No ocidente, qualquer tema sobre a condição das mulheres no Islã está ligado a uma representação que geralmente é constituída por estereótipos. O preconceito afasta a realidade da religião que possui muito mais nuances do que o imaginário popular ocidental.
Por trás do véu e da burca há mulheres fortes, inteligentes e trabalhadoras que ocupam todos os espaços, com liberdade financeira, de escolhas e muita fé.
Mulheres muçulmanas falam sobre sua religião e sua cultura – Foto: Pixabay/Reprodução/NDApesar de nervosa por nunca ter participado de uma entrevista, Fátima Ali, de 54 anos, é firme em suas palavras ao explicar sobre os costumes e detalhes que compõem a mulher muçulmana.
SeguirDentro da mesquita, vazia e bem iluminada, ela fala que algumas pessoas têm uma ideia errada e até preconceituosa sobre a religião islâmica.
“Muitas pessoas ficam curiosas quando me veem na rua ou no supermercados, por exemplo. Algumas são só curiosas, mas, após o 11 de setembro, já me chamaram até de mulher bomba”, diz Fátima.
Fátima Ali é brasileira e mora em Florianópolis Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDFátima é brasileira e casada com o Sheikh Amin Alkaram, de 60 anos, que é árabe e um dos líderes religiosos da comunidade muçulmana de Florianópolis, em Santa Catarina. Ambos explicam que a mulher muçulmana pode fazer o que quiser: trabalhar e estudar, como qualquer outra mulher não muçulmana.
Sheikh Amin diz que, dentro da mesquita, para conduzir as orações, o momento é liderado por dois homens. No local, onde se entra sem calçado, o espaço é dividido: na frente ficam os homens e um pouco mais atrás ficam as mulheres.
“Por causa dos movimentos que os homens fazem com o corpo – na oração-, é feita a divisão dos espaços. As crianças também ficam com as mulheres”, conta Amin.
Cultural ou religiosa?
Existem algumas restrições que fazem com que a mulher não participe das orações, não apenas na mesquita, mas das cinco orações diárias que são feitas pelos muçulmanos. A menstruação é um dos momentos que interferem na rotina da mulher muçulmana e na sua participação na religião.
Mesquita localizada em Coqueiros, bairro de Florianópolis, em Santa Catarina – Foto: Leo Munhoz/ND“Quando a mulher muçulmana menstrua, ela não pode fazer as orações, além de não poder jejuar durante o Ramadã, que é o nono mês do calendário islâmico, durante o qual os fiéis praticam um ritual de jejum. Durante essa período, a mulher fica em uma situação de impureza”, explica Fátima.
Segundo os ensinamentos do Alcorão, no Islã, as mulheres não são superiores nem inferiores ao homem, mas apenas diferentes. Razão pela qual ainda existem muitos tabus, mas que dependem muito mais do contexto cultural do que da religião em si.
A historiadora Aline Dias da Silveira, de Florianópolis, esclarece que, assim como existem diversas formas de religiosidade no cristianismo, o Islã também é mais complexo e com vertentes distintas.
“Não existe ‘O Islã’. São muitas nuances da religião com correntes diferentes, com muitas atitudes e prescrições para as mulheres, que são diferentes de uma região a outra, por exemplo”, explica Silveira.
As mulheres muçulmanas ocupam todos os espaços
Se entendermos o Alcorão, nada é tabu. Ele é o livro em que Deus revelou a sua mensagem e fala sobre tudo. O tabu é criado culturalmente, quando, por exemplo, só a mãe fala sobre menstruação em casa, ou pior, quando não se fala sobre isso.
O Alcorão contém as escrituras que guiam os muçulmanos – Foto: Leo Munhoz/NDA brasileira Fátima esclarece que as mulheres muçulmanas vivem suas vidas normalmente. Em casa elas mostram o cabelo, podem usar calças, saias, regatas, camisetas, biquíni, tudo o que quiserem.
A burca e o véu são representações de intimidade, de preservação, e não de submissão. Ou seja, não é o homem que obriga a mulher a usar o véu. O livre-arbítrio significa que cada um se entende com Alá.
Nada pode ser definido como regra. A maioria das mulheres muçulmanas não vê o uso do véu como uma opressão contra elas mesmas, pois, como qualquer outro dever religioso, isto também deriva da livre escolha.
Pintar as unhas, usar maquiagem, mostrar o cabelo, escolher as roupas que usa, trabalhar ou se divorciar são escolhas guiadas pela fé ou direitos garantidos por lei.
Sobre fé e escolhas
A egípcia Remonda Abdelhameed, de 35 anos, mora em Doha, capital do Catar, e trabalha como especialista no mercado de bolsa de valores. Ela conta que, no Egito, as pessoas têm a mente mais aberta que os catarianos.
Doha, capital do Qatar, é atualmente é o lar de Remonda e suas filhas – Foto: Diogo Maçaneiro/Reprodução/ND
Abdelhameed reafirma as falas da brasileira Fátima, dizendo que o uso do Hijab, o véu, também não é cobrado por ninguém, caso a mulher não queira. Ela ressalta que “muitas mulheres não usam, mais do que os ocidentais não muçulmanos imaginam”.
“O Hijab não é opressor, é sobre a gente se preservar. Somos bonitas com ou sem ele, mas, principalmente, somos bonitas para nós mesmas. Ele tem um significado de resguardo, é algo pessoal”, esclarece.
No trabalho, por conviver com muitos homens, ela diz que enfrenta sim o machismo, como qualquer outra mulher no mundo. “Eu trabalho em um local que tem mais homens que mulheres, e o preconceito existe, o machismo existe, mas, quando os meus colegas homens trabalham comigo, logo eles percebem que essa visão é ultrapassada”, conta Remonda.
Há 2 meses divorciada, ela fala que o processo de divórcio foi difícil, mas é um direito garantido por lei aos cônjuges. Quando o marido divorcia-se de sua mulher, ele deve oferecer uma compensação em troca do “prejuízo” sofrido por ela.
Por outro lado, a mulher muçulmana tem o direito de pedir o divórcio e de obtê-lo em caso de se sentir prejudicada. Nada no Alcorão autoriza um marido a manter à força sua esposa se ela deseja pôr fim ao casamento.
“Meu ex-marido não queria o divórcio e, por isso, causou alguns problemas durante o processo, principalmente envolvendo dinheiro. Mas eu tenho o direito de me divorciar, sem envolver prejuízos financeiros, e eu usei desse direito”, explica Remonda.
Tanto Fátima quanto Remonda ressaltam que as comunidades islâmicas do mundo todo são gentis com todos, e que quem não é muçulmano precisa saber que o diferente não é ruim, mas apenas diferente: todos merecem respeito. Assim como outras religiões, o islã é sobre fé, é pessoal e uma escolha, seja no Brasil, ou no Catar.
Ela também lembra que em muitos lugares do mundo as mulheres muçulmanas sofrem, mas esse é um recorte de suas vidas, não o que as define.
“Em todo o lugar existe uma mulher sendo oprimida por algum motivo. Quem oprime, quem violenta, quem diminui uma mulher são os homens, e digo homens como as pessoas no geral”, finaliza Remonda.