UFSC indica o álbum-manifesto “Tropicália…” para o vestibular de 2025

Lendário disco "Tropicália Panis Et Circencis", lançado em 1968, está entre as obras indicadas para o vestibular da UFSC e IFSC. Pela primeira vez um álbum de música integra a seleção. E que álbum!

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Uma das grandes notícias da última semana veio da lista das obras indicadas no programa da disciplina de Literatura Brasileira do Vestibular Unificado da Universidade (UFSC) e do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) anunciada na semana passada.

Pela primeira vez a seleção traz uma obra musical, no caso um álbum: “Tropicália Panis Et Circencis”, de 1968, um dos maiores trabalhos da música brasileira e responsável por redefinir os parâmetros do pop nacional.

Álbum “Tropicália Panis Et Circencis”, de 1968, entre as obras literárias indicadas para o vestibular da UFSC e IFSC de 2025 – Foto: Internet/ReproduçãoÁlbum “Tropicália Panis Et Circencis”, de 1968, entre as obras literárias indicadas para o vestibular da UFSC e IFSC de 2025 – Foto: Internet/Reprodução

O disco-manifesto reuniu artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e Nara Leão, que representavam o movimento tropicalista, uma expressão artística que misturava elementos da cultura nacional e estrangeira, buscando uma identidade brasileira moderna e crítica.

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Ao mesmo tempo em que conectava a música brasileira com a contracultura e o modernismo da psicodelia mundial, o movimento buscava esse mergulho em nossa identidade mais regionalista.

Sim, porque a Tropicália foi muito além da música. Ela nasce no cerne da ebulição artística e comportamental que uma geração de notáveis leva para as artes plásticas (aliás, o termo “Tropicália” é originário da obra do artista plástico Hélio Oiticica, de 1967), ao Cinema Novo, à literatura e dramaturgia.

Mutantes seguram guitarras na capa de “Tropicália” para provocar Elis Regina

A própria capa é uma intervenção artística, criada pelo Rubens Gerchman sobre a fotografia dos integrantes do projeto.

Alguns detalhes curiosos: o arranjador e maestro Rogério Duprat segura um penico como xícara, Caetano Veloso traz ao colo um retrato de Nara Leão (que não conseguiu estar presente na sessão para a foto) e Gilberto Gil traz uma foto de formatura sua. Gal Costa faz com o poeta Torquato Neto o par da típica família recatada brasileira.

Ao fundo, estão os Mutantes (Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias) empunhando suas guitarras, numa clara alusão ao movimento de um grupo de artistas (entre eles, Elis Regina) que acusavam o uso do instrumento como uma influência norte-americanas na música brasileira.

Tudo faz sentido nesta grande obra e quanto mais nos aprofundamos, mas maravilhados ficamos.

As canções são incríveis, a começar pela faixa título, “Panis Et Circencis”, um clássico dos Mutantes, mas há de tudo ali: rock, baião, bossa nova, samba, enfim.

A icônica foto do álbum “Tropicália Panis Et Circencis”, que traz Caetano Veloso (segurado uma foto de Nara Leão), Os Mutantes, Rogério Duprat, Gal Costa, Torquato Neto, Gilberto Gil e Tom Zé. – Foto: ReproduçãoA icônica foto do álbum “Tropicália Panis Et Circencis”, que traz Caetano Veloso (segurado uma foto de Nara Leão), Os Mutantes, Rogério Duprat, Gal Costa, Torquato Neto, Gilberto Gil e Tom Zé. – Foto: Reprodução

Uma das presenças mais surpreendentes é a de Nara Leão, sublime em “Lindonéia” e que ao tomar parte da Tropicália rompe com os dogmas da Bossa Nova da qual foi musa. E há outras canções que se sustentaram ao longo das décadas: “Baby”, com Gal Costa, “Bat Macumba”, de Gilberto Gil (e depois com Mutantes) e “Geleia Geral”, também de Gil.

Sinceramente, um ser humano que conhece, estuda e entende a dimensão desta obra para o Brasil é digno de depositarmos todas as nossas esperanças!

Um golaço da UFSC e do IFSC, não só pelo pioneirismo em incluir um álbum musical, mas pelas demais indicações: o livro de contos “Singradura”, de Flávio José Cardoso, a novela “Solitária”, de Eliana Alves Cruz, o clássico “Parque Industrial”, romance de Pagu (pseudônimo de Patrícia Galvão), e os livros “Velho”, de Alê Motta, e “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior.

E digo mais: não se atentem apenas em cumprir o “protocolo” de estudar para o vestibular. Aproveitem a oportunidade para viver essas obras e levar isso para toda as suas vidas.

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