De vez em quando os ilhéus se chocam com o que fizeram com o aterro da Baía Sul. Agora mesmo os colegas Cacau e Fabio Gadotti acabaram de mostrar o paradoxo que é a atual ocupação caótica de uma área nobre, que ao invés de servir ao homem e à paisagem, serve de garagem de ônibus e depósito de velhas ambulâncias transformadas em sucata.
Não há maquiagem que possa melhorar o “horror” em que se transformou o aterro da Baía Sul, a partir dos anos 1970. Os prefeitos e os arquitetos do caos conseguiram ali um efeito pior do que a desgraça que se abateu dos céus sobre a cidade alemã de Dresden, reduzida a pó na Segunda Guerra.
Aterro baía Sul – Foto: Flávio Tin/Arquivo/NDHá tentativas de melhorar o aleijão. Surgem alguns sinais de boas mudanças, com projetos para a revitalização do entorno da avenida Hercílio Luze antigo terminal. Mas, por enquanto, o Centro continua abandonado e entregue às traças.
SeguirNos fins de semana, deserto, mais parece uma cidade da ficção: “Antares”, de Érico Veríssimo – um cemitério animado pelo espectro dos mortos.No mundo inteiro, os centros são cultivados para que tenham vida e beleza.
Às margens das águas geladas do rio Neva, no estuário do Báltico, os russos se orgulham de São Petersburgo e de seus monumentos, como a Catedral de Santo Isaac e o Hermitage, o mais belo museu do mundo.
À beira do Tâmisa, na city londrina, ergue-se a gótica e milenar torre onde Henrique VIII fez decapitar Ana Bolena. À beirado Sena, deita-se uma antiga estação de trem, transformada no belo Museu D’Orsay, casa e albergue dos gênios do Impressionismo.
Às margens da Baía Sul, em Floripa,ergue-se um sambódromo subutilizado e uma subestação da Casan, conhecida como a Chernobyl do “chorume”. Faz lembrar o aroma emanado dos antigos “pés de loiça” do Colégio Catarinense,porcelana sobre a qual os rapazes depositavam o seu produto em estado bruto e não-processado.
Houve projetos de arquitetos que conferiam ordem e racionalidade ao aterro. A atual faixa abandonada na franja do mar seria transformada numa área de lazer à beira d’água,continuando no Sul o quejá existe na Beira-Mar Norte, com extensão da nova e projetada marina.Caminho equipado com uma“promenade”, que acolheria calçadões e bares, mais áreas para a prática do esporte.
Claro,teria que haver uma completa reforma nos atuais corredores do trânsito, na direção das pontes, com melhor razoabilidade e “expertise” da engenharia de tráfego.
Ao contrário: o que há é a ausência completa do que seja “razoável”. Nada prospera a não ser as garagens e os estacionamentos clandestinos – e a negação de qualquer projeto que transforme aquela área nobre em algo urbanamente palatável.
Há uma ativa “brigada do atraso” barrando qualquer projeto de boa urbanização e humanização do Centro.São os vitoriosos “contra”, tolerados pela omissão e inércia de algumas administrações municipais.