Transformação na agroindústria de Joinville mantém jovens no campo e aumenta renda

01/10/2021 às 06h30

Negócios familiares rompem barreira dos produtos 'in natura' e levam crescimento ao setor - agradando quem produz e quem consome

Juliane Guerreiro Joinville

Receba as principais notícias no WhatsApp

O dia sequer clareou quando o relógio de Dacir Vetterlein desperta, às 4h45. Antes mesmo de tomar café, o produtor rural segue para o engenho, a poucos passos da casa em que mora com a esposa e os dois filhos. Por lá, a tarefa é a mesma todos os dias: moer a cana e iniciar a produção de doces e melados que sustenta a família desde 1945, em Joinville, no Norte de Santa Catarina.

Família chegou à propriedade em 1878, mas a virada na produção veio em 1945 – Foto: Carlos Jr/NDFamília chegou à propriedade em 1878, mas a virada na produção veio em 1945 – Foto: Carlos Jr/ND

A história da família Vetterlein acompanha as mudanças da agricultura na cidade. Se hoje a renda vem de produtos com maior valor agregado, no passado era diferente. Aquilo que se plantava era o que se vendia, e os produtores perdiam a chance de diversificar e aumentar os ganhos.

Foi pensando nisso que, ainda no século passado, o avô de Dacir resolveu mudar os planos da família que está na propriedade desde 1878. “Ele tinha porcos, gado de leite e alguma coisa de legumes, mas queria ter uma renda todo mês, por causa das dificuldades. Antigamente, o valor da cana não era muito, então ele queria agregar valor ao produto e começou a produção de muss e melado”, conta. Para quem não conhece, muss é o doce feito com frutas a partir de uma base de melado.

A ideia deu tão certo que Dacir já é a terceira geração que desenvolve a atividade. O conhecimento foi repassado do avô para o pai dele, que continuava moendo cana até poucos dias antes de morrer, em janeiro deste ano, vítima da Covid-19.

“É uma responsabilidade tentar sempre manter a família na mesma propriedade. Tem altos e baixos, mas a gente não pode baixar a cabeça”, fala Dacir.

Dacir representa a quinta geração da família na propriedade – Foto: Carlos Jr/NDDacir representa a quinta geração da família na propriedade – Foto: Carlos Jr/ND

Atualmente, a família produz os melados comum e batido, doces de banana, goiaba e laranja, além do de carambola, fabricado apenas durante a época da colheita da fruta.

O processo é quase todo artesanal: começa com a moagem da cana, que depois é levada ao fogo. O melado fica pronto após cinco horas de fervura. Para o muss, por sua vez, as frutas são misturadas e mexidas atentamente para o doce não queimar, em um processo de sete horas. Por fim, os produtos são embalados em rótulos padronizados da agroindústria artesanal de Joinville.

Apesar de o processo ter sido passado de geração em geração, muita coisa mudou desde que o avô de Dacir resolveu transformar os rumos da propriedade. “Quando ele começou, não tinha energia elétrica, o engenho era todo a cavalo, não tinha motor. Hoje é todo mecanizado, tanto na moagem da cana como na produção do muss”, conta Dacir.

  • 1 de 4
    A cana usada na fabricação é toda produzida na propriedade - Carlos Jr/ND
    A cana usada na fabricação é toda produzida na propriedade - Carlos Jr/ND
  • 2 de 4
    Dacir acorda às 4h45 para moer a cana que será usada na produção de doces e melados - Carlos Jr/ND
    Dacir acorda às 4h45 para moer a cana que será usada na produção de doces e melados - Carlos Jr/ND
  • 3 de 4
    O caldo fica no fogo por várias horas para dar forma aos melados e aos doces - Carlos Jr/ND
    O caldo fica no fogo por várias horas para dar forma aos melados e aos doces - Carlos Jr/ND
  • 4 de 4
    Depois, todos os produtos ganham a embalagem padronizada dos agricultores artesanais de Joinville - Carlos Jr/ND
    Depois, todos os produtos ganham a embalagem padronizada dos agricultores artesanais de Joinville - Carlos Jr/ND

A cana usada na fabricação é toda produzida na propriedade: são cinco hectares de plantio e uma média de 1,2 mil kg do produto moídos todos os dias. O eucalipto utilizado como lenha para o fogo também vem do local, assim como a carambola. Já as outras frutas são compradas para garantir a produção durante o ano todo.

Diariamente, cerca de 120 kg de melado são produzidos. Já os doces são feitos duas vezes por semana, sendo que cada produção rende uma média de 240 kg do produto.

Na propriedade também cria-se gado de corte e vende-se eucaliptos. Porém, o carro-chefe ainda são os doces e melados, que proporcionam uma renda mensal de cinco salários mínimos à família.

Dacir acredita que ainda há espaço para expandir a produção – Foto: Carlos Jr/NDDacir acredita que ainda há espaço para expandir a produção – Foto: Carlos Jr/ND

Todos os produtos são comercializados dentro do município para 42 comércios, entre panificadoras, verdureiras, mercados e lojas de produtos naturais. “Muitos fregueses elogiam e a gente se empenha para melhorar cada vez mais. Ainda tem mercado para expandir”, garante Dacir.

Na produção ainda trabalham a esposa dele, Arlete, o filho mais velho, Nicolas, e uma das irmãs. E o gosto do filho Felipe, de 11 anos, indica que a produção deve continuar por mais uma geração – pelo menos. “Ele é muito interessado”, conta o pai, animado em manter a tradição da família.

Associação trouxe profissionalização e visibilidade aos produtores rurais

Para agricultores como Dacir Vetterlein, a criação da Ajaar (Associação Joinvillense de Agroindústrias Artesanais Rurais) foi determinante para o processo de profissionalização do negócio. “Para nós mudou tudo: antigamente se vendia tudo em balde e o comerciante envazava. Hoje, tudo sai pronto, a venda triplicou, tudo ficou mais fácil”, destaca.

A associação traz vantagens, como a assistência técnica e os rótulos padronizados que, hoje, mais de 20 anos após a criação da entidade, já são reconhecidos e procurados no comércio. Além disso, os produtores não precisam abrir uma empresa individualmente, o que facilita a regularização.

Segundo Luciano Bahr, presidente da Ajaar, são 55 famílias associadas atualmente. Famílias porque, além do marido ou da esposa, o cônjuge e um dos filhos também são vinculados à associação, a fim de garantir a sucessão familiar rural.

Produção dos associados da Ajaar ganhou versatilidade – Foto: Carlos Jr/NDProdução dos associados da Ajaar ganhou versatilidade – Foto: Carlos Jr/ND

“A associação ajuda a manter a pessoa legalizada no campo e também com a visibilidade que tem. Há muitos casos em que os filhos chegaram a sair para trabalhar na cidade e voltaram para a área rural. Tem produção o ano todo, até temáticas, como na Páscoa e no Natal”, ressalta.

Ele conta que, antigamente, a produção era mais restrita a aipim, melado e geleias, mas está muito mais diversificada com a entrada de associados que produzem cucas, pães, biscoitos, laticínios e até mesmo produtos sem glúten.

Na avaliação dele, o setor cresce a passos lentos, mas vem experimentando uma expansão. Nesse sentido, também ajuda na percepção do consumidor, que tem buscado produtos mais naturais, sem conservantes, uso de defensivos ou feitos para pessoas com restrições alimentares.

Entre os carros-chefes da associação está a feira rural, que abre todos os fins de semana na Casa Krueger, tradicional ponto turístico de Joinville. Com a pandemia, muitos joinvilenses têm preferido passar mais tempo dentro da cidade e em passeios no meio rural, passando pela feira – atrativo que une os consumidores a um setor cada vez mais competitivo.

Agroindústria promove renda e mantém os mais jovens no campo

A família Vetterlein não é a única colhendo bons resultados no campo. A união entre agricultores cada vez mais preocupados em agregar valor à atividade e uma assistência técnica eficiente tem feito com que as agroindústrias joinvilenses ganhem mais espaço no mercado.

Henrique Tirolli Rett, engenheiro de alimentos da Epagri, conta que há cerca de 1.800 famílias produtoras no meio rural em Joinville, com destaque na piscicultura, além do plantio e venda de arroz, aipim e banana. Contudo, nos últimos anos, os agricultores têm voltado o olhar para outros cultivos, ou mesmo para uma forma de aperfeiçoar o que já produzem.

“O que a gente percebe é que o consumidor vem procurando produtos menos processados e de venda direta da propriedade, nas chamadas cadeias curtas. Ou seja, o produtor encurta a distância entre a produção e a transformação da matéria prima e o mercado consumidor”, explica.

Família Vetterlein se mantém na propriedade desde 1878 – Vídeo: Carlos Jr/ND

Para essa expansão no mercado, o acompanhamento da Epagri e da UDR (Unidade de Desenvolvimento Rural) da prefeitura é um aliado. “O produtor recebe assistência técnica, cursos e capacitações, e começa a entender qual a melhor maneira de cultivar e processar esse produto até chegar ao consumidor em segurança”, fala Henrique.

Segundo ele, isso envolve tanto o treinamento dos filhos dos agricultores quanto a reciclagem de conhecimento dos produtores que já atuam na área. “O novo agricultor é aquele que, além de observar o mercado, observa a capacitação e tem muito acesso à informação”, destaca.

A extensionista rural da UDR, Marisa Fock, acompanhou de perto essa reviravolta no meio rural. “Há alguns anos, plantava-se a cana e vendia-se a cana, plantava-se o aipim e vendia-se tudo in natura. Hoje não: esses produtos são processados, a cana vira muss e melado, o aipim é descascado e congelado. Então abriu um leque muito grande de comercialização”, ressalta.

Henrique e Marisa acompanham a expansão das agroindústrias em Joinville – Foto: Carlos Jr/NDHenrique e Marisa acompanham a expansão das agroindústrias em Joinville – Foto: Carlos Jr/ND

Marisa conta que esse processo começou na década de 1990, a partir de um programa desenvolvido para tratar da produção artesanal rural e que culminou na criação da Ajaar (Associação Joinvillense de Agroindústrias Artesanais Rurais).

“Hoje, a associação atua junto com a Vigilância Sanitária para garantir segurança alimentar, tudo dentro da lei e bem formatado para que ninguém tenha problema, nem quem produz nem que consome”, fala a extensionista.

Com uma estrutura mais atrativa no campo, o resultado foi a volta de muitos jovens às propriedades. “Na década de 1970, quando começaram a instalar as grandes indústrias, os filhos dos produtores foram trabalhar nessas empresas e tinham salário, plano de saúde, 13º salário, coisa que na área rural não tem. Hoje, a gente vê os filhos dessas pessoas voltando”, comemora.

E o melhor é que, com a expansão, é possível produzir tanto quanto antes, mesmo em propriedades menores. “Com menor tamanho de terra, eles conseguem agregar um valor maior. É uma agricultura familiar que deu certo, é modelo em Santa Catarina”, avalia Marisa.

Experiência da cidade para o campo

Um exemplo de família que valorizou a produção com a volta da filha à propriedade está na Estrada Quiriri, também na área rural de Joinville. Após décadas trabalhando em empresas, Sandra Beninca Nascimento retornou ao campo e promoveu uma “revolução” no negócio.

“Os meus pais já faziam o palmito pupunha picadinho congelado e eu fui pesquisar para saber quais outras formas de palmito poderiam ser vendidas. Descobri que 50% do consumo em São Paulo, por exemplo, já é in natura, por ser um produto mais saudável, que não tem conservantes nem sódio, e não tinha produção em larga escala aqui na região”, conta.

Sandra “revolucionou” a propriedade com novas formas de vender o produto – Foto: Carlos Jr/NDSandra “revolucionou” a propriedade com novas formas de vender o produto – Foto: Carlos Jr/ND

Hoje, a empresa da família produz palmitos in natura em diversas formas, entre elas, as lâminas para lasanha e o espaguete, que fazem sucesso no mercado. “As pessoas com intolerância ao glúten têm essa possibilidade de substituir a massa com farinha. É um produto que tem o seu consumidor específico, mas cada vez mais gente descobre e estamos satisfeitos”, destaca Sandra.

Até chegar a esse resultado, no entanto, a produção passou por vários ensaios. “Como não tinha uma fórmula, foi por meio dos erros que vieram os acertos”, conta a empresária. Atualmente, 30 clientes compram os produtos, entre eles restaurantes e padarias, além do Exército e da prefeitura, que usa o palmito na merenda escolar.

Cerca de 2,5 toneladas de palmito processado são produzidas por mês na propriedade. Os resíduos não utilizados vão para o gado e também voltam para a roça, onde servem de adubo. O faturamento, segundo Sandra, é relativo. “Lucros absurdos a gente não tem, mas garanto que conseguimos pagar todas as contas”, fala. Além de Sandra, do genro e dos pais dela, há outros dois funcionários fixos.

  • 1 de 5
    Quase todo o palmito processado é plantado e colhido na propriedade - Carlos Jr/ND
    Quase todo o palmito processado é plantado e colhido na propriedade - Carlos Jr/ND
  • 2 de 5
    Antônio é um dos funcionários fixos e trabalha na propriedade desde antes da nova fase - Carlos Jr/ND
    Antônio é um dos funcionários fixos e trabalha na propriedade desde antes da nova fase - Carlos Jr/ND
  • 3 de 5
    Depois de descascado, o palmito é cortado, como nessa foto, pelas mães de Renate, mãe de Sandra - Carlos Jr/ND
    Depois de descascado, o palmito é cortado, como nessa foto, pelas mães de Renate, mãe de Sandra - Carlos Jr/ND
  • 4 de 5
    Após o corte, o produto é processo de acordo com sua forma final: neste caso, seria vendido picadinho - Carlos Jr/ND
    Após o corte, o produto é processo de acordo com sua forma final: neste caso, seria vendido picadinho - Carlos Jr/ND
  • 5 de 5
    Toda a produção é feita na propriedade, inclusive o processo de embalagem e rotulagem - Carlos Jr/ND
    Toda a produção é feita na propriedade, inclusive o processo de embalagem e rotulagem - Carlos Jr/ND

Para ela, sair da propriedade na adolescência foi um movimento natural. “Tem a percepção de que sítio não dá certo, de que é muito sofrido e não tem oportunidade. Na verdade, você cresce ouvindo isso”, destaca.

Foi a partir dos estudos e da visão de administradora obtidos em outras experiências que ela descobriu o novo nicho de mercado. E pôde voltar ao campo com um produto de maior valor agregado.

“Conforme fui estudando, comecei a enxergar com outros olhos. Se eu não tivesse passado por essas experiências, não teria conseguido fazer isso aqui”, comenta, salientando o apoio da Epagri. “É uma coisa que funciona: quando falei que queria saber como funcionava, na primeira oportunidade eles vieram”, complementa.

Para o futuro, a família quer criar outras linhas de produtos. “Talvez uma linha de espaguete e de lasanha já pronta, porque muitas pessoas não conseguem preparar a comida na correria do dia a dia”, planeja. Espaço para crescer em um mercado cada vez mais competitivo e de consumidores engajados não vai faltar.

Tópicos relacionados