Eles acordam cedo. São os primeiros a chegarem e os últimos a saírem da praia. Não gostam dos dias de chuva, da maré muito alta e dos ilegais. Nos dias de sol, trabalham com sorriso largo. Não dá para chamar o trabalho e a rotina deles de fácil. Mas também não é o pior dos mundos, afinal, os ambulantes estão ali, na areia da praia, interagindo com clientes animados, curtindo férias, sol e mar.
Além de alimentos, há venda de roupas, acessórios e de equipamentos esportivos na Praia do Campeche – Foto: Leo Munhoz/NDPara organizar o verão em Florianópolis, a prefeitura credenciou mais de 1.000 ambulantes, distribuídos nas mais de 40 de praias da cidade. O catarinense de Luiz Alves, Adenildo Reuter, 55 anos, a paranaense de Umuarama, Sirlene Costa, 42, e o manezinho Gustavo Faustino, 32, escolheram o Campeche, no Sul da Ilha.
É onde caminham todo dia, com sol na testa, sem reclamar. É a temporada, o período em que garantem o ano. Por isso, os ambulantes adoram o movimento: arranham algo no portunhol e exercitam a panturrilha.
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Adenildo está há quase uma década como ambulante na praia. E não está sozinho na missão. Trabalha com a mulher, a nora e o filho. “Está ótima [a praia]. O público é maravilhoso, o tempo oscilou um pouco, mas estamos muito felizes trabalhando aqui, sempre no Campeche, onde moramos”, explica o comerciante.
Aqui só tem gente sorridente, curtindo o verão. É prazeroso trabalhar com o público de férias.” — Adenildo Reuter, vendedor ambulante há quase dez anos no Campeche – Foto: Leo Munhoz/NDAdenildo e a família trabalham num carrinho de choripan, segundo ele, um produto bem conhecido dos gringos. “Nosso público brasileiro está descobrindo, mas quando você tem contato com produto de qualidade, você vai comer novamente. Do contrário, desencanta”, ressalta.
Para garantir o dia, o ambulante acorda cedo. Às 6h está de pé, vai à padaria comprar o pão fresquinho, prepara tudo que precisa. Por volta das 10h, chega na praia. “Sempre com produtos de qualidade, porque, a gente se coloca no lugar do cliente”, afirma Adenildo.
A temporada, para ele, é a melhor época do ano para o trabalho. Assim que o verão acaba, ele também trabalha como vendedor, visitando mercados, e o perfil de cliente muda drasticamente.
“Aqui só tem gente sorridente, curtindo as férias, o verão, por isso, é gostoso. Nos mercados, pessoas estressadas”, compara. “Aqui também é desgastante. Calor, maré, vento, mas é gratificante. É prazeroso trabalhar com o público de férias”, completa o ambulante.
Milho e caldo de cana para alimentar os banhistas
Sirlene Costa mora em Santa Catarina há sete anos e, desde então, trabalha na praia do Campeche. “Escolhi aqui porque é um pessoal acolhedor, mais tranquilo. O bairro também é mais sossegado”, avalia a vendedora.
Em dias bons, Sirlene vende de 100 a 150 espigas de milho – Foto: Leo Munhoz/NDAlém do carrinho de milho verde na praia, ela tem um ponto de caldo de cana na rua, porém, prefere caminhar. “Prefiro trabalhar na areia. Tem as amizades, o pessoal é unido. Um ajuda o outro quando precisa. É só conversar e ir resolvendo”, garante.
Segundo ela, o movimento foi muito bom no fim de semana. Em dias assim, chega a vender de 100 a 150 espigas. Ainda não é o melhor dos verões e a unanimidade entre os ambulantes é que a chuva vem atrapalhando, mas Sirlene tem fé de que vai melhorar. Se for como no último domingo, perfeito.
“Hoje, a praia está boa pra andar. A areia está firme. Quando a maré está alta tem que andar devagar para não se machucar”, ensina ela. “Só é ruim mesmo quando a maré está alta e tem muito vento, porque aí, o carrinho pesa mais”, frisa a vendedora.
De guarda-vidas a vendedor de choripan e espetinho
O manezinho Gustavo Faustino foi criado na praia e lembra de trabalhar com algo relacionado ao mar desde os 10 ou 11 anos. Nos últimos cinco, passou as temporadas vendendo espetinho e choripan. “Minha família já teve quiosque nos Ingleses e eu sempre estive envolvido com algo na praia. Já fui guarda-vidas, já vendi bebida, trabalhei com barco quando a família tinha marina”, conta.
Gustavo diz que trabalhar na praia “é sua vida” – Foto: Leo Munhoz/ND“Sempre trabalhei na praia. É minha vida. Todo ano estou aqui. Florianópolis é um lugar que recebe turistas do mundo todo: americano, australiano, inglês, francês, espanhol, argentino e eu até arranho um espanhol”, brinca Gustavo, abrindo o sorriso. Morador do Campeche, que ele chama de caribe brasileiro, trabalha perto de casa tirando entre R$ 1.500 e R$ 2.500 nos melhores dias.
“Mas não é sempre. Essa semana choveu quase todo dia. E também nos fins de semana bomba mais”, ressalta.Para Gustavo, o trabalho na praia não tem muito perrengue. Chegar cedo é um dos desafios e entregar o melhor produto, manter tudo limpo dá trabalho. Quanto ao peso do carrinho, segundo ele, é rápido para se adaptar.
“Um, dois anos acostuma e já tá com força na perna e encontra os atalhos”, argumenta. Na percepção dele, esse verão está um pouco pior em relação ao anterior, por causa do tempo. “Este é um fator chave pra gente e não tá ajudando este ano, por enquanto”, ressalta o vendedor ambulante.
Prefeitura intensifica fiscalização de ilegais
No meio dos ambulantes legalizados e credenciados, estão os ilegais, que não passaram pelo longo processo de cadastro do município e exercem uma concorrência desleal. O poder público fiscaliza, mas não dá conta. Ainda assim, há quem se arrisque na ilegalidade.
Procurada, a Prefeitura de Florianópolis, por meio da Secretaria de Segurança e Ordem Pública, informou que tem intensificado as operações de fiscalização durante a temporada. A administração municipal fiscalizou diversas praias e seguirá realizando.
Ao ver irregularidades, a população pode denunciar por meio do Zapdenúncia, da prefeitura, no WhatsApp 0800 808 0155. As denúncias também podem ser feitas no Fiscaliza Verão, do Grupo ND, pelo (48) 98404-2055.