Dia do comerciante: histórias de resiliência e perseverança na pandemia

Empresários de Florianópolis contam como se reinventaram e aprenderam a conviver com a incerteza dos últimos quatro meses

Andréa da Luz Florianópolis

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O dia do comerciante é comemorado nesta quinta-feira (16) em todo o país. Instituído pela lei 2.048, de 1953, foi criado em homenagem a José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, nascido nessa mesma data. Considerado o patrono do comércio brasileiro, foi o responsável pela criação das primeiras leis sobre a atividade, então dependente de Portugal.

Passados quase 70 anos da criação da homenagem, as pessoas que se dedicam a oferecer produtos e serviços continuam sendo um exemplo de coragem e determinação, mesmo em tempos de pandemia do novo coronavírus.

Após quatro meses de quarentena, comerciantes se reinventam para manter negócios vivos – Foto: Divulgação/NDApós quatro meses de quarentena, comerciantes se reinventam para manter negócios vivos – Foto: Divulgação/ND

Com horários restritos, fluxos de caixa prejudicados e a incerteza constante dos últimos quatro meses, vários comerciantes reajustaram as rotas, reduzindo custos e adequando sua forma de trabalho.

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O resultado desse esforço os impediu de fechar as portas e também revelou demandas de mercado que não eram adequadamente exploradas.

Novos canais de vendas

Para Clarissa Pires, proprietária de uma loja de grãos no Multi Open Shopping, no Sul da Ilha, a pandemia chegou no momento em que o negócio estava em sua melhor fase de operação.

Com a quarentena, o fluxo de pessoas caiu 50% refletindo em queda no faturamento. Dos três funcionários, apenas um foi mantido, enquanto o horário de funcionamento continua reduzido, das 12 h às 20 h. A demissão foi inevitável para manter a saúde financeira da empresa, mas Clarissa analisa a possibilidade de recontratar mais à frente.

O período delicado exigiu que o processo de atendimento fosse repensado.  A maior preocupação, no entanto, era não perder de vista o propósito de proporcionar saúde e gerar uma experiência sensorial para o cliente. “No espaço físico da loja, a pessoa entra e ouve música, sente os aromas, conversa e experimenta os nossos produtos”, diz a empresária.

Loja de grãos passou a utilizar quatro canais de venda e entregar em casa – Foto: Tudo em Grãos/Divulgação/NDLoja de grãos passou a utilizar quatro canais de venda e entregar em casa – Foto: Tudo em Grãos/Divulgação/ND

A primeira alternativa foi criar uma loja virtual através de um aplicativo de entrega de comida pela internet. “Tiramos fotos dos produtos e enviamos um kit degustação junto com os pedidos, com bilhetes de boas vibrações e agradecimento, levando a experiência física até a casa do cliente. No primeiro mês vimos que eles aderiram à ideia. No segundo mês, as vendas aumentaram 200% em relação ao anterior”, conta Clarissa.

A empresária afirma que se não fosse a pandemia, talvez não tivesse se dado conta dessa demanda que já existia. A loja também passou a fazer delivery em dias alternados, para cobrir áreas que o aplicativo não alcança.

“Agora temos quatro canais de vendas: pelo whatsapp, pelo aplicativo de refeições, via delivery e loja física. Assim, levamos nosso DNA e experiência até o cliente e isso tem ajudado a nos manter, dá lucro e ajuda a passar por esse período difícil. Pretendemos manter e melhorar essas ações após a pandemia”, afirma.

“É desafiador, mas quando temos um propósito além da venda, conseguimos passar por isso com mais calma, traçar novas estratégias e nos reinventar”.

O poder da resiliência

Ver a situação pelo lado positivo é o que mantém Renata Brose, proprietária de duas lojas de lingerie, firme durante a turbulência. Para manter as 12 funcionárias,que são mulheres chefes de família, ela negociou com a marca da qual é franqueada, com shoppings e fornecedores.

“Para não demitir, a gente fez adequações e trabalha com horário reduzido, das 12 h às 20 h, segunda à sábado. Mas hoje só vendemos de 30% a 40% em relação ao mesmo período do ano passado”, afirma.

Renata diz que a pandemia a obrigou a sair da zona de conforto e adotar novas atitudes. “Uma das principais ações foi estreitar o relacionamento com as clientes. Antes, não tinha tempo ou não estava disponível para conhecê-las, saber seus nomes e do que gostam, como nos tempos da mercearia. Precisou de todo esse processo para a gente voltar a fazer o básico”, analisa.

Renata Brose estreitou relacionamento com clientes e não demitiu durante a pandemia – Foto: Renata Brose/Arquivo pessoal/DivulgaçãoRenata Brose estreitou relacionamento com clientes e não demitiu durante a pandemia – Foto: Renata Brose/Arquivo pessoal/Divulgação

Renata começou movimentando um grupo de whatsapp, que servia para enviar conteúdos de engajamento. Em março, ela passou a usar o aplicativo para fazer delivery e estabelecer um relacionamento diferente com a clientela. A própria empresária faz a entrega das encomendas na casa das clientes ou no shopping, pelo sistema drive thru.

Também firmou parceria com uma clínica de estética do bairro Santa Mônica, que oferece uma massagem no dia do aniversário da cliente. “Nesse momento em que todo mundo está estressado, isso é um presente para as clientes. Ao mesmo tempo, passamos a olhar para outros parceiros, um ajuda o outro”, diz.

Agora, ela se dedica a um projeto de clientes influenciadoras. “Contratei uma fotógrafa que vai clicar as clientes vestindo os produtos e as fotos serão publicadas uma vez por mês em nossas redes sociais. Elas são mulheres reais, blogueiras, que a gente está empoderando para mostrar que a marca não veste apenas as que se enquadram em determinado padrão de beleza”, conta Renata.

Embora não seja possível medir um retorno nesse momento, a empresária diz que “está plantando uma semente, e a base é a reinvenção do relacionamento”.

Segundo Renata, o período mostra o quanto ela é corajosa e resiliente. “Aprendi a trabalhar com a incerteza. Hoje, o shopping está aberto, tem transporte coletivo, amanhã não sei. Temos que aprender a viver o momento presente, vivendo um dia de cada vez”.

Aposta nas marmitas

Com um público que costumava encher o salão do restaurante, localizado no bairro Rio Tavares, a família Souza Vieira precisou fechar as portas em março, em cumprimento às regras para a quarentena, em Florianópolis. O negócio que existe há 23 anos é administrado atualmente por três irmãos, Isabela, Daniela e Gabriel e funcionava com buffet livre e a quilo, sendo famoso também por suas sobremesas.

“Como nunca havíamos trabalhado com delivery, ficamos totalmente fechados até o dia 13 de abril. Mas a meta era não demitir nenhum dos 20 funcionários, então iniciamos a entrega de marmitas prontas e a venda de marmitas por quilo, retiradas no balcão”, conta Isabela Souza Vieira.

Restaurante familiar famoso pelo buffet livre e sobremesas adotou entrega de marmitas – Foto: Sítio Casa Branca/DivulgaçãoRestaurante familiar famoso pelo buffet livre e sobremesas adotou entrega de marmitas – Foto: Sítio Casa Branca/Divulgação

Com os pedidos feitos por telefone ou whatsapp, o restaurante passou a fazer entregas no Rio Tavares até o trevo do Porto da Lagoa e no Campeche.

“Foi uma experiência totalmente diferente, o movimento não chegava a 30% do que estávamos acostumados, porém continuamos persistindo, buscando novas ideias, investindo mais em divulgação e redes sociais. Aos poucos, o movimento das entregas foi aumentando”, diz Isabela.

“O Instagram foi uma ferramenta muito importante para captar novos clientes e mantê-los informados diariamente sobre nossas mudanças, além de compartilharmos fotos do cardápio do dia. No entanto, ainda não sabemos se vamos manter esse serviço após a pandemia”, afirma.

Com a flexibilização das medidas de isolamento, em 22 de abril a casa reabriu para almoço no salão. “Investimos mais em proteção para segurança dos clientes e funcionários, e hoje, quase quatro meses depois do fechamento inicial ainda estamos mantendo todos os funcionários, embora o faturamento esteja em apenas 50% do que era”.

Já a irmã, Daniela, lembra que como as pessoas estão ficando mais em casa, a maioria faz sua própria comida, evitando sair e economizando. Com isso, todo o segmento de alimentação sofreu um impacto muito grande, com queda de mais de 50% nas vendas.  “Apesar de as expectativas não serem tão positivas no momento, é preciso olhar para frente, trabalhar e se reinventar para sobreviver. Unidos e empenhados seremos mais fortes e resistiremos a essa fase tão delicada para todos”, diz.

Nova clientela e loja online

Dono de uma distribuidora de alimentos congelados, o empreendedor Mateus Bernardino Neto conta que o decreto de fechamento em março atingiu em cheio suas vendas, que caíram 80%. Dos 10 funcionários, restaram cinco, incluindo Mateus e outros dois sócios. Todos os clientes – bares, lanchonetes, casas de suco e similares fecharam e o negócio passou por uma reavaliação.

A solução encontrada foi vender diretamente ao consumidor final. Após fazer uma pesquisa de mercado para avaliar o que as pessoas estavam consumindo em casa, eles procuraram um novo fornecedor e passaram a vender kits de alimentos.

“Entramos no e-commerce com loja online e fizemos parcerias com blogueiras. Passamos a ser mais ativos no Instagram e conversamos com síndicos para vender coletivamente nos condomínios”, afirma Mateus.

Distribuidora de alimentos focou no consumidor final e aumentou as vendas – Foto: Da Ilha Alimentos/DivulgaçãoDistribuidora de alimentos focou no consumidor final e aumentou as vendas – Foto: Da Ilha Alimentos/Divulgação

“Também ficamos com estoque alto de açaí, que fornecíamos para barracas de praia. Para não perder a mercadoria, procuramos um parceiro para criar outros produtos, como geleias, tortas, bolos e até cuca de açaí. Criamos uma vaquinha virtual para arrecadar dinheiro e parte dessa produção será doada para 240 moradores em situação de rua em Florianópolis”, afirma.

Além de ajudar outras pessoas, a ação vai permitir analisar se os produtos terão boa aceitação no mercado, podendo vir a entrar no portfólio futuramente.

Com as mudanças, o faturamento aumentou 30%, embora esteja longe do esperado. “Mesmo não sendo tão rentável, vendemos pelos aplicativos de entrega que são os meios mais procurados pelos clientes, é praticamente obrigatório estar lá”, analisa Mateus.

Segundo ele, todas as estratégias serão mantidas após o período de pandemia. “Acredito que daqui para frente esse será um mercado ainda mais selecionado, pois as pessoas vão escolher melhor onde comprar, tendo como prioridade a saúde e a segurança”,diz.

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