Comércio do bairro Carianos se reinventa um ano após o fechamento do aeroporto

Moradores e comerciantes sugerem uso do prédio por uma faculdade ou um polo comercial

Paulo Rolemberg Florianópolis

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Era início de setembro, quando um dos mais movimentados restaurantes do bairro Carianos, no Sul da Ilha, o Verde Gaio, avisava aos seus clientes que acabava ali um empreendimento que funcionava há mais de 24 anos na região. O anúncio do fechamento em um cartaz era o prenúncio que ocorreria no comércio local com a desativação do prédio do antigo aeroporto Hercilio Luz.

Restaurante Verde Gaio foi um dos estabelecimento da região afetados pelo fechamento do aeroporto – Foto: Anderson Coelho/NDRestaurante Verde Gaio foi um dos estabelecimento da região afetados pelo fechamento do aeroporto – Foto: Anderson Coelho/ND

Dezenas de estabelecimentos que se sustentavam, diretamente, com a movimentação do aeroporto como estacionamentos, lanchonetes e restaurantes fecharam às portas no bairro. Um ano depois da mudança, o comércio local tenta se reinventar e aposta na clientela local.

A avenida Deputado Diomício Freitas, principal via que corta o bairro, que concentra a maioria do comércio e serviços do Carianos, a movimentação de veículos não é mais intensa como na época do funcionamento do antigo aeroporto. É nela que está a padaria e pizzaria de propriedade de Gabriel Bittencourt Renier.

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Gabriel conta que perdeu cerca de 30% a 40% do movimento da padaria com a saída do aeroporto. Seus principais clientes eram os motoristas de aplicativos que aguardavam os chamados na região do comércio. “Antes de o aeroporto mudar, tínhamos grande movimento em relação à lanchonete. Os ubers passavam a manhã toda aqui, agora não temos
mais esse cliente. São poucos que ainda vem”, lembrou o empresário.

Ele é um exemplo da tentativa do comércio do bairro em se reinventar. Com a previsão do fechamento do aeroporto para outubro do ano passado, Gabriel se antecipou e abriu uma pizzaria no mesmo prédio, oito meses antes da desativação do terminal. “A gente já esperava que ia perder esse movimento. Foi quando resolvi criar uma pizzaria para tentar repor os
clientes”, comentou Gabriel, que tem como maior clientela, os moradores do bairro e funcionários de locadoras que ainda funcionam por lá.

Para tentar manter o comércio em atividade, os estabelecimentos resolveram estender os horários de funcionamento visando atender os moradores do bairro. O Carianos é conhecido como um bairro “dormitório”. “Creio que aos poucos vai mudando com o novo jeito do
bairro”, avaliou Gabriel.

Dona de um açougue na região, Andreia Victovsoski disse que o estabelecimento não foi muito afetado – Foto: Anderson Coelho/NDDona de um açougue na região, Andreia Victovsoski disse que o estabelecimento não foi muito afetado – Foto: Anderson Coelho/ND

A vizinha de Gabriel, a empresária Andreia Victovsoski, proprietária de um açougue, disse que o estabelecimento não foi muito afetado pela saída do aeroporto, já que maior parte dos clientes é do bairro. “Claro que há uma queda, mas não foi muita. Tínhamos clientes que iam ao aeroporto e paravam aqui, já que fazia parte do trajeto. Hoje não temos mais isso”, contou.

Segundo o proprietário de uma das barbearias do bairro, Renato Telles, a clientela caiu aproximadamente 30%. Ele atribui a queda ao fechamento do aeroporto e a transferência de maior parte da estrutura da Base Aérea de Florianópolis para a cidade de Canoas (RS) também afetou o comércio do Carianos.

Telles decidiu mudar de ponto comercial. Saiu de uma área mais próxima ao antigo aeroporto e foi para um prédio localizado na principal praça do bairro, inaugurada em 13 de março do ano passado após passar por uma revitalização. O local se tornou um “centrinho” do Carianos. “Quem é visto é lembrado. Consegui recuperar 10% da perda vindo para este local”, garantiu.

Dificuldades para comerciantes e moradores

O fechamento do aeroporto foi um baque para o comércio do bairro Carianos, que ainda ganhou mais um agravante no fluxo de clientes. A Base Aérea reduziu, drasticamente, os acessos à área de segurança, utilizada por centenas de motoristas com a finalidade de chegar ao bairro Tapera. Antes do acesso ao novo terminal do aeroporto, passavam pela área de segurança, cerca de 2.350 pessoas.

Com fechamento do antigo aeroporto, movimento na principal avenida do bairro também caiu – Foto: Anderson Coelho/NDCom fechamento do antigo aeroporto, movimento na principal avenida do bairro também caiu – Foto: Anderson Coelho/ND

Além disso, também circulavam diariamente pela estrada 323 ônibus do transporte coletivo e forças de segurança, como veículos da Polícia Militar, Bombeiros e Polícia Civil.

Outro problema que também afetou o bairro foi o fechamento da única agência bancária que funcionava no antigo terminal. O estabelecimento bancário mais próximo fica a pouco mais de seis quilômetros, no bairro Campeche. Cerca de um ano depois, o Carianos ganhou um caixa eletrônico localizado dentro da conveniência de um posto de combustíveis, funcionando das 07h às 22h.

O transporte coletivo no bairro foi outro ponto atingido com a transferência do aeroporto. Com pouco fluxo de passageiros, as linhas foram reduzidas. E agora pioraram, com as alterações em virtude da pandemia do coronavírus.

“Diminuíram a quantidade de ônibus. Dependemos muito agora do ônibus que vem da Tapera, mas como já passa lotado, nem para. Dependemos de ter um Tapera vazio ou ir até o ponto mais próximo da praça”, contou Luciana Batalha, que mora na área próxima ao antigo aeroporto.

Sugestões para o antigo terminal

Os comerciantes e moradores dizem acreditar que a solução para o antigo terminal seria o aluguel do prédio para uma faculdade ou transformar em um espaço de comércio como o camelódromo no centro de Florianópolis. O prédio, apesar de um ano sem funcionamento, apresenta um aspecto de conservação. O estacionamento tem sido usado por locadoras de veículos que ainda permanecem na localidade.

Audiência pública deverá discutir e ouvir sugestões dos moradores para o destino do antigo terminal – Foto: Anderson Coelho/NDAudiência pública deverá discutir e ouvir sugestões dos moradores para o destino do antigo terminal – Foto: Anderson Coelho/ND

“Seria bom uma faculdade ou um polo industrial que trouxesse movimentação para o bairro”, sugeriu o empresário Gabriel Renier. Opinião compartilhada por Renato Telles. “Uma espécie de comércio como o camelódromo no centro de Florianópolis. Alguma coisa que pudesse chamar o comércio para o bairro”, opinou.

Uma audiência pública marcada pela Câmara de Vereadores deverá discutir e ouvir sugestões dos moradores para o destino do antigo terminal.

Em nota, a Floripa Airport, responsável pela manutenção do antigo terminal, informou que com o início de uma rota cargueira regular entre Miami e Florianópolis, projeta o uso do antigo terminal de passageiros como parte do desenvolvimento de um polo logístico na região, onde já funciona o Terminal Internacional de Cargas do aeroporto. A locação do terminal para empresas do setor é uma possibilidade, que também depende da movimentação deste mercado.

“Como parte do DNA do Grupo Zurich Airport, nossa premissa de administração de aeroportos tem como princípio deixar um legado de desenvolvimento e boas práticas para os locais onde estamos inseridos. Desta forma, analisamos todo o complexo aeroportuário de Florianópolis
para dar o melhor destino a todos os ativos”, apontou a nota.

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