Os relatos a seguir são apenas três das 285 sugestões para o uso da Cidadela Cultural Antárctica colhidas pela prefeitura de Joinville em uma consulta pública realizada em 2014. As ideias eram muitas e demonstram a importância do espaço para a arte e a cultura na cidade.
- “É um anseio não só pessoal, mas de toda a sociedade. A cultura de Joinville depende de um espaço como a Cidadela Cultural Antárctica. Penso em usar para fomentar arte, economia criativa e cultura popular”.
- “A Cidadela Cultural é primordial para o desenvolvimento da cultura e arte em Joinville. Ela deve ser utilizada para atrair os joinvilenses para a cultura”.
- “Vejo todo o espaço da Cidadela Cultural com um enorme potencial para crescimento e para se tornar um centro que poderá ser explorado em várias iniciativas, como arte, cinema, música, dança…”
Na última sexta-feira (19), um dos galpões do espaço pegou fogo. As chamas destruíram madeira, papéis e outros materiais armazenados em um prédio já interditado. Mas levaram também parte da história e da cultura joinvilense, evidenciando algo de que a classe artística da cidade já reclamava há anos: o descaso com a Cidadela.
Um dos galpões da Cidadela pegou foto na última sexta-feira (19) – Foto: Ricardo Fortuna/NDComprada para virar referência no país
Prédios históricos em uma área de cerca de 42 mil m² situada praticamente no Centro da cidade: a relevância e as características do local que abrigara cervejarias desde o século 19 fizeram com que a prefeitura, à época administrada por Luiz Henrique da Silveira, comprasse a estrutura em 2001, por R$ 2,1 milhões.
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Edson Busch Machado esteve à frente da FCJ durante a compra da Cidadela – Foto: Arquivo pessoal/NDO objetivo era fazer do espaço algo como o Sesc Pompéia, em São Paulo, um centro de lazer, arte e cultura que pudesse receber os joinvilenses para diversas atividades. Algo inovador para a cidade e também para o país.
Quem relembra é Edson Busch Machado, artista joinvilense que na época da compra era presidente da hoje extinta Fundação Cultural de Joinville.
“Foi criado um projeto conceitual baseado no Sesc Pompéia: um grande shopping cultural, não no sentido de comercialização, mas de circulação dos produtos culturais. Um mix de lojas e de espaços para artesanato, música, dança, teatro, cinema e muito mais”, conta.
Além disso, a própria história da cerveja em Joinville seria preservada. “Havia uma série de equipamentos como tonéis de cobre e alambiques que seriam preservados. A âncora do espaço seria esse Museu da Cerveja, que utilizaria esses elementos e até produziria a bebida. Não seria um museu estático, mas um museu dinâmico”, destaca Edson.
Cidadela Cultural Antárctica abrigou cervejarias desde 1889 – Foto: Fabrício PortoEle lembra que até mesmo o irmão, Juarez Machado, pretendia instalar ali um dos seus ateliês, perto do também previsto Museu de Arte Contemporânea Luiz Henrique Schwanke. Com o passar do tempo, porém, o abandono do local e das ideias foi ficando em evidência e nenhum dos projetos avançou dentro da Cidadela.
“Não houve vontade política em dar continuidade a esse processo que era inovador na cidade e no país. É chocante a situação atual, um golpe para a cultura”, lamenta Edson, que deixou de acompanhar os projetos quando se mudou para Florianópolis, já no ano seguinte à compra do local.
Interior do galpão da Cidadela em 2016 – Foto: Fabrício Porto“Me sinto profundamente triste e revoltado. Essa falta de manutenção foi esvaziando o local”, complementa. Para ele, apenas a vontade política e o posicionamento ainda mais forte da sociedade podem ajudar a reconstruir o que restou.
Hoje, o local abriga a Ajote (Associação Joinvilense de Teatro) e a Aaplaj (Associação de Artistas Plásticos de Joinville), entidades que fizeram com que o espaço não ficasse totalmente inutilizado durante todos esses anos. Parte do acervo do MAJ (Museu de Arte de Joinville) também está no espaço.
Patrimônio histórico em chamas
“Um patrimônio público em chamas representa uma dor imensa no sentido de que são as nossas memórias e identidades que vão sendo consumidas”, avalia Elizabeth Tamanini, conselheira de patrimônio material no Conselho Municipal e represente do setorial de museus e espaços de memória.
Para ela, o fogo em um prédio histórico acaba destruindo, em partes, a memória social da cidade. Acaba-se com as referências das antigas fábricas, casas e comércios. “A gente fica com um território sem passado, sem história e logo a gente sente o não pertencimento”, destaca.
Elizabeth analisa a compra da Cidadela pela prefeitura, em 2001, como uma atitude louvável e relembra que por muitos anos, na ausência de uma revitalização completa, o espaço foi sendo utilizado e adaptado dentro das possibilidades para receber atividades culturais.
No entanto, segundo ela, desde 2014 tem se percebido um descuido da gestão pública em relação ao complexo. “Embora tenha havido um processo de atividades que acontecem a duras penas, há uns sete anos há descuido. O espaço estava lá esperando a ação do poder público”, ressalta.
Ela também destaca que houve diversos projetos para a revitalização do local, ação que está, inclusive, prevista do Plano Municipal de Política Cultural. “As ações de revitalização estão previstas, então essa questão já vem sendo discutida há muitos anos”, salienta. Dez anos depois, porém, mesmo com a mobilização da classe artística e cultural, os projetos não saíram do papel.
Segundo o Ministério Público, há um inquérito civil aberto em 2015 para tratar do espaço. Já em 2017, foram feitas vistorias no local e proposto um termo de ajustamento de conduta. À época, porém, a prefeitura recusou a medida afirmando que havia um plano de recuperação para o local.
O atual prefeito, Adriano Silva (Novo), afirmou em campanha que pretende firmar uma parceria público-privada para administrar o local. De acordo com a prefeitura, não há projeto de revitalização do espaço atualmente.