Desigualdade de renda em SC atinge nível mais alto dos últimos nove anos

Constatação se baseia em índice estadual cujo monitoramento iniciou em 2012; para pesquisadores, resultado se deve ao achatamento das camadas médias

Bruna Stroisch Florianópolis

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A pandemia da Covid-19 provocou efeitos expressivos na renda dos catarinenses. No segundo trimestre de 2021, a desigualdade de renda em Santa Catarina atingiu o nível mais alto desde 2012, quando começou a ser monitorada. A constatação parte de um estudo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Desigualdade de renda em Santa Catarina atingiu maior patamar da série histórica no 2º trimestre de 2021 – Foto: Pixabay/Reprodução/NDDesigualdade de renda em Santa Catarina atingiu maior patamar da série histórica no 2º trimestre de 2021 – Foto: Pixabay/Reprodução/ND

A alta na desigualdade da distribuição de renda foi verificada pelo índice de Gini estadual, que mede o grau de concentração de renda e varia de 0 a 1, sendo 1 o nível máximo de desigualdade distributiva. Os dados são baseados na mais recente PNADC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).

O recorde foi registrado tanto do ponto de vista dos rendimentos individuais (0,413), quanto da renda domiciliar per capita (0,450). No 2º trimestre de 2019, os indicadores apontavam 0,399 e 0,430, respectivamente.

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O índice que mede a renda domiciliar per capita apresentou a maior alta, mesmo desconsiderando as famílias sem renda (que não entram no cálculo): aproximadamente 5% na comparação com o período pré-pandemia.

Índice de Gini dos rendimentos habitualmente recebidos em todos os trabalhos e do rendimento domiciliar per capita em Santa Catarina (2012-2021) – Foto: PNADC/T – Microdados (2021); Elaboração Necat/UFSCÍndice de Gini dos rendimentos habitualmente recebidos em todos os trabalhos e do rendimento domiciliar per capita em Santa Catarina (2012-2021) – Foto: PNADC/T – Microdados (2021); Elaboração Necat/UFSC

O estudo do Necat (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense) considera que esse resultado se deve, principalmente, ao achatamento das camadas médias, que sofreram com arrochos salariais ou que permanecem com membros familiares fora do mercado de trabalho.

Redução do poder de compra

Conforme o texto, assinado pelos economistas da UFSC Vicente Loeblein Heinen e Lauro Mattei, a crise sanitária explicitou uma série de problemas presentes no mercado de trabalho catarinense, que “tendem a permanecer mesmo com a melhora do quadro sanitário e a retomada do nível de atividade econômica”.

Um dos principais impactos da pandemia foi a redução da massa salarial, isto é, da soma de todas as rendas de trabalho recebidas no Estado. Houve uma expressiva perda de poder de compra da população, tendo em vista que o nível de renda atual se encontra 6% abaixo daquele que seria esperado caso as tendências pré-pandemia fossem mantidas.

Estratos de renda domiciliar

As menores faixas de RDPCT (rendimento domiciliar per capita do trabalho) foram as que mais cresceram no último trimestre em Santa Catarina, conforme a tabela abaixo.

  • Alta de 32,1% dos domicílios que recebem até ¼ salário mínimo;
  • Alta de 5,5% daqueles que recebem entre ¼ e meio salário mínimo;
  • Alta de 7,3% dos domicílios da faixa entre meio e 1 salário mínimo.

Em termos absolutos, esta última faixa foi a que mais se expandiu desde o início da pandemia, incorporando 215 mil pessoas, conforme o estudo do Necat.

Distribuição da população residente por faixa de rendimento domiciliar per capita real habitualmente recebido em todos os trabalhos em Santa Catarina (mil pessoas por faixa salário mínimo) – Foto: PNADC/T (2021) – Microdados; Elaboração Necat/UFSCDistribuição da população residente por faixa de rendimento domiciliar per capita real habitualmente recebido em todos os trabalhos em Santa Catarina (mil pessoas por faixa salário mínimo) – Foto: PNADC/T (2021) – Microdados; Elaboração Necat/UFSC

Para os pesquisadores, a expansão da base da pirâmide de rendimentos se deve à absorção das famílias que possuíam rendas intermediárias e, principalmente, à retomada do grau de participação no mercado de trabalho.

Do primeiro trimestre ao segundo trimestre de 2021, houve redução expressiva da faixa dos domicílios sem renda do trabalho, que diminuiu em 166 mil pessoas.

Em contrapartida, o número de catarinenses vivendo em casas sem quaisquer rendas de trabalho segue bastante elevado, atingindo 1,2 milhão de pessoas, ou 16,1% do total da população. O número é 2,2 pontos percentuais a mais do que registrado antes da pandemia.

O texto também destaca que o Estado conta atualmente com 109 mil pessoas que moram em casas cujos responsáveis precisam trabalhar para ter renda, mas não conseguem. Em 2019, esse número era 25% menor, com 87 mil pessoas.

Famílias pobres do país tiveram perda de 21,5% na renda

A renda média individual do brasileiro se encontra atualmente num patamar 9,4% inferior ao nível verificado no final de 2019, de acordo com estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

A pesquisa alerta para a desigualdade existente entre a base e o topo da pirâmide de renda, uma vez que a metade mais pobre sofreu uma perda de 21,5%, enquanto os 10% mais ricos tiveram uma queda de apenas 7,16%, ou seja, uma perda três vezes menor.

Para o pesquisador da FGV Marcelo Neri, grande parte da perda de renda dos mais pobres está vinculada à expansão do desemprego, além da redução do rendimento por hora trabalhada e da própria jornada de trabalho.

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