Seria bom

Seria muito bom se, no frescor da manhã azul, um anzol fisgasse o passado e o trouxesse para a superfície, estrebuchante como um peixe vivo

Receba as principais notícias no WhatsApp

Seria bom se o trânsito voltasse a ser o mesmo dos anos 1960, quando ainda era possível atravessar a rua lendo um jornal comprado na banca do Beck.

Seria bom se Coqueiros voltasse ao bucolismo de outrora, as roseiras subindo pelas paredes das casinhas brancas, tranquilas e rústicas, em cuja sombra se abrigava um barco, descansava uma enxada ou acontecia o movimento de uma tarrafa recém-lançada.

Peixes – Foto: PixabayPeixes – Foto: Pixabay

Seria muito bom se, no frescor da manhã azul, um anzol fisgasse o passado e o trouxesse para a superfície, estrebuchante como um peixe vivo, ainda elétrico no puçá. Seria um paru? Uma cocoroca? Um bagre ou um “biacú”? Coqueiros exibiria palmeiras dobradas pelo vento sul, a proa de alguma canoa açoriana abrindo o mar envidraçado – que começava a se encrespar, a medida em que o vento aumentava a sua própria “respiração”.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

“Homens e algas”, de mestre Othon Gama D’Eça, mais do que um livro de contos e memórias, é um documento daquela vida à beira mar na Coqueiros dos anos 1950-1960.

Palavras e paisagens se misturavam, texto e “aquarela” cheiravam a tinta a óleo. Personagens se exprimiam na língua nativa dos manés-pescadores – e Othon combinava harmoniosamente o coloquial açoriano com a luxuosa tapeçaria dos seus painéis descritivos:- Coqueiros, todos os verdes ao fundo.

O verde áspero dos butiazeiros, o verde esguio dos canaviais, o verde reluzente das pitangueiras, o verde franjado dos cedros, o verde sombrio das laranjeiras e o verde crespo das goiabeiras, sob o voo inquieto dos sanhaços.

Isso no tempo em que Coqueiros tinha butiás, canas, canoas, pitangas, goiabas e passarinhos. Hoje tem um trânsito pesado e uma crônica policial que já é digna de contos nada bucólicos, mais para Alfred Hitchcock do que para Othon D’Eça.

Seria bom se a vida voltasse a ser doce(por que éramos jovens?) , apesar da amargura de James Dean – o Karl de “Vidas Amargas”, de Elia Kazan, impecável adaptação do “East of Eden”, de John Steinbeck. Dean era o herói de nossa rebeldia precoce, que não passava de um grande topete e do pente atravessado no calção, como se fosse uma faca. Os jovens da Ilha pegavam o ônibus ali no Largo da Alfândega – e iam tomar banho de mar no Continente.

Não se falava em “balneabilidade”, nem em “poluição”. Será que o banho era próprio? Bem, nunca peguei uma doença de pele ou vi algum cocô boiando, em mais de “trocentos” mergulhos do trampolim do Praia Clube.

Queria muito pegar o “Gostosão” (ônibus) –frente embutida, motor recuado, “pra dentro”, entre o motorista e os passageiros da janelinha – e nele subir outra vez a Felipe Schmidt, a rapaziada em pé no corredor, recendendo ao óleo dos bronzeadores, resposta ao verão em curso.

O trajeto incluía passagem sobre o assoalho de tábuas da ponte – e, depois, soba sua estrutura, na estrada de terra que serpeava até o aclive da igrejinha, ponto em que o ônibus “esvaziava”, bem em frente ao Praia Clube.

No caminho, as casas dos pescadores mostravam, como na prosa de Othon D’Eça, “janelas besuntadas de azul, com uma data no alto – e ranchos esguios, baixos, cobertos de folhas salitradas e canoas que cheiravam a algas e tintas frescas”…