Racismo. Machismo. Homofobia. Desigualdade. Em meio aos movimentos leves e bem treinados dos bailarinos, o debate sobre problemas que fazem parte da realidade brasileira também sobem no palco do Festival de Dança de Joinville. É o olhar da arte sobre a sociedade, a dança como ato político.
Ana Luiza Mendes foi uma das bailarinas a trazer a crítica social ao palco do festival – Foto: Maykon Lammerhirt/DivulgaçãoComo em outros anos, a edição de 2022 do evento trouxe a crítica social em coreografias de diversos gêneros. E se no palco muitos dos bailarinos se identificam com os temas propostos, na plateia muitos espectadores se reconhecem na mesma condição.
Luta contra o racismo no palco
Jovem negra, a bailarina Ana Luiza Mendes trouxe a discussão sobre o racismo ao palco do Festival de Dança de Joinville. Aos 15 anos de idade, ela se apresentou pela segunda vez com um solo de jazz no evento. E pelo segundo ano seguido, aliás, tornou-se campeã da categoria.
SeguirA proposta de abordar o tema veio da professora, mas não à toa: Ana Luiza se posiciona sobre as questões raciais e políticas e, diante disso, a sugestão foi prontamente aceita. “É uma coisa que está dentro de mim e o festival abre muitas portas para a gente ter oportunidade de falar sobre as mensagens que precisa passar”, destaca a bailarina.
Representando a Lapidari Companhia de Dança, de São Paulo, ela apresentou a coreografia “Vou preparar um lugar para vocês”, inspirada na história de Harriet Tubman, ativista estadunidense que foi escravizada e, após conseguir fugir, libertou outras pessoas da escravidão durante a guerra civil.
Ana Luiza se inspirou na história de Harriet Tubman – Foto: Maykon Lammerhirt/Divulgação“Lemos sobre acontecimentos que não foram com a gente, mas com pessoas iguais a nós. Sabemos da luta, da história, sobre como as pessoas sofreram e ainda sofrem. Eu estou dentro desse lugar de fala e não tem realização maior que dançar representando isso”, ressalta Ana Luiza.
E melhor do que abordar o assunto, é sentir o reconhecimento do público. “No final, quando escutei a plateia vibrando, batendo o pé no chão, batendo palmas, foi muito emocionante. Eu terminei a apresentação chorando porque sei do que estou falando e sei que tocou muitas pessoas”, finaliza.
A dança como forma de se posicionar
Estreante no Festival de Dança de Joinville, o bailarino Bruno Vinicius Amadeu Maria, de 26 anos, também trouxe a crítica ao palco representando a La Vie Danse, do Rio de Janeiro. No solo de sapateado “Travessia”, que conquistou o segundo lugar, ele abordou questões relacionadas à dança, ambiente do qual faz parte desde os 6 anos.
Bruno levou ao palco uma crítica a situações vividas no ambiente da dança – Foto: Maykon Lammerhirt/Divulgação“A coreografia nasceu de um cansaço meu de escutar algumas coisas no ramo da dança. Nesses 20 anos, escutei que era magro demais, que não era bonito o suficiente, diversos preconceitos”, fala.
Conversando com outros bailarinos, ele descobriu que a angústia era compartilhada e reuniu frases críticas que os colegas ouviram durante a trajetória e que serviram de cenário e narração para a apresentação. “‘Travessia’ é sobre atravessar esses obstáculos, o racismo, a homofobia, uma elite de branquitude. É mostrar que a dança é uma profissão”, destaca.
E se no palco Bruno dançava uma realidade que conhece de perto, na plateia parte do público se reconheceu de imediato. “Foi incrível. Quando vinham essas frases mais fortes eu ouvia as pessoas gritando e isso me dava força para continuar. Eu fui crescendo meu solo ali”, lembra.
Para ele, a dança é também um ato político. “É para abrir o olho e falar ‘somos resistência’, abrir um debate. A dança é sobre isso, sobre se posicionar”, complementa.
Para Bruno, dançar é também uma forma de se posicionar – Foto: Maykon Lammerhirt/DivulgaçãoProtesto cria conexão entre bailarino e público
Para Rui Moreira, bailarino, coreógrafo e consultor do festival, manifestações sobre questões relacionadas à vida em sociedade fazem parte da gênese da dança.
“Podemos dizer que não é algo novo, mas que se mantém na contemporaneidade. No momento em que vivemos uma espécie de globalização, esses brados são mais ecoados, se espalham”, destaca.
Ele ressalta, inclusive, que há muito tempo o Festival de Dança de Joinville serve de palco para essas manifestações. “Há de se recobrar o tempo em que as manifestações das danças de rua foram o ápice do festival: víamos a tomada do palcos e a concentração na cena de uma energia urbana ligada a diversas classes sociais, com relações de gênero, raça, todas aglutinadas em forma de protesto, e os grupos terminavam bradando alto de onde vinham. Essas relações são mais habituais e mais constantes do que a gente pode imaginar dentro do festival”, salienta.
Para ele, o evento está à frente do tempo na forma de abordar essas questões, o que se reflete em vários aspectos. “Na própria relação dos premiados a gente vê um ato político com a diversidade de gênero, de raça, de classe social, de idade. A gente pode falar que isso é um traço e não uma coincidência, é uma construção a partir da arte”, argumenta.
Ballet Paraisópolis levou homenagem às nove vítimas mortas durante intervenção policial em baile no festival de 2021 – Foto: Maykon Lammerhirt/DivulgaçãoNo palco, bailarinos e coreógrafos podem lançar mão de diversas estratégias criativas para transmitir a mensagem desejada. O tema pode ganhar espaço por meio da música, do figurino, de elementos cenográficos ou mesmo de uma narração.
“Não é simples a escolha do criador quando quer explicitar uma mensagem. A conversa da arte com o público não é um aspecto simples e é sim uma técnica que advém da criatividade do grupo. Se há uma mensagem e ela tem um cunho político, social, é preciso muita técnica para que seja entendida”, explica Rui.
Ele lembra, ainda, que a dança foi classificada como a segunda maior atividade artística no Brasil segundo pesquisa do IBGE em 2014. “A população enxerga e exercita a dança como algo essencial para ela. Consequentemente, é um lugar de exercício social e político muito intenso”, diz.
“A voz daquele que dança não consegue ficar calada e, consequentemente, se expressa por todos os canais possíveis. É genial tanto a liberdade de expressão desses artistas quanto o impacto com o público. O protesto é algo que cria um ponto de conexão entre público e espetáculo”, finaliza.
O Festival de Dança de Joinville segue até o dia 30 de julho. Todas as apresentações da edição de 2022, inclusive as de Ana Luiza e Bruno, podem ser vistas no canal do evento.