Aumento do salário mínimo X custo de vida em Florianópolis: será que é suficiente?

Moradora da cidade e economista discutem manobras feitas para sobrevivência na segunda capital da cesta básica mais cara do país

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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Em 2023, o salário mínimo passou de R$ 1.212 para R$ 1.302, o aumento de R$ 90 veio de uma medida provisória assinada pelo então presidente, Jair Bolsonaro (PL), em dezembro de 2022. No entanto, nesta quarta-feira (18), o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, saiu do Palácio do Planalto afirmando que o valor deve continuar o mesmo pelo menos até maio, quando poderá receber o incremento, mas depende das discussões sobre o assunto.

Sendo em janeiro ou maio, há quem precise praticar “malabarismos” para se manter com o valor na cidade com a segunda cesta básica mais cara do país, Florianópolis.

Esse é o caso, por exemplo, de Caroline Marins Messias, de 34 anos. Ela é  designer e estilista autônoma e moradora da cidade. Sua renda gira em torno de R$ 1.500 a R$ 2 mil por mês. Mesmo o valor sendo um pouco mais alto que o do salário mínimo, Messias ainda precisa realizar trabalhos extras para se manter.

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ND+ discute possibilidades para viver com apenas um salário mínimo em Florianópolis – Foto: Leonardo Sousa/Divulgação/NDND+ discute possibilidades para viver com apenas um salário mínimo em Florianópolis – Foto: Leonardo Sousa/Divulgação/ND

“As coisas aqui na ilha são bem caras, então aluguel + mercado + transporte fica bem pesado pra se sustentar com esse valor. Eu estou sempre pegando bicos e freelance pra fazer pra complementar minha renda, senão acaba faltando”, conta.

Para se manter na alta temporada, onde os preços costumam ser ainda mais caros na cidade, Messias faz faxinas. Ela indica que a iniciativa ajuda, principalmente nos meses de dezembro e janeiro.

De acordo com a economista Janine Alves, viver em Florianópolis exige mesmo malabarismo e muita pesquisa de preços até para quem ganha mais do que um salário mínimo. A profissional explica que a variação de preços de um estabelecimento comercial para outro pode variar mais de 300%.

Custo de vida

Para fazer uma conta rápida, o salário mínimo subirá para R$ 1.302. Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o preço da cesta básica na cidade é de R$ 769,19. A pesquisa é a mais recente feita pelo departamento e é uma das primeiras retiradas que precisam ser feitas do valor total do salário.

Cesta básica em Florianópolis é R$ 769,19 – Foto: Edu Garcia/R7/Divulgação/NDCesta básica em Florianópolis é R$ 769,19 – Foto: Edu Garcia/R7/Divulgação/ND

Já o aluguel em Florianópolis, gira em torno de R$ 38,81 por m². Ou seja, um apartamento de 40 metros pode custar R$ 1.552. Os dados são do o índice FipeZAP+ de locação residencial.

Os valores não incluem o preço do transporte público da cidade, que recentemente aumentou. Para quem utiliza o transporte convencional no cartão, o reajuste será menor: de R$ 4,38 para R$ 4,98. Já no dinheiro, a tarifa de R$ 4,50 passará para R$ 6.

Cultura e lazer também não entram na conta.

“O salário mínimo de R$ 1.302 ainda tem um valor muito abaixo das necessidades de quem vive na Capital ou em qualquer outro lugar do país”, explica a economista ao olhar para os valores.

O Dieese divulgou ainda outra pesquisa, explicada pela profissional. De acordo com ela, o salário mínimo ideal em dezembro de 2022 seria de R$ 6.298, e a diferença entre valor real do salário mínimo e o salario mínimo ideal dá a dimensão das dificuldades para a sobrevivência também em outras faixas de renda.

“Somando a isso, os constantes aumentos de preços e a diferença entre os preços dos produtos que compõem a cesta básica de um estabelecimento para outro dificultam ainda mais o controle do orçamento doméstico”, conta.

E continua:

“Se considerar ainda os gastos com aluguel, transporte e para comprar o gás de cozinha vai sobrar pouco dinheiro para a alimentação. Não por acaso parte da população vive um processo de insegurança alimentar – aquela situação em que a pessoa não tem acesso regular e permanente a alimentos em quantidade e qualidade para sua sobrevivência”, finaliza.

A opinião também é compartilhada por Caroline Messias. Segundo ela, mesmo recebendo um valor um pouco acima do salário mínimo ainda é difícil dar conta de todas as contas, transporte, lazer  e o custo de vida em Florianópolis.

E então, como fazer?

A opinião do economista Álvaro da Luz é a mesma. “Viver em Florianópolis com apenas um salário mínimo é muito difícil”.

Segundo o profissional há duas dicas principais para conseguir viver na cidade com um salário mínimo. A primeira é buscar uma moradia nas cidades do entorno da Ilha, mas sem estar tão longe do trabalho. A justificativa, é o tempo e o preço do deslocamento para chegar ao local.

Profissional alerta para não ser escolhidas opções de moradia muito longe do trabalho – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Divulgação/NDProfissional alerta para não ser escolhidas opções de moradia muito longe do trabalho – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Divulgação/ND

“Não é possível. As pessoas que ganham esse valor acabam vivendo nos entornos. Há pessoas que têm emprego em Florianópolis e moram em São José, Palhoça e cidades que rodeiam. Isso faz com que o transporte e alimentação na rua também pesem”.

Outra dica é trazer sua própria comida de casa, pois o custo de vida é muito alto na cidade.

“Não dá para morar em uma área central e comer fora. É impossível”, finaliza.

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