Quem estava com saudades da tradição religiosa do Terno de Reis em Florianópolis não está mais. Realizado na Capital desde o século 18, quando a cidade ainda se chamava Desterro, e cancelado nos últimos dois anos por causa da pandemia, o festejo voltou às ruas do Centro, envolvendo centenas de pessoas e cinco grupos que, alegremente, não deixam a tradição morrer.
De volta às ruas, Terno de Reis percorreu o Centro de Florianópolis na sexta-feira (6) – Foto: Leo Munhoz/NdE o 21º Encontro de Terno de Reis em Florianópolis teve, ainda, uma feliz coincidência: além de marcar o fim do ciclo natalino, em 6 de janeiro, o evento ocorreu no exato dia em que os primeiros açorianos chegaram à vila do Desterro, há 275 anos.
No Brasil, a celebração dos Santos Reis foi trazida pelos jesuítas. Em Florianópolis e em todo litoral catarinense, entretanto, é um legado de convergência cultural. Além dos açorianos, os africanos celebravam o reisado pelas ruas de Desterro.
SeguirA essência da tradição é que, passado o Natal, pequenos grupos de cantoria se reúnem com instrumentos musicais e, de porta em porta, visitam as pessoas em suas casas, cantando louvores aos reis magos Gaspar, Melchior e Balthazar a fim reviver a busca pelo Menino Jesus, quando eles levaram ouro, incenso e mirra em forma de adoração ao Deus Menino.
O manezinho Oraldo José Ventura, 81 anos, é do grupo Estrela Luz, da Trindade. Com o acordeon em mãos, era um dos mais alegres na procissão que percorreu as ruas do Centro até a Catedral Metropolitana.
Há mais de 20 anos, Ventura participa do Terno de Reis, mas, para ele, o encanto de hoje não é o mesmo das décadas passadas. Ainda assim, considera importante a manutenção da tradição e por isso não deixou de participar.
Seu Oraldo tem 81 anos, todos vividos na Ilha de Santa Catarina – Foto: Leo Munhoz/ND“Antigamente, a gente saia cantando nas casas, de surpresa, era muito gostoso. Hoje em dia não pode, porque encontramos portão eletrônico e cadeado. Outra coisa é que a cultura açoriana está se perdendo”, enfatizou.
Mesmo com a idade avançada, Ventura participou de todas as etapas do 21º Encontro de Terno de Reis de Florianópolis. A concentração começou às 18h no Largo da Alfândega.
Pouco depois, os integrantes dos cinco grupos de Ternos de Reis dos bairros da Capital percorreram as alas norte, sul e vão central do Mercado Público entoando suas cantigas e interagindo com a população.
Depois, na Catedral, cada grupo teve um tempo para mostrar seu canto. “Os ternos falam do nascimento de Jesus, dos reis magos. Essa é a função”, disse Ventura explicando o que as letras abordam.
Tradição veio dos antepassados
Outro manezinho, o professor Antonio Carlos da Cunha, o Carlinhos, 67 anos, é mais um resistente. Ele é membro do grupo de Terno de Reis de Sambaqui, que existe desde os anos 80, e lembra da tradição desde pequeno.
“É algo muito importante para mim, porque vem de uma geração antiga da minha família. Aprendi muita coisa com meus tios, meu avô e outras pessoas da nossa região. O Terno de Reis marcou uma história muito bonita entre as famílias negras dali. É o que mais considero, porque tenho a cultura dos meus ancestrais”, enfatizou Carlinhos.
Carlinhos lembra dos festejos desde pequeno, nos anos 60 – Foto: Leo Munhoz/NDEle falou também sobre o envolvimento dos negros com a tradição. “Não usavam nem instrumento de corda, usavam o orocongo, que é africano”, conta Carlinhos.
“Ou seja, foram agregando à cultura. A minha primeira lembrança do Terno é ainda na infância, nos anos 60, quando a minha família se reunia com a família do seu Albano, que era muito tradicional nisso. A gente se juntava com o grupo deles e visitava as casas”.“Não tem mais a mesma beleza”, diz costureira
A pedagoga aposentada Olga Celestina da Silva Duran, 74 anos, é gaúcha, mas vive há mais de 40 anos na Capital. Ela foi à Catedral para assistir ao Terno de Reis.
Parte da celebração de Terno de Reis na Catedral Metropolitana – Foto: Leo Munhoz/ND“Além de prestigiar o folclore e as danças daqui, a gente apresenta a dança circular com um grupo que está aqui, então eu ouço muito o Terno de Reis. Vim para prestigiar esse evento, que é a da cultura açoriana de raiz. Não tem como não conhecer estando aqui em Florianópolis. Quero decorar letras e saber a história. O Terno de Reis é, para mim, uma das raízes mais importantes da cultura açoriana”, comentou.
A costureira Derciza Joana dos Santos, 84 anos, também fez questão de prestigiar o evento. “Isso remonta às minhas origens. Eles passavam na minha casa. Saíam ao pôr do sol e passavam de casa em casa. Às vezes, de madrugada, a família dormindo, a gente levantava e abria a casa para recebê-los. Eles cantavam, tomavam um café e assim passavam a noite toda”, lembrou Derciza, referindo-se aos anos 50.
“É bonito, mas não tem a beleza daquela época. Não é a mesma coisa. Mas é importante que tenha para manter a lembrança e para as novas gerações verem o começo de tudo”, completou.
Coincidência histórica
Para a professora Lélia Pereira da Silva Nunes, o Terno de Reis é um evento da máxima importância e que Florianópolis teve um tempero a mais na realização do Terno em 2022.
“Além de ser uma tradição cristã, que nasce nas comunidades, aqui, para nós, há uma reverência dupla, coincide com os 275 anos da chegada dos açorianos no litoral de Santa Catarina”, registrou a professora. Segundo ela, nos Açores, a tradição continua forte. Já na quinta-feira (5), eles começaram a visitar as casas.
A professora Lélia Nunes – Foto: Leo Munhoz/NDPara Lélia, o Terno de Reis e a celebração dos 275 anos da presença açoriana na Ilha é o ponto alto do projeto que o Grupo ND realiza, desde março de 2022, para fortalecer as relações entre Santa Catarina e Açores. Ela fazia alusão ao “Projeto Viva Açores, Conhecer é Viver!”.
Diretor regional do Grupo ND, em Florianópolis, Roberto Bertolin também falou sobre o projeto que aproxima catarinenses e açorianos. “É surpreendente como a cultura açoriana está presente em Santa Catarina. Fomos muito felizes ao mostrar isso e viemos aqui, hoje, para coroar o projeto, prestigiando essa manifestação religiosa”, afirmou.
Presidente do Conselho Mundial da Casa dos Açores, Sérgio Ferreira lembra que, no atual formato, o Terno de Reis ocorre desde 2000. Ele concorda que é essencial manter o festejo no Centro, porque está se perdendo nas casas.
“Hoje, os grupos precisam reservar data, horário, antes era mais dinâmico. Esse encontro traz ternos de vários lugares e o fato de os açorianos terem chegado no dia 6 de janeiro aqui é uma feliz coincidência”, comentou Ferreira.
O 21º Encontro de Terno de Reis foi realizado pela Prefeitura de Florianópolis. Descendente de açorianos, o prefeito Topázio Neto (PSD) falou sobre a retomada do tradicional festejo na cidade.
“É uma forma de resgatar e manter presente as nossas tradições. Às vezes, as pessoas me dizem que, hoje, só 40% das pessoas que moram em Florianópolis nasceram aqui, mas essa forma contagiante que o ilhéu tem de passar sua cultura, valores e tradição, para quem chega na cidade, é espetacular”, enfatizou.