Viva Açores – Conhecer é Viver: Nas asas da fé e da devoção

Dentre as manifestações que estão na alma dos ilhéus, o grande destaque é o culto ao Divino Espírito Santo, que no Brasil ganhou força ainda no século 17, na ocupação de territórios do Norte do país

Paulo Clóvis Schmitz – Especial para o ND Florianópolis

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O território de Açores é “a região mais católica do país e aquela onde as pessoas mais rezam”, escreveu o sociólogo Alfredo Teixeira, responsável pelo Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Não seria de esperar outra coisa de um arquipélago colonizado, em absoluta maioria, a partir do século 15, por portuguesas do continente, reconhecidamente devotos. Além disso, a fé religiosa foi aguçada pela frequência dos desastres naturais, como sismos e vulcões, e pelos constantes ataques de piratas e corsários nas ilhas desde os tempos que se seguiram aos descobrimentos ultramarinos.

Tão importante quanto admitir esse fervor católico é considerar que os açorianos levaram suas crenças e práticas religiosas para onde quer que partissem, numa diáspora que os colocou em todos os continentes. Dentre as manifestações que estão na alma dos ilhéus, o grande destaque é o culto ao Divino Espírito Santo, que no Brasil ganhou força ainda no século 17, na ocupação de territórios do Norte do país, e que faz parte das práticas dos emigrantes e seus descendentes nos Estados Unidos e Canadá, para onde seguiram milhares de açorianos, especialmente no século passado.

Coroa do Divino nos Estados Unidos – Foto: Nicholas Pessoa/Divulgação/ND nickpessoa@gmail.com/NDCoroa do Divino nos Estados Unidos – Foto: Nicholas Pessoa/Divulgação/ND nickpessoa@gmail.com/ND

Em Florianópolis, o mês de setembro, que começa na próxima quinta-feira, marca o encerramento do ciclo do Divino Espírito Santo de 2022. Entre os dias 2 e 25 haverá festividades, missas e cortejos nas comunidades do Rio Vermelho, Barra da Lagoa, Santo Antônio de Lisboa e Canasvieiras – local em que o ciclo, aberto em maio, chega ao final. Por isso, nada mais pertinente do que abordar na série Viva Açores – Conhecer é Viver, do Grupo ND, a imensa religiosidade que é a marca registrada dos açorianos.

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Na Ilha de Santa Catarina, o calendário do culto alcança 14 comunidades, mas as festas também ocorrem no Continente e em outros municípios do litoral. A professora Lélia Pereira Nunes, autora de livros importantes sobre o tema, diz que nos lugares para onde os açorianos emigraram houve uma assimilação de elementos da cultura local também na religião. “Na aventura da emigração todos levam seus usos e costumes, seus hábitos e crenças” afirma ela, citando os terceirenses (da ilha Terceira) e os picarotos (da ilha do Pico) que carregaram para a Califórnia, nos Estados Unidos, sua forte fé e devoção.

“Talvez no princípio, na América, eles fizessem do mesmo jeito que nas ilhas, mas aos poucos criaram associações e irmandades e em torno delas fizeram suas festas”, ressalta a professora, que é curadora do projeto Viva Açores. Da sociedade americana copiaram, por exemplo, as grandes paradas e as capas das rainhas (“queens capes”). Assim, “inventaram” as rainhas do Espírito Santo, coisa que não havia nos Açores.

Bandeira do Divino em Fresno, na Califórnia (EUA) – Foto: Amy Joseph/Divulgação/NDBandeira do Divino em Fresno, na Califórnia (EUA) – Foto: Amy Joseph/Divulgação/ND

Procissões e ritos com a cor local

As diferenças entre as festas do Divino podem ser detectadas também em Santa Catarina. A professora Lélia Nunes cita Penha, no litoral norte, e Jaguaruna, no Sul do Estado, que têm peculiaridades na formação do cortejo e nos trajes usados pelos participantes da festa em comparação com Florianópolis, São José, Palhoça e Santo Amaro da Imperatriz. Apesar disso, o ponto comum é o louvor à terceira pessoa da Santíssima Trindade, com uma coroação que revive a promessa feita há 700 anos pela rainha Isabel na cidade portuguesa de Alenquer, onde nasceu a manifestação.

No Brasil, os festejos do Espírito Santo estão tão espalhados quanto amplas são a crença e o fervor dos fiéis. Do Amapá ao Rio Grande do Sul, passando por Sergipe, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul (na cidade de Santa Tereza a festa é patrimônio imaterial do Estado), cada comunidade adota uma programação que considera as particularidades regionais. No Maranhão, a mais famosa é a festa de Alcântara, com suas caixeiras do Divino e forte influência da religiosidade afro. Em Bom Jesus de Itabapoana, no interior do Rio de Janeiro, toca-se desde o século 19 o tradicional Hino da Pomba, que foi trazido por um padre da Ilha de São Miguel.

Por outro lado, em San Diego, na Califórnia, os emigrantes fazem procissão com rainhas, coroas e bandeiras como ocorria originalmente na ilha do Pico. “O mesmo acontece na costa leste americana com os imigrantes das ilhas de Santa Maria e São Miguel e seus descendentes, que incluem quartos do Espírito Santo, bodos de carne e leite e sopas, ou na província de Québec, no Canadá, para onde foram muitos nativos da Lagoa, na ilha de São Miguel”, diz a professora.

Comemoração da Festa do Divino em solo americano – Foto: Nicholas Pessoa/Divulgação/ND nickpessoa@gmail.com/NDComemoração da Festa do Divino em solo americano – Foto: Nicholas Pessoa/Divulgação/ND nickpessoa@gmail.com/ND

Um amplo calendário de festas e romarias

No prefácio do livro “Caminhos do Divino”, de Lélia Nunes, o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, escreveu que “a marca identitária do açoriano, esteja onde estiver, é a Festa do Espírito Santo”. Contudo, há outras festividades tradicionais e arraigadas na cultura do arquipélago, como as do Santo Cristo dos Milagres (ilha de São Miguel, mas presente em muitas comunidades, inclusive no Rio de Janeiro), Nossa Senhora de Fátima, Santo Antonio, Nossa Senhora de Guadalupe (ilha Graciosa) e as festas soajoaninas (em louvor a São João, em junho).

Uma consulta à agenda religiosa e cultural dos Açores é suficiente para encontrar um vastíssimo calendário de eventos que confirmam a religiosidade dos moradores das ilhas. Só nestas semanas de final de agosto e início de setembro estão programadas as festas de Nossa Senhora de Lourdes na Feteira (ilha do Faial), Nossa Senhora das Vitórias em Santa Bárbara (Ribeira Grande, ilha de São Miguel), São Brás em Nossa Senhora do Pilar (ilha Terceira), Nossa Senhora d’Ajuda em Covoada, Senhor Bom Jesus da Pedra, Nossa Senhora da Oliveira em Fajã de Cima e Nossa Senhora dos Remédios em Fajãzinha, estas na ilha de São Miguel.

No interior das ilhas do arquipélago açoriano é comum encontrar impérios do divino Espírito Santo, e um deles chama a atenção porque foi parcialmente destruído por um terremoto – mas continua lá, como a demonstrar que a fé dos devotos não foi abalada. Sendo uma tradição desde a origem do culto, os impérios estão nas comunidades da diáspora, inclusive nas Bermudas, no Havaí e, no Brasil, no Rio de Janeiro, sempre com influências locais. Em Santa Catarina, restaram alguns poucos em Florianópolis, Tubarão, Laguna, Imbituba e outras cidades do litoral ou próximo dele.

Uma tradição bastante arraigada são as romarias, com destaque para os romeiros quaresmais da ilha de São Miguel, envolvendo açorianos e não açorianos. Quem ficou mantém a prática ancestral, quem partiu muitas vezes volta para reforçar vínculos com as ilhas, mas também para contribuir com a paróquia onde nasceu e cresceu. “Regressar à sua igreja paroquial, sempre que seus pés pisam a ilha, é uma obrigação que o emigrante sente e cumpre”, escreveu Rui Faria, presidente da Associação dos Emigrantes Açorianos, no livro “Memória e identidade insular” (coordenado por Duarte Nunes Chaves, 2019).

Vestes do Divino são mantidas em todas as partes do Mundo – Foto: Nicholas Pessoa/Divulgação/ND nickpessoa@gmail.com/NDVestes do Divino são mantidas em todas as partes do Mundo – Foto: Nicholas Pessoa/Divulgação/ND nickpessoa@gmail.com/ND

E MAIS…

 Na ilha do Pico há uma reverência especial a São Mateus, o santo que teria salvo a vila do mesmo nome das lavas do vulcão, na última grande erupção. Na festa anual do santo, em setembro, são distribuídas rosquilhas em profusão para a população. Lá se diz que enquanto o mundo for mundo essa promessa será renovada.

 A influência dos hábitos norte-americanos nas tradições do arquipélago pode ser observada nas festas do Divino Espírito Santo, com as vestes pomposas que os homens e as mulheres usam nos cortejos, especialmente na ilha de São Miguel. São capas que os açorianos e descendentes da Califórnia vestem nos Estados Unidos (onde o culto foi mantido e agrega diferentes gerações) e que aos poucos foram incorporadas nas ilhas por famílias de posse que vêm aos Açores na época das festas para pagar promessas e rever parentes.

 O professor Diniz Borges, açoriano radicado há 53 nos Estados Unidos, diz que em fé e devoção as festas do Espírito Santo na Califórnia são similares aos festejos realizados no arquipélago nas décadas de 1960 e 1970. Muitos açor-descendentes de terceira geração se envolvem nestes festejos, e há quem se desloque por horas de uma cidade para outra para participar do culto e das festas, desfiles e confraternizações que se seguem.

 Para muitas pessoas, inclusive na Ilha de Santa Catarina, participar da Festa do Divino é retornar à infância, reencontrar pessoas conhecidas nas ruas, viver o espírito de solidariedade que emana dos festejos. Nos Açores, é comum a distribuição de pão, carne e sopas aos mais carentes. No litoral catarinense, há o café da partilha, com pratos levados para distribuição aos presentes.