solo também. Canta, dança e adora dirigir. Acho que saiu bem a vovó”, conta a aniversariante do mês.

Quando a senhora chegou em Florianópolis para lecionar, como era o ensino do canto na cidade? O que havia além do aprendizado nas escolas?

Quando cheguei em Florianópolis, logo comecei a trabalhar no Colégio Coração de Jesus. Isto em agosto de 1969. Fui contratada para substituir uma professora de música que havia tido problemas de disciplina.

Eram duas turmas do terceiro ano de magistério, jovens de 15, 16 anos, lindas, animadas, curiosas. Logo nos entendemos. Eram afinadas, tinham vozes bonitas, e eu ensinava músicas infantis para serem repassadas para seus futuros alunos. Nesta época, conheci a irmã Aurélia, que dava aulas de música nas outras turmas.

No Instituto Estadual de Educação, era o maestro Peluso, e todos os que foram seus alunos lembram até hoje com respeito e orgulho. Nesta época, a força da música estava nos corais ACF, com o maestro Aldo Krieger; Coral Santa Cecília da Catedral Metropolitana, que conheci somente sob a regência do padre Ney Brasil Pereira; Coral Evangélico, com o maestro Hélio Teixeira da Rosa; Coral Presbiteriano, dirigido por Marília Cardoso Grimm e Flérida Cardoso. Estes corais cantavam nas missas obras de grandes compositores, eram verdadeiros concertos.

Grávida, Rute ministra aula no Colégio Coração de Jesus – Foto: Divulgação/NDGrávida, Rute ministra aula no Colégio Coração de Jesus – Foto: Divulgação/ND

Naquela tempo, quem eram os cantores locais expoentes?

Na ACF tive o prazer de cantar com a soprano Eli Faustino da Silva, voz linda, fazia belos solos; a mezzo-soprano Maria José de Souza, voz aveludada; tenor Nivaldo Carioni, que encantava a todos que o ouviam, os grandes casamentos contavam sempre com o grande tenor; o baixo Salim Mansur Neto, timbre bem definido, com excelente tessitura. Naturalmente, havia muitos outros, mas com estes cantei durante muitos anos.

A senhora sentiu resistência no circuito musical por ser mulher e jovem disposta a reger um coro nos anos de 1970?

Comecei na ACF como convidada para ser a solista da “Missa da Coroação”, de Mozart, sob a regência do maestro Aldo Krieger, e cantei com a Mariangela Rea (SP), Aldo Baldin e Salim Mansur Neto. Já no ano seguinte, comecei como professora de técnica vocal, acompanhava todo o repertório do coral.

Quando, em 1972, estávamos inscritos no festival de corais do Rio Grande do Sul, o maestro Krieger adoeceu, e bem na época da viagem faleceu. Eu já dominava o repertório e substituí o titular. Tivemos a felicidade de fazer uma ótima apresentação, conquistar o público e passar para a final, recebendo grande ovação da plateia.

Talvez este fato tenha tido grande peso para ser escolhida como substituta do maestro Aldo Krieger. Foi uma grande honra, mas também um grande desafio que tive que enfrentar.

Da esq. para dir.: Rute Ferreira Gebler, Maria José de Souza, Aldo Krieger, Mariangela Rea, Aldo Baldin e Salim Mansur Neto, década de 1970, no Teatro Álvaro de Carvalho – Foto: Divulgação/NDDa esq. para dir.: Rute Ferreira Gebler, Maria José de Souza, Aldo Krieger, Mariangela Rea, Aldo Baldin e Salim Mansur Neto, década de 1970, no Teatro Álvaro de Carvalho – Foto: Divulgação/ND

Enquanto professora e regente da ACF, qual foi a viagem mais marcante e por quê?

A viagem mais marcante foi ao Norte e Nordeste, em 1974. No Teatro da Paz, em Belém do Pará, com a presença do compositor Waldemar Henrique, interpretamos “Foi Boto, Sinhá”. É lembrança para ficar na história. Sermos recebidos por governadores, secretários de cultura, compositores famosos, cantores, público caloroso, tudo ficou registrado na memória de cada um que fez esta exitosa excursão.

O espetáculo “Vozes da Primavera” foi apresentado de 1995 a 2005. Em 2015, houve uma edição comemorativa aos 20 anos de sua criação. Por que tanto tempo para remontá-lo e somente uma vez?

Em 2005, o “Vozes da Primavera” tomou tamanho corpo que não iríamos mais controlar. O número de pessoas que queria participar aumentava, os gastos com cenários triplicavam – aliás, tudo – e, para conseguirmos patrocinadores, era uma grande dificuldade, um enorme desgaste. Então, a solução foi, com muita consciência e pesar, “encerrar”. Quanto a festejarmos os 20 anos, foi atendendo a pedidos do público e dos próprios cantores. Mas, tendo certeza da não continuidade.

Rute entre os barítonos Giovane Pacheco (à esq.) e Schäfer Junior no encerramento da primeira edição do espetáculo “Vozes da Primavera”, em 8 de novembro de 1995, no Clube Doze de Agosto – Foto: Norton José/Divulgação/NDRute entre os barítonos Giovane Pacheco (à esq.) e Schäfer Junior no encerramento da primeira edição do espetáculo “Vozes da Primavera”, em 8 de novembro de 1995, no Clube Doze de Agosto – Foto: Norton José/Divulgação/ND

Qual foi a última montagem que teve a sua direção/produção?

A última montagem que criei foi “Encontros Im-Prováveis” (2018). Queria reunir médicos, empresários, famílias, casais. Foi um espetáculo lindo, sem a preocupação da perfeição sonora, mas sim a perfeição do encontro. Neste show, cantamos minha neta, Graziela, minha filha, Analucia, e eu.

A direção do espetáculo comemorativo aos seus 80 anos é da atriz e diretora Sulanger Bavaresco. Como está sendo esta parceria?

Já havia trabalhado com a Sulanger num espetáculo de obras líricas na rua. Foi inovador, e o público ficou encantado de assistir ópera nas janelas dos antigos prédios da rua Felipe Schmidt. Neste nosso espetáculo, ela dirige e tem a companhia da Liliane Motta da SilveiraMarcos Carioni e muitos outros num espetáculo que deverá ser pura emoção. Escrevi tudo em ordem cronológica, mas a diretora teve a liberdade de criar e apresentar como melhor concebeu. Assim como a Liliane e o Marcos criaram coisas inéditas no palco.

Da esq. para dir.: Rute com Sulanger Bavaresco, Liliane Motta da Silveira e Marcos Carioni, equipe que assina o novo espetáculo – Foto: Divulgação/NDDa esq. para dir.: Rute com Sulanger Bavaresco, Liliane Motta da Silveira e Marcos Carioni, equipe que assina o novo espetáculo – Foto: Divulgação/ND

Temos muitos artistas e técnicos talentosos e capacitados para montar espetáculos de primeira qualidade. Por que não há aqui expressiva quantidade de companhias profissionais? Por que não nos tornamos polo de produção artística, a exemplo Nova York, Rio de Janeiro e São Paulo?

Concordo que temos cantores, atores, bailarinos, técnicos em todas as áreas. Talvez falte investidores na cultura de modo geral. Mas, não podemos comparar com as grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, onde as produções ficam meses em cartaz. Aqui, teríamos público para quatro ou cinco apresentações, não mais do que isso. Acho bem improvável ficar duas semanas. Acompanho também trabalhos importantes de escritores, artistas plásticos, e sempre o impasse é: quem vai apoiar. Muitos tiram do seu próprio bolso.

As leis de incentivo à cultura surgiram no Brasil nos anos de 1990, o que modificou a forma de patrocínio e, até certo ponto, o perfil dos apoiadores. Com as alterações na legislação ao longo do tempo, como está a viabilidade de captação?

As leis de incentivo cumprem uma importante missão na cultura, porém captar recursos é sempre um grande e exaustivo desafio. Talvez por desinformação,  muitas empresas não fazem doações incentivadas. É um trabalho árduo andar de chapéu de porta em porta.

Ser enredo de escola de samba é privilégio de poucos, especialmente se o homenageado ainda é vivo. Como foi esta experiência?

Sempre fui carnavalesca. Inclusive, até hoje, quando escuto uma batucada, o pé e o corpo respondem no gingado. Quando jovem, não perdia bailes, saía mascarada em Pelotas, no Carnaval de rua. Mas o convite da Os Protegidos da Princesa foi um grande presente que dividi com os integrantes do Estúdio Vozes, tanto que, em vários carros, vinham personagens dos espetáculos. Foi uma grande emoção escutar um samba-enredo contando e cantando a minha história.

Em 2004, quando Rute foi enredo da escola de samba Os Protegidos da Princesa – Foto: Adair Felizardo/Divulgação/NDEm 2004, quando Rute foi enredo da escola de samba Os Protegidos da Princesa – Foto: Adair Felizardo/Divulgação/ND

Há algum compositor que a senhora gostaria de gravar ou cantar no palco que ainda não teve oportunidade?

Não, todos os meus desejos e talvez bem mais do que os meus sonhos foram realizados.

Seu bom humor e sua exigência por qualidade artística são conhecidos. Eles fluem juntos na hora de trabalhar ou a graça fica da porta para fora?

Acho que o ensaio deve ter concentração para conseguirmos um bom resultado, mas a vinda para os ensaios deve ser motivo de alegria, e saber que sairão mais felizes do que entraram. Não penso que a graça deva ficar do lado de fora, ela pode ser usada no momento certo, sem interferir demais na continuidade do trabalho.

A senhora se pergunta por que veio assim, do jeito que é e fazendo o que faz. Resposta difícil?

Realmente eu me questiono: porque inventar tanta coisa? Tudo começa pequeno e vai crescendo, crescendo, pessoas aderindo. Às vezes, os espetáculos vêm em forma de sonho e, outras, estou quietinha, e surge a ideia.

Rute Ferreira Gebler e a neta, Graziela Graciosa Gebler, que também é cantora e estará no palco com a avó – Foto: V. Vilain/Divulgação/NDRute Ferreira Gebler e a neta, Graziela Graciosa Gebler, que também é cantora e estará no palco com a avó – Foto: V. Vilain/Divulgação/ND