No dia 17 de março de 2020 empresários catarinenses foram pegos de surpresa com o decreto do governo do Estado que proibiu o funcionamento dos serviços considerados não essenciais por sete dias, inicialmente. Depois de deixar em colapso os melhores sistemas de saúde mundo, a Covid-19 começava a se espalhar por Santa Catarina.
Em paralelo à crise sanitária, o medo da quebra dos sistemas econômicos também se espalhou tão rápido quanto o novo vírus. Apesar disso, Blumenau conseguir atravessar o período, não sem percalços. É sobre este capítulo que falamos nesta quinta-feira (18) na série Blumenau: um ano de pandemia.
Atividades não essenciais tiveram que fechar as portas – Foto: Anderson Coelho/NDComo consequência da suspensão das atividades, o Estado encontrou-se em meio a duas crises: uma sanitária e outra econômica. Em Blumenau, a maior cidade Vale do Itajaí, não foi diferente. O clima, que no início de 2020 era de otimismo, transformou-se em preocupação e incerteza.
Seguir“Nós tivemos no primeiro momento um desespero, uma falta de comunicação e planejamento. Decisões tomadas sem um diálogo aberto com a sociedade acabaram gerando um ‘fecha e abre’ de empresas”, relembra e critica o presidente da Acib (Associação Empresarial de Blumenau), Avelino Lombardi.
E o que fazer em meio a este cenário? A resposta é reinventar-se.
Não bastasse uma, o empresário Juliano Chiminelli precisou reinventar-se duas vezes. Junto ao sócio, durante os primeiros meses de pandemia, o vendedor de máquinas viu na fabricação de máscaras uma oportunidade para superar a crise. No entanto, algum tempo depois o preço das máscaras e a oferta no mercado fez o modelo de negócio ficar insustentável.
“Para a gente tentar salvar a empresa tivemos que replanejar o negócio em cima de um novo produto. Então, um belo dia, sentamos na empresa vazia, olhamos um planejamento estratégico que tínhamos feito no fim de 2019 e apontamos um produto como sendo interessante para fazer a virada de chave da empresa. A partir do momento que lançamos esse produto no e-commerce, a coisa começou a acontecer”, conta Chiminelli.
O produto lançado foi o “cake board”, uma espécie de prato para bolos. A empresa ganhou notoriedade e hoje é referência no mercado.
“A gente precisa estar muito aberto a mudanças e saber que o que fazemos hoje não necessariamente será o que vamos fazer amanhã. E quanto mais rápido a gente conseguir se adaptar as adversidades, melhor”, analisa o empresário.
Histórias como a de Chiminelli foram essenciais para que o impacto da pandemia na economia catarinense fosse amenizado.
De acordo com o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Moris Kohl, muitas empresas tiveram demissões, mas os próprios colaboradores começaram a prestar serviços por meio do próprio negócio.
“Muitos sonhos foram antecipados pela pandemia, mesmo que por necessidade.” (Moris Kohl, secretário de Desenvolvimento Econômico de Blumenau)
Novos caminhos = mais empresas abertas
Em 2020, Blumenau teve um saldo de 3.855 novas empresas abertas. O número é 2,3% maior do que na comparação com 2019. O saldo é a diferença entre o número de empresas abertas e o número de empresas fechadas segundo o Siatu (Sistema de Administração Tributária e Urbana).
O número de novos MEIs (Microempreendedores Individuais) também registrou leve alta. No ano passado foram abertos 2.681 MEIs, o que representa um aumento de 3,4% na comparação com 2019.
A arrecadação do município também cresceu. O aumento foi de 5,9% em 2020. Blumenau arrecadou R$ 1,73 bilhão com tributos. Entre os impostos, o ISS teve alta de 6,6% em 2020, na comparação com 2019. Já o ICMS teve queda de 4%. A informação é da Secretaria da Fazenda.
Mais ação poderia ter reduzido impacto
Apesar do resultado razoável, na análise do economista e professor da Furb (Universidade Regional de Blumenau), Jamis Antônio Piazza, o impacto poderia ser ainda menor se o Brasil tivesse aprendido com o erro de outros países.
“O governo (federal) tem que abraçar a causa. De que forma? Se nós tivermos que parar por uma semana ou duas, o governo tem que verificar as pessoas que foram atingidas e dar subsídios, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas”, explica o economista.
Piazza também faz um alerta diante do aumento no número de casos do coronavírus. “Nós não podemos continuar nesta instabilidade, pois caso contrário, não temos soluções para esses problemas, tanto a curto quanto longo prazo”, conta.
Um ano após o fechamento que pegou todos de surpresa, Santa Catarina ultrapassa a triste marca de 9 mil óbitos por Covid-19. O estado vive o pior cenário dos últimos 12 meses. Com hospitais ainda mais lotados, o medo de um novo fechamento dos serviços não essenciais tira o sono de empresários, comerciantes e colaboradores.
Uma reunião do Coes (Centro de Operações de Emergência em Saúde) nesta quarta-feira (17) definiu que não haverá lockdown no Estado, porém, outras restrições ainda são avaliadas e precisam passar por deliberação do governador Carlos Moisés.
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