A abstinência, ainda preservada por religiosos nos 40 dias subsequentes à Quarta-Feira de Cinzas, fazia parte, pelo menos até a década de 80, do dia a dia dos nativos do Norte da Ilha.
A carne bovina ou de porco era escassa, exceto em residências onde se carneava o animal ou em famílias que tinham o hábito semanal de viajar três horas de ônibus, de Canasvieiras até o Mercado Público, no centro de Floripa, para fazer compras no açougue.
Carne, carne de churrasco, unsplash – Foto: Marcos Paulo Prado/Unsplash/NDE, mesmo assim, o freguês recebia parte do boi sem saber diferenciar a alcatra, o coxão mole ou duro. A dona de casa é que pressionava o peso com os dedos para saber se o produto precisava ser amolecido na panela ou frigideira.
SeguirNo cotidiano doméstico, a cada 15 dias, em média,o nativo pegava uma galinha no terreiro para fugir ao hábito de só consumir frutos do mar. Diariamente,com ou sem chuva, as praias eram tomadas de barcos,redes, tarrafas: a pesca era o sustento das famílias.
A carne de boi ou de porco nem se aproximava da mesa durante a quarentena religiosa, fortalecida pelas novenas quase que diárias em igrejas ou residências familiares. Independente da Quaresma, as demais sextas-feiras integravam o ritual religioso, com a maioria das famílias nutrindo-se somente de peixe, camarão e outros produtos do mar.
O domingo de Páscoa era comemorado com festas familiares. Senhoras se reuniam em uma das residências para preparar os doces: o mais comum era o cartucho de papelão para armazenar amendoim torrado à base do açúcar grosso. Não havia chocolate industrializado, e o que se produzia na semanada Páscoa dava para abastecer famílias por mais de meio ano.
Enquanto isso na praia da Cachoeira…
– Ô Lelo, tu já está pronto pra bater ovos de galinha com amendoim e açúcar grosso e fazer doces pra Páscoa?
– Venanço, o que sei fazer é pescá. Esse negócio de casquinha de amendoim, doces, bolos, isto é com as fêmeas.
– Huuummm, machão! Eu também sô pescador,mas pego na panela sem ter vergonha.
– É, Venanço, já não se faz mais homem como antigamente…, dispara Lelo às gargalhadas.
– Vá pegar formiga nas costa do tamanduá, seu ixtepô.
– Puta meda, Venanço, tu não respeita nema Quaresma, com esses nomes feio.
– É, mas tu gosta de provocá, né, Lelo? Eu vou rezá uma ave-maria, tá certo. Mas antes, Lelo, vá a meda tu.