As tradições e costumes do país-sede da Copa do Mundo, o Catar, têm ganhado holofote e também se tornado alvo de críticas, principalmente pelas duras penas contra homossexuais e pela proibição de demonstrações públicas de afeto, como beijos prolongados, abraços e carícias.
Em um cenário tão repressivo, será que há espaço para paquera? Para relações LGBTQIA+? Para os aplicativos de namoro?
Sigilosa ou liberada: como funciona a paquera e as relações LGBTQIA+ no Catar? – Foto: Pexels/Reprodução/NDSegundo o comissário de bordo, o brasileiro Rafael Deiver, tudo isso “funciona” no Catar, mas com algumas exceções e peculiaridades. Ele morou em Doha por seis anos e compartilhou no Instagram: como é ser gay e viver no país.
Seguir“Para mim foi muito tranquilo. Eu me sentia muito seguro, nunca tive problema nenhum. Porém, você precisa respeitar as regras do país, que são basicamente as regras da religião deles: o islã”, contou.
De acordo com o influenciador, a principal restrição no país é em relação à demonstração de afeto em público. “Andar de mãos dadas, por exemplo, é uma coisa que não incomoda muito, porque outras nacionalidades, como os paquistaneses, até indianos, andam de mãos dadas, com o dedinho dado, os próprios cataris se cumprimentam de nariz com nariz”, iniciou.
“Quando a gente fala de demonstração de carinho e afeto na rua, falamos de coisas muito mais profundas, um beijo, um abraço”, completou.
Relações LGBTQIA+
A comunidade LGBTQIA+ no país pode ser condenada a punições que variam de oito anos de prisão à pena de morte por “crime” de homossexualidade.
Apesar disso, o comissário de bordo contou aos seguidores que, enquanto residiu no Catar, namorou por dois anos. “Nós saíamos para tomar café, para jantar juntos. Falávamos abertamente sobre ser gay. Nunca aconteceu nada comigo”, relatou.
“Nunca ouvi uma piada homofóbica de uma pessoa de lá. Mas óbvio quando você fala abertamente sobre o assunto, elas levam em consideração a religião delas, as crenças. É muito difícil você conseguir mudar a cabeça de uma pessoa. Eu decidi respeitar o espaço deles e viver a minha vida”, contou.
O brasileiro também compartilhou que conhece muitos casais homoafetivos, que vivem no Catar, inclusive, fazem publicações nas redes sociais. “Você só não pode demonstrar carinho na rua. E isso não é apenas para gays, é para casais héteros também. Eles não podem ficar se beijado na rua, porque vão ser parados”, lembrou.
Aplicativos de namoro
Conforme o influenciador, os tradicionais aplicativos de paquera também funcionam no país. “Tem Grindr, Tinder, Scruff. Porém quando você vai para um país do Oriente Médio, e você baixa esses aplicativos, eles te dão um alerta de que você está em um país em que pode haver riscos. Para você abri-los, precisa usar o VPN, aplicativo que joga o teu IP para outro país que pode abrir, mas precisa ter cuidado, porque tem cilada”, alertou.
A brasileira Isabella Miskolci, de 21 anos, em conversa com o ND+, contou também que já utilizou vários aplicativos de namoro, como Tinder e Bumble, no Catar. Ela mora desde 2016 no país com a família. “Cheguei a sair com vários caras. Um dos aplicativos tem até propagadas de empresas bem conhecidas aqui”, comentou.
Segundo ela, o que não é comum no país é a demonstração de carinho em público. “Como é um país muçulmano, o afeto em público é um pouco diferente. Eu já vi cataris dando a mão um para outro, mas agora beijar em público, ficar abraçando, já não é uma coisa muito comum para eles”, informou.
“Eu seguro a mão do meu namorado, quando não tem ninguém vendo eu dou um selinho nele, mas eu sempre abraço e demonstro afeto quando não tem muita gente perto”, completou.
A jovem conta que tem esse receio desde que foi parada por uma árabe na rua por restrição de roupa. “Ela disse que eu não poderia usar aquele tipo de roupa, eu estava indo para uma balada, e nesses casos podem”, recordou.