O primeiro contingente de casais açorianos transportados dos Açores ao Extremo Sul do Brasil partiu do porto de Angra, na Ilha Terceira, em 21 de outubro de 1747, nas galeras “Jezus, Maria, Jozé”, capitaneada por Luís Lopes Godelho, e “Sant’Anna e Senhor do Bonfim”, comandada Pero Lopes Arraya.
As correntes marítimas e os ventos marcaram o compasso dos dias e a ansiedade quase incontida de chegarem ao Brasil – Foto: Leo Munhoz/NDAo todo foram embarcados 85 casais, compreendendo 473 pessoas. Vieram soldados, padres, comerciantes, artesãos, lavradores. Nas primeiras viagens, se apresentaram cidadãos honoráveis, pertencentes à nobreza das Ilhas e possuidores de bens de raiz, que aqui ocuparam posição de destaque na área militar. Aliás, corroborando as opiniões de que a causa principal da colonização açoriana para o Sul do Brasil foi de natureza militar para assegurar a ocupação e posse territorial, segundo o princípio de Utis possidetis. Entretanto, não descarto a fuga à pobreza reinante como uma das condicionantes.
Convido-os a uma volta ao tempo e ali, a beira do cais de Angra, assistirem o levantar as amarras e o rumar em direto para o Brasil daquelas 473 pessoas, carregando suas alfaias com olhos ansiosos, lágrimas de saudade, sorriso de esperança a buscar no horizonte a “terra prometida onde jorra leite e mel”.
Fico a imaginar o que teriam sido aqueles 80 dias a bordo do “Jezus, Maria, Jozé”, para os homens, mulheres e crianças, durante a longa e demorada travessia. Desde as condições de embarque e desembarque, divisão de tarefas, distribuição das porções de alimentos, regulamento disciplinar rígido, assistência religiosa e a separação e discriminação efetiva entre homens e mulheres para resguardá-las de qualquer ofensa moral.
“Para arrefecer os ardores do sangue quente dos homens do arquipélago, na dura abstinência da travessia, a Metrópole enjaulava as mulheres!”, exclama o historiador catarinense Osvaldo R. Cabral em Os Açorianos (1950:16).
Os melhores cômodos eram para os nobres e os capelões, enquanto os humildes colonos foram depositados em alojamentos acanhados e superpovoados que mal cabia a sua cama e a arca com pertences.
Os padecimentos sofridos e os horrores dessa travessia e as perdas humanas foram atribuídos à qualidade dos mantimentos, o racionamento das porções alimentares, à escassez da água potável, as péssimas condições de higiene e as exigências do severo código de posturas. Além das doenças como o escorbuto, sem contar o clima tropical, quente e úmido, abaixo do Equador.
As correntes marítimas e os ventos marcaram o compasso dos dias e a ansiedade quase incontida de chegarem ao Brasil. Imaginem o cenário que se desenha na manhã do 65º dia de viagem. Um alvoroço no convés, à distância vê-se os contornos azulados do território brasileiro.
Ouve-se gritos de alegria, finalmente “terra à vista”. As mulheres, até então trancafiadas, tinham sido liberadas para assistirem a missa, sob a vigilância de guardas armados. Porém, naquele instante, as normas foram esquecidas e elas febricitantes se debruçaram na balaustrada do navio e perscrutavam o horizonte com olhos cansados e famintos de liberdade.
A terra ao longe estava cada vez mais próxima e descortinava-se um litoral recortado com centenas de ilhas e ilhotas, uma paisagem luxuriante e uma faixa de areia dourada. Para completar, o som e a beleza de aves marinhas, fragatas, atobás, albatrozes, em grande alarido pareciam dar boas-vindas ao adentrarem a costa do litoral paulista, na região de Ilhabela.
Era tempo de Natal, há dias que nos cômodos superiores e nos inferiores, na antecâmara debaixo e na rabada, o espaço das mulheres, realizavam as novenas natalinas.
A religiosidade profunda e tradições das ilhas serviram de consolo às agruras vividas e de esperança e fé no Menino Salvador do Mundo. Os povoadores oriundos da zona rural das Ilhas de São Jorge, Pico, Faial, Terceira, Graciosa e São Miguel trataram de armar os seus presépios e até “altarinhos” com a imagem do Menino Jesus, em pé sobre uma toalha branca, ladeado por dois pratinhos com o trigo previamente grelado.
As correntes favoráveis e ventos fracos do quadrante nordeste embalavam a galera que navegava entre quatro a seis nós rumo à Santa Catarina.
Segunda-feira, 25 de dezembro, dia de Natal. Sim, era Natal, mesmo naquela situação adversa, de tantas ilusões sepultadas no Atlântico, a brava e resiliente gente açoriana comemorou o aniversário do Menino Deus com a celebração da Missa e um convívio no convés. Apesar dos recursos parcos, da pouca abundância na dispensa, foi servido uma boa refeição para cada pessoa: meio arratel de vaca (cerca de 459,0 g), um quarto de toucinho, legumes, azeite e vinagre.
O dia foi perfeito, navegando a favor das correntes marítimas e um “nordestaço” amenizava o forte calor do verão tropical, enquanto passavam ao largo do litoral de Cananeia, encantados com as suas formas insulares. Apenas 165 milhas náuticas separavam Cananeia de Santa Catarina. Se tudo corresse bem em uma semana, no máximo, 461 açorianos atracariam na baía norte, na Ilha de Santa Catarina.
Para o povo de Florianópolis, o alvorecer de 2023 é o prenúncio de uma data histórica e cultural de indelével significado — a chegada dos primeiros açorianos há 275 anos à Vila Nossa Senhora do Desterro, na Ilha de Santa Catarina, no dia 6 de janeiro de 1748, dia de Santos Reis.
Espio da nossa varanda a baía norte ali em frente, pronta para o abraço e revejo essa chegada na Ilha de Santa Catarina. O que sentiu cada açoriano, após quase três meses em agruras no Atlântico, ao contemplar a geografia insular, admirar a baía, o mar azul de dezembro bolinado pelo vento nordeste e a exuberância da mata atlântica de muitos tons de verde nos morros em frente? Talvez, ali no meio da baía, cumprindo a quarentena, cantaram loas aos Santos Reis dando vivas à terra que os acolhia. Afinal, era dia de Santos Reis. Eles chegam tocando/Sanfona e violão/ Os pandeiros de fita /Carregam sempre na mão… poetou Tim Maia.
“Floripa” é o Novo Mundo dos nossos ilhéus açorianos do distante século 18 e dos descendentes açorianos do presente que avançam no século 21 com renovadas esperanças e muitos sonhos.
Viva!
Por: Lélia Pereira Nunes, professora, pesquisadora e consultora do projeto “Açores: Conhecer é Viver”, do Grupo ND