As pessoas começaram a ver pássaros de ferro cortando os céus pouco mais de um século atrás – um acontecimento, portanto, recente na história da humanidade. O interessante é que cada lugar tem uma relação peculiar com a ciência que é a aviação, invenção que revolucionou a vida moderna, encurtando distâncias, relativizando o conceito de fronteiras e permitindo trocas antes impensáveis entre nações, governos e empresas.
Embora se encontre na periferia dos centros de decisão, Santa Catarina também contribuiu para construir essa história. Foi nos primeiros anos da década de 1920 que pequenos aviões começaram a descer nos campos de pouso em terra batida existentes em Florianópolis.
Aviões começaram a pousar em Florianópolis na década de 1920 – Foto: Memórias da Aviação em SC/Divulgação/NDO dia 10 de maio de 1923 marcou a instalação, pela Marinha, do Centro de Aviação Naval na cidade, dentro do projeto federal de reestruturar o sistema de defesa do litoral brasileiro. Até então, apenas hidroaviões ligavam a capital catarinense a outras regiões do país.
SeguirA base foi implantada numa vasta área do atual bairro de Carianos, no Sul da Ilha de Santa Catarina, e ali permaneceu como Centro de Aviação Naval até 1941, quando passou a ser subordinada à Força Aérea Brasileira, a FAB. Hoje, o lugar é ocupado pela Base Aérea de Florianópolis. Na mesma área foi inaugurada, em 1942, a primeira pista de pouso e decolagem, em concreto, onde viria a ser o aeroporto Hercílio Luz, atual Floripa Airport.
Antes disso, porém, a Capital fez parte da rota do correio postal francês do qual tomou parte ninguém menos que o aviador e escritor Antoine de Saint-Exupéry. A partir de 1925, a companhia Aéropostale percorreu longas distâncias, cobrindo o norte da África e a América do Sul (ia até a Patagônia) no transporte de correspondências. No Brasil, havia 11 escalas ao longo do litoral, a começar por Pelotas (RS).
O campo do Campeche estava no roteiro de pousos para reabastecimento dos aviões e é citado no livro “Voo noturno”, de Saint-Exupéry. As aeronaves eram da marca Latécoère e voavam com piloto e copiloto, entre os quais se celebrizaram, além do autor de “O pequeno príncipe” (lançado em 1944, ano de morte do autor), nomes como Jean Mermoz e Henri Guillaumet.
Os campos pioneiros e a formação de pilotos
O professor e historiador João Batista Soares, de 82 anos, passou boa parte da vida folheando jornais do século 20 na Biblioteca Pública do Estado e tem milhares de anotações acerca da aviação em Santa Catarina. Ele fala da importância de figuras como os ex-governadores Hercílio Luz e Aderbal Ramos da Silva na criação da infraestrutura para a implantação dos primeiros campos de pouso em Florianópolis.
Florianópolis fez parte da rota do correio postal francês – Foto: Memórias da Aviação em SC/Divulgação/NDAlguns anos após a morte de Hercílio Luz (em 1924), o Estado ganhou protagonismo colocando três ministros no governo de Washington Luís – e um deles era Victor Konder (1886-1941), responsável pela pasta de Viação e Obras Públicas. No cargo, ele incentivou a aviação civil, por meio da criação de aeroportos e de aeroclubes – que funcionavam como escolas de formação de pilotos – em todas as capitais e principais cidades brasileiras.
“A primeira fase da aviação no Estado foi de 1923, com a criação do Centro de Aviação Naval, até cerca de 1940”, diz João Batista. O Sul da Ilha, com seus descampados e baixios, era o local ideal para implantar uma base desse tipo. Uma edição do jornal “Republica” de fevereiro de 1923 fala de um “lugar denominado Ressacada” como ponto onde o governo planejava instalar uma estrutura capaz de abrigar operações aeronáuticas. A região também era conhecida como Caiacanga Mirim e os pousos e decolagens ocorriam na chamada “pista do Ribeirão”.
As operações dos hidroaviões nas baías de Florianópolis
Já atento às novidades que o setor prenunciava, o governo do Estado adquiriu uma área de dois milhões de metros quadrados (em duas compras separadas por cerca de uma década), onde hoje se encontram a Base Aérea e o Floripa Airport.
O campo do Campeche era outra pista, utilizada a partir de 1925 para as operações da Aépostale, cujos pilotos, segundo os jornais da época, também foram recepcionados pelo governador Hercílio Luz. Os periódicos noticiaram que o primeiro mandatário do Estado recebeu Jean Mermoz, um dos mais célebres aviadores franceses, em seu gabinete, no atual Palácio Cruz e Sousa. Àquela altura, Victor Konder ocupava um cargo no primeiro escalão do governo estadual.
Campos do Sul da Ilha disputavam a primazia da aviação local com hidroaviões – Foto: Memórias da Aviação em SC/Divulgação/NDDurante muitos anos, as operações nos campos do Sul da Ilha disputavam a primazia da aviação local com os hidroaviões que desciam nas águas das baías Sul (em dias de vento norte) e Norte (nos dias de vento sul). A Condor era uma das companhias que mantinham linhas que operavam com hidroaviões.
O jornalista Assis Chateaubriand, que foi dono dos Diários Associados, desceu em Florianópolis numa aeronave desse tipo quando estava fugindo das forças federais rumo ao Sul do país, onde queria se juntar a Getúlio Vargas, já em marcha para derrubar Washington Luís do palácio do Catete, no Rio de Janeiro.
Quando Florianópolis entrou definitivamente na rota da aviação comercial, pousavam no aeroporto que depois recebeu o nome de Hercílio Luz aeronaves da Panair do Brasil, Varig, Real Aerovias, Sadia, Taba e TAC (Transportes Aéreos Catarinenses).
Uma ilha com “caminhos de rato”
O professor e historiador João Batista Soares tem tanta paixão pela aviação que voou durante muitos anos, embora nunca tenha tirado um brevê. Pilotou um CAP 4 da Aeronca, companhia que operou em Santa Catarina. Deu cursos e palestras na Base Aérea de Florianópolis e é respeitado como uma referência em pesquisas do setor, além de ter boas relações com o Aeroclube de Florianópolis. “Sempre consultei fontes primárias”, ressalta.
Antiga sede do Aeroclube de Santa Catarina – Foto: Memórias da Aviação em SC/Divulgação/NDSeu vasto material inclui recortes de antigos jornais que eram pródigos em noticiar a chegada de autoridades à cidade, horários de pousos e decolagens, homenagens, cursos e eventos na Base Aérea e no aeroclube, além de leis, resoluções e decretos relativos ao setor da aviação.
Ele é adepto da ideia de que tudo é história, e por isso se atém ao que dizem os livros, os documentos e as pessoas que se debruçaram sobre o tema da aviação no Estado. Não entra na bola dividida que é a polêmica sobre a presença ou não de Antoine de Saint-Exupéry na Ilha – e também na cidade, porque há quem garanta que o autor de “O pequeno príncipe” circulou pelas ruas friorentas da Ilha em dias de vento sul, na virada da década de 20 para os anos 30.
“Não havia ligação das comunidades do interior da Ilha com a cidade, e a estradinha do Campeche era um caminho de rato”, diz o historiador. Nos anos de 1920, já havia uma estrada para o Rio Tavares, mas ela não se estendia até outras partes do Sul da Ilha.
Episódio de grande repercussão foi a queda, em 1928, de um aparelho pilotado pelo aviador Henry Delaunay na Armação da Piedade, atual município de Governador Celso Ramos. “O piloto sobreviveu, foi atendido pelo médico Richard Gottsmann, um dos pioneiros da medicina em Florianópolis, e acabou indo embora e voando na grande guerra”, conta o professor Soares.
Curiosidades
- Criado em 1923, o Centro de Aviação Naval de Florianópolis foi comandado durante dois anos pelo historiador Lucas Alexandre Boiteux (1881-1966);
- Em 16 de janeiro de 1934, o governador Nereu Ramos declarou a área da Caiacanga Mirim, com mais de dois milhões de metros quadrados, de utilidade pública;
- O dia 30 de agosto de 1937 marcou a inauguração do primeiro aeroclube na região da Capital, instalado da chamada Reta das Campinas, atual bairro Kobrasol, em São José. Depois, o aeroclube foi transferido para o Sertão do Maruim, no mesmo município;
- Em 23 de março de 1939, a primeira dama do Estado, Beatriz Pederneiras Ramos, mulher de Nereu Ramos, foi a paraninfa de batismo de um M7 recém adquirido pela Aeroclube de Santa Catarina;
- No dia 14 de janeiro de 1942, o jornal “A Gazeta” noticiou a chegada de um avião Aeronca, de fabricação norte-americana, à cidade. O aparelho chegou encaixotado no navio Cantuária;
- Quando os hidroaviões pousavam nas baías de Florianópolis, uma lancha trazia para a terra e levava os passageiros que iriam embarcar nas aeronaves. Cada aterrissagem era um acontecimento que atraía a atenção de muitas pessoas na cidade;
- A TAC (Transportes Aéreos Catarinenses) operava com rotas para Itajaí, Joinville, Paranaguá, Lages, Porto Alegre, Curitiba, Santos e Rio de Janeiro.