O segmento de comércio e serviços no entorno da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em Florianópolis, segue de portas abertas, mas à beira do colapso. Muitos demitiram funcionários e apelaram para linhas de crédito do governo para se manter em funcionamento.
Para o caixa Aislom Corrêa, o que segura o movimento é a padaria – Foto: Anderson Coelho/NDContudo, sem aulas presenciais na universidade e com a nova suspensão do transporte coletivo municipal e intermunicipal pelo governo do Estado de Santa Catarina, a clientela praticamente sumiu e as vendas despencaram entre 50% e 80%.
A reportagem do nd+ circulou pelos bairros Pantanal e Trindade nesta terça-feira (28) e colheu relatos de alguns empreendedores locais.
SeguirQueda brusca no movimento
Em um dos comércios do bairro Pantanal, que agrega restaurante, padaria e mercearia, o movimento caiu cerca de 70% desde o começo da quarentena, em março. Além disso, dos 17 funcionários, apenas nove permanecem trabalhando. O que ajuda a manter o negócio em funcionamento é a padaria, que atrai a clientela durante o expediente.
De acordo com o caixa Aislom Corrêa, de 37 anos, o número de almoços servidos diariamente caiu de 200 para 60 refeições e o delivery pouco ajuda. “Reduzimos a quantidade de mesas pela metade e as entregas que giravam em torno de 40 pedidos caíram para seis refeições por dia”, afirma.
Outro segmento que amarga prejuízos é o de fotocópias. Conforme o funcionário Rafael dos Santos Gemelle, 34, o Centro de Impressão onde trabalha tem sete unidades, com seis funcionando dentro do campus da UFSC. “Todas fecharam, só essa aqui ficou aberta, mas o movimento caiu 80%. Nós dependemos dos universitários para sobreviver”, diz.
A simbiose com a universidade é tamanha que, sem uma reinvenção dos negócios, empreendedores ficam à mercê de quem se aventura a circular pelas ruas, em saídas inevitáveis durante a quarentena. Com isso, a rotina da copiadora acabou se resumindo a receber pedidos por e-mail ou whatsapp, que são entregues no balcão para retirada. “Mas leva uns três meses para vir um trabalho grande”, conta o funcionário.
Rafael dos Santos Gemelle: copiadora perdeu 80% do movimento – Foto: Anderson Coelho/NDClientela sumiu
A situação também é preocupante para Paulo Sérgio da Silva, proprietário de uma barbearia, na rua principal do bairro. “Está muito difícil, 80% da clientela desapareceu com a suspensão das aulas na universidade. Nosso preço é bem popular e mesmo assim só atendo de três a quatro pessoas por dia”, lamenta.
Paulo é mais um dos empreendedores que engrossam a fila que sai de mãos vazias dos bancos, após tentar empréstimo pelo Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte). O programa foi instituído em maio deste ano pelo governo federal para ajudar micro e pequenas empresas. “Não consegui nada, é muita burocracia para o pequeno comerciante”, afirma.
O barbeiro Paulo Sérgio da Silva, 34, recorre a reservas pessoais para manter o negócio – Foto: Anderson Coelho/NDLogo no começo da pandemia, ele manteve a barbearia fechada por 21 dias. Agora, luta para manter as portas abertas, contando com a ajuda da esposa para a manutenção da casa. “Tenho usado umas reservas para pagar o aluguel e a esposa ajuda com a aposentadoria para as despesas da casa, mas se dependesse só da clientela não seria possível continuar”, afirma.
Menos circulação, mais insegurança
Outro reflexo da pouca circulação de pessoas nas ruas é o aumento da insegurança. “A gente fica vulnerável, essa semana tentaram arrombar a minha sala, mas não levaram nada. Está tendo muito furto aqui nessa região”, diz Paulo.
Na loja de auto-peças ao lado da barbearia, três funcionários esperam a chegada de algum cliente. “Quem aparece é só para serviços emergenciais, trocar algo que quebrou e mais nada, como lâmpadas, bateria e palhetas”, diz o montador Ederson Felisardo da Silva, 42.
Segundo Ederson F. da Silva, consumidores só fazem serviços essenciais – Foto: Anderson Coelho/NDPara manter os colaboradores, os donos conseguiram empréstimo via Pronampe e assim garantem a folha de pagamento dos que ficaram. Com seis empregados a menos, a gerente Líria de Medeiros afirma que a loja acaba perdendo alguns serviços porque a mão de obra especializada foi dispensada.
Incerteza sobre o futuro
A sensação de insegurança é unânime e apontada por comerciantes do outro lado do campus, no bairro Trindade. A proprietária de um serviço de comida congelada, Anelize Soligo, 40 anos, conta que vários estabelecimentos na galeria onde trabalha foram furtados. Colocamos um vigia à noite para ter mais segurança.
Mas o maior problema é mesmo a falta de clientes. Quando abriu seu negócio de marmitas congeladas, em janeiro, ela se animou com o enorme público universitário. “Estava indo muito bem, até início de março. Aí veio a pandemia e tudo desandou”, diz.
Anelize Soligo espera pela volta dos ônibus e aulas na UFSC para deslanchar o negócio – Foto: Anderson Coelho/NDPara driblar as dificuldades, ela passou a fazer entregas, tanto por aplicativos quanto por conta própria. “Quando faço as entregas, aproveito para conversar com os clientes, saber do que gostam e também temos flexibilidade em mexer nos ingredientes dos pratos”.
Quanto ao futuro, tudo é incerteza. “Tem semanas que vendo bem, outras não vendo nada. Minha esperança é a retomada do transporte coletivo e a volta das aulas na UFSC”, afirma.
Retomada dos ônibus
Para a caixa de uma pequena loja de confecções, Taís Tainara de Matos, 25 anos, a situação se agravou com a nova suspensão do transporte coletivo. “Nosso bairro está abandonado. A loja foi arrombada durante a madrugada e levaram bastante mercadoria”, conta.
Segundo a funcionária, foi registrado boletim de ocorrência, mas nada foi recuperado. Além disso, a clientela sumiu e as restrições de não poder provar as roupas contribuem para o pouco resultado nas vendas, que caíram 80%.
Segundo Taís, houve uma pequena melhora com a flexibilização das medidas de isolamento em 17 de junho, quando as pessoas voltaram a frequentar o comércio. “Mas um dia após a nova suspensão [dos ônibus, em 20 de julho], tudo parou. Dependemos de quem mora no bairro e tem a consciência de ajudar o comércio local”, afirma.
Sem ônibus e sem poder provar roupas, clientes sumiram da loja, diz Taís Tainara de Matos – Foto: Anderson Coelho/NDNa loja vazia, Taís conta que sem conseguir crédito do governo, a proprietária acabou demitindo um empregado. “Toda essa situação gera muita incerteza sobre o que fazer. Não renovamos o estoque por medo de não vender. A expectativa é que os ônibus voltem a circular e que uma vacina esteja disponível o quanto antes”, analisa.
Cenário piorou
De acordo com o diretor de Assuntos Públicos e Políticos da CDL de Florianópolis, Lidomar Bison, desde que o comércio retomou as atividades, as vendas vinham se estabelecendo entre 50% e 60% de um dia normal de faturamento. “Com a nova suspensão dos ônibus, o cenário piorou e o número caiu para 15%, em alguns casos chegando a 20%”, lamentou.
Segundo o dirigente, em alguns setores como eletro e eletrônicos, ares condicionados e aquecedores, as vendas estão melhores. Mas, para os segmentos de confecção, calçados, acessórios, presentes e itens sociais ou casuais, mesmo com liquidações e facilidades de pagamento, o consumo está retraído.
Para Bison, a expectativa de uma retomada das vendas sem transporte público é inviável, pois os consumidores estão com medo de se expor nas ruas por conta da pandemia.