Um ano de perdas para a cultura de SC

Entre março e novembro Santa Catarina ficou de luto com a perda de personalidades que marcaram a literatura, a música, o teatro e as artes visuais

Paulo Clóvis Schmitz, Especial para o ND* Florianópolis

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O ano que termina nesta sexta-feira (31) foi particularmente cruel com a arte e a cultura de Santa Catarina. Num período de nove meses, o Estado perdeu personalidades icônicas da música, da literatura, das artes visuais e do teatro.

Um ano de perdas para a cultura de SC – Foto: Reprodução/NDUm ano de perdas para a cultura de SC – Foto: Reprodução/ND

O escritor João Paulo Silveira de Souza, grande contista catarinense, morreu em 19 de março, aos 88 anos, seguido pela atriz e diretora teatral Carmen Fossari (18 de abril, aos 66 anos), pelo cineclubista e historiador Gilberto Gerlach (6 de maio, aos 77), pelo pintor e poeta Rodrigo de Haro (1º de julho, aos 82), pelo animador cultural Darcy Brasiliano dos Santos (3 de julho, aos 96) e pelo maestro Luiz Carlos Laus de Souza, mais conhecido como Tibi Laus (8 de novembro, aos 76).

Os escritores João Nicolau de Carvalho e Edson Ubaldo também desfalcaram a literatura catarinense em 2021. O Estado perdeu ainda Annita Hoepcke da Silva, fundadora e presidente do Instituto Carl Hoepcke e grande idealizadora e incentivadora de projetos culturais.

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Annita Hoepcke foi uma grande idealizadora e incentivadora de projetos culturais – Foto: Instituto Carl Hoepcke/Divulgação/NDAnnita Hoepcke foi uma grande idealizadora e incentivadora de projetos culturais – Foto: Instituto Carl Hoepcke/Divulgação/ND

É difícil dizer qual dessas perdas foi a mais sentida – todas elas deixaram um vazio imenso em suas respectivas áreas. Rodrigo de Haro foi um artista de ponta, com mercado em todo o Brasil, e como escritor foi dono de um estilo único que deu vazão a uma bagagem cultural vasta e universal. Seu amigo de longa data, Gilberto Gerlach não só brindou Florianópolis e São José abrindo cineclubes e cinemas de arte como também escreveu livros portentosos sobre essas duas cidades e sobre Blumenau, onde morou na juventude.

Carmen Fossari ajudou a formar uma geração de atores e atrizes que ainda hoje estão nos palcos catarinenses e de outros Estados e sempre representou a vanguarda nas ideias e nas montagens provocativas que fez, capazes de incomodar quem vê a arte como mero entretenimento. Darcy Brasiliano dos Santos também formou gente na música, na dança e na ópera ao trazer espetáculos do mundo inteiro para Florianópolis, especialmente na música erudita, durante décadas, e ao ajudar a montar óperas que se equiparavam às dos grandes centros do país.

Silveira de Souza foi professor, escritor e servidor público ligado à edição de livros e ao estímulo à difusão da literatura catarinense. E Tibi Laus ajudou a fundar o Coral da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), foi regente da Associação Coral de Florianópolis, membro do Conselho Estadual de Cultura e, no exterior, atuou em festivais na Espanha, México, França e Canadá.

“Nos últimos tempos, perdemos muitas pessoas conhecidas, de nosso círculo de amizades, mas essas figuras viveram para a arte e a cultura e precisam ter seu trabalho reconhecido e valorizado”, destaca o poeta e editor Alcides Buss. “O que fica é a obra deles, e a nossa missão, assim como a das autoridades, é manter vivo o seu legado”.

Mestre na formação de talentos

Referência do teatro catarinense, Carmen Fossari sempre esteve ligada à academia, como integrante da equipe do Departamento Artístico-Cultural da UFSC, mas foi como professora e diretora, responsável por montagens marcantes, que deixou sua maior herança. Por seu grupo, o Pesquisa Teatro Novo, passaram muitos atores e atrizes em formação, que foram animar as artes cênicas em outras companhias. O caráter experimental de suas peças deu frutos e bagagem crítica para uma geração de artistas.

Carmen sempre esteve ligada à academia – Foto: Rodrigo Sambaqui/Divulgação/NDCarmen sempre esteve ligada à academia – Foto: Rodrigo Sambaqui/Divulgação/ND

“Carmen não fazia teatro pelo teatro, se preocupava com as causas sociais e suas peças falavam da descaracterização da Ilha de Santa Catarina e de suas tradições, da exploração imobiliária e da derrubada dos engenhos de cana e farinha”, diz o diretor teatral Júlio Maurício.

Montagens como “Terra de Terrara” e “Engenho Engendrado”, escritas a partir de pesquisa linguística e cultural nas comunidades de colonização açoriana, são exemplos disso. Ela também mostrou suas peças fora do país (Argentina, Chile, Colômbia, Porto Rico, México, Portugal), escreveu livros e enredos para escolas de samba, adaptou textos de Bertolt Brecht e William Shakespeare, traduziu Molière e levou para o palco a prosa e o verso de autores catarinenses como Lindolf Bell, Almiro Caldeira, Harry Laus, Franklin Cascaes e Flávio José Cardozo.

“Antes dela, sem a base acadêmica, os atores aprendiam por conta própria”, afirma Maurício.

O mentor dos grandes espetáculos

Quem viveu a época áurea dos eventos promovidos pela Pró-Musica de Florianópolis, a partir da década de 1970, sabe que o mentor daquelas temporadas foi Darcy Brasiliano dos Santos. O bancário que tocava piano e cantava em corais colocou a cidade no mapa dos grandes concertos e espetáculos de música erudita, dança e ópera, formou um público fiel a esses gêneros e ajudou a criar mercado para artistas de qualidade, nascidos aqui ou que migraram de outros centros para Santa Catarina. Era comum os teatros da Capital receberem companhias, cantores e solistas russos, suecos, italianos, franceses e alemães.

O musicista florianopolitano Darcy Brasiliano dos Santos – Foto: Divulgação/NDO musicista florianopolitano Darcy Brasiliano dos Santos – Foto: Divulgação/ND

Um soldado das artes, Darcy era a própria Pró-Música, porque cuidava de tudo, da recepção aos artistas à divulgação dos eventos na imprensa. Nomes como Arthur Moreira Lima, Aldo Baldin, Edino Krieger, Nelson Freire, Turíbio Santos, Ana Botafogo e o Ballet Stagium incluíam Florianópolis em suas temporadas de espetáculos. E as óperas “La Traviata”, “Carmen” e “Madame Butterfly” foram montadas na cidade, algo que era impensável antes dele, dado o acanhamento cultural reinante. “Darcy superou as barreiras estéticas, culturais e financeiras, e também a falta de espaços físicos e a lógica comercial da produção artística”, disse a jornalista Néri Pedroso em livro que escreveu sobre ele em 2020.

Um gênio a serviço da grande arte

Poucas pessoas detinham, por aqui, a erudição e a ousadia de Rodrigo de Haro, seja em versos, seja na manipulação de lápis e pincéis. Poeta, pintor, pensador e mosaicista, ele foi uma usina de saber, resultado de sua imersão na leitura dos clássicos, na interpretação profunda da cultura oriental, na absorção do legado de filósofos e alquimistas de todas as latitudes. Sua poesia faz referências ao zodíaco, ao tarô, a crenças e seitas imemoriais, e à sensualidade que domina seus versos e os traços de seus desenhos e pinturas. Ao mesmo tempo, ele sempre se reportou a figuras e paisagens da Ilha de Santa Catarina, a personagens que conheceu ou estudou, a lugares rústicos que o progresso apagou ou escondeu na cidade.

Rodrigo de Haro foi uma ‘usina de saber’ – Foto: Flávio Tin/Arquivo/NDRodrigo de Haro foi uma ‘usina de saber’ – Foto: Flávio Tin/Arquivo/ND

A produção de Rodrigo de Haro está espalhada pelo mundo e seus mosaicos – como o que ocupa toda a fachada do prédio da reitoria da UFSC – são grandes obras de arte ao ar livre. Filho do também pintor Martinho de Haro, deixou uma importante obra poética, em livros como “Pedra Elegíaca”, “Amigo da Labareda”, “Naufrágios”, “Caliban” e “Andanças de Antônio”. “Ele demonstra requinte no uso da palavra e se preocupa com seus significados”, diz a professora Lélia Pereira Nunes sobre o artista.

O contista que fugia do sucesso

Silveira de Sousa, referência do conto catarinense de 1960 para cá, nunca escreveu para os críticos e, no fundo, nem para os leitores, mas para dar vazão a uma necessidade interior, sem se preocupar com fama, dinheiro ou reconhecimento pessoal. Seus textos são densos e têm em Florianópolis, em suas entranhas e figuras grotescas, o combustível para uma criação esmerada.

Silveira de Souza nunca escreveu para os críticos e, no fundo, nem para os leitores – Foto: Flávio Tin/Arquivo/NDSilveira de Souza nunca escreveu para os críticos e, no fundo, nem para os leitores – Foto: Flávio Tin/Arquivo/ND

A partir de “O Vigia e a Cidade”, publicado há mais de 60 anos, ele escreveu pequenas pérolas influenciado por uma vasta gama de poetas, cineastas, músicos e pintores que ajudaram a construir um imaginário rico que não raro resvala para o fantástico e o nonsense. Parte de seus contos foi reunida na coletânea “Ecos do Porão”, em dois volumes, que saiu pela Editora da UFSC.

O maior de todos os cinéfilos

Uma das perdas mais lamentadas do ano foi a do cinéfilo, pesquisador e escritor Gilberto Gerlach. Ele criou o primeiro cineclube de Florianópolis, no final da década de 1960, e nunca mais parou de surpreender os apreciadores do bom cinema com filmes de qualidade que as salas comerciais não exibiam.

Gilberto Gerlach criou o primeiro cineclube de Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/NDGilberto Gerlach criou o primeiro cineclube de Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/ND

Depois do primeiro cineclube no curso de engenharia da UFSC, passou a mostrar obras-primas na casa do pintor Martinho de Haro, no Theatro Adolpho Mello (em São José), no cine Jalisco (no Estreito), no auditório da Biblioteca Pública do Estado e na sala de cinema do CIC (Centro Integrado de Cultura), onde brindou o público, durante décadas, com filmes produzidos em todos os continentes. Também publicou belos livros sobre Florianópolis, São José e Blumenau, a partir de extensa pesquisa em fontes primárias dentro e fora do Estado. Em agosto, poucos meses depois de sua morte, sua mulher Carmen Lúcia Cruz Lima, professora e tradutora, morreu em Paris, onde visitava a filha, vitimada por um AVC.

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