Há cheiros que valem uma vida. E há perfumes que resumem uma paixão. Nas cavernas, o homem perseguia o cheiro do alimento – e saía à caça .No século XXI, o cheiro mais perseguido é o da casa – o da segurança – a “rua” anda cada vez mais perigosa.
A primeira coisa que emerge da minha infância é o cheiro de pão. Chegava de carrocinha, o padeiro na boleia, o orelhudo puxador justificando o ditado “cavalo de padeiro”. Parava em todas as casas do Largo Treze de Maio, o cheiro do pão fresquinho impregnando o ar, anunciando a chegada da padaria “móvel”.
. – Foto: Pixabay/ReproduçãoPão de trigo, de duas metades. (Seria indelicado chamá-lo de “bundinha”, mas é o que era: uma nádega de duas bochechas). Pão francês. Pão doce de farofa. Pão de tranças. Pão de milho. Pão Mamica –doce, comprido, com um “bico de seio” na ponta.
SeguirA carrocinha já era diferente: empinada, tinha só duas rodas, o traseiro dividido em dois compartimentos ligados por dobradiças. O padeiro anunciava a sua presença batendo a tampa do “guarda-pães” contra a própria carroça. A vizinhança afluía, ao “alerta” do trote dos baios ou pelo barulho do pregão: “Padeiro!” Todos em “roupas de estar em casa”, compravam quase todo o estoque de pães, sem falar nas roscas de polvilho.
O próprio padeiro fazia o troco e seguia rumo ao próximo freguês, levando o pão fresquinho na carroça e alguns micróbios na mão. E havia os mercantes de verduras, equilibrando dois cestos atravessados por um pau de canga. Ali dentro dos cestos,as frutas, os legumes e as hortaliças.A freguesa apertava a “fruta-de-conde”, a “laranja açúcar”. E descobria os caquis, os abacaxis:– Quanto é o caqui? E o ananás?
Um bichinho se mexe em meu cérebro e nele se abre um mágico prisma regressivo.Recuo não apenas um século, mas dois.E acabo transportado para a vidinha da Desterro de 1803, época em que a Vila era um sossegado quintal, a urbe e a roça misturadas no cacarejar das galinhas e no grugulejar dos perus.
O povoado era um viveiro de pássaros e bichos do mato,como tatus, cotias e macaquinhos, uma estufa de flores exóticas. Gotas de suor cintilando no peito descoberto, escravo sombreavam grandes barris de carvalho, transportando o “petróleo humano”.
Aquele rejeito escuro e pastoso pingava pela Rua do Ouvidor (hoje Trajano) ou pela Rua Augusta,atual João Pinto, em direção às duas praias de destino: a do “Vai-Quem-Quer” – na Rua Francisco Tolentino – ou a da “Boa Vista”, atual Prainha.Boa Vista? A Casan da época consistia nesse “sistema”de esgoto ambulante, precário penico móvel, por cujos fundilhos escapava o Produto Interno Bruto dos cinco mil habitantes da vilazinha à beira-mar.
A Praça XV era o “Largo da Matriz”; a Conselheiro Mafra, a “Rua do Príncipe”; a Fernando Machado,a “Rua do Vigário”; a Álvaro de Carvalho, a “Rua da Palma”; a Sete de Setembro, a “Rua da Bragança”;a Felipe Schmidt, a “Rua dos Moinhos de Vento”. Ou “Rua Bela do Senado”. Imaginem:um Senado associado ao belo…