Em SC, 24% dos bares e restaurantes podem fechar se não tiverem auxílio em 2022

A rentabilidade do setor é prejudicada pela queda no fluxo de clientes, a alta nos alimentos e juros de dívidas contraídas para manter os negócios

Redação ND Florianópolis

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Em Santa Catarina, 23,9% dos bares e restaurantes não vão conseguir se recuperar da crise provocada pela pandemia da Covid-19 e terão que reduzir ou fechar as portas se não tiverem auxílio em 2022. O levantamento faz parte de uma pesquisa da Abrasel SC (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) divulgada nesta quinta-feira (17).

Restaurantes e bares enfrentam dificuldades financeiras desde o começo da pandemia – Foto: Daniel Queiroz/Arquivo/NDRestaurantes e bares enfrentam dificuldades financeiras desde o começo da pandemia – Foto: Daniel Queiroz/Arquivo/ND

Mesmo dois anos após o início da crise sanitária, 70,5% dos bares e restaurantes de Santa Catarina estão tendo uma rentabilidade menor em comparação ao período anterior.

Entre os motivos analisados pela entidade para a diminuição do lucro das empresas estão a queda no fluxo de clientes, a alta no preço dos alimentos e os juros de dívidas contraídas por conta da pandemia.

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Com relação ao atendimento ao público, nem mesmo a temporada de verão de 2022 superou as vendas de anos anteriores, apesar da expectativa dos empresários.

Segundo o levantamento, 60,8% dos estabelecimentos tiveram fluxo igual ou inferior a antes da pandemia. Entre eles, 26,1% tiveram movimento muito pior que antes de 2020, que contou com fluxo regular de clientes.

Para 58% dos donos de bares e restaurantes, o fluxo de turistas durante a última alta temporada foi inferior a outros anos. A circulação de visitantes em cidades catarinenses foi igual em 2020 e 2022 para 23,2% dos entrevistados e considerado maior em 18,8% das avaliações.

A Abrasel estima que o pico de contágio da Covid-19, provocado pela disseminação da variante Ômicron, no período pós-festas contribuiu para a diminuição do número de viajantes no Estado.

As dificuldades econômicas, tendo a inflação como a principal delas, no Brasil e em países do exterior também são consideradas como justificativa para a queda de circulação de turistas neste ano.

Com isso, a temporada de verão 2021/2022 “frustrou o setor de gastronomia e entretenimento, tanto no fluxo de clientes quanto no gasto médio deles, impactado pela redução de renda gerada pela pandemia somada a perda de poder aquisitivo da população”, concluiu a entidade.

Inflação nos alimentos

A rentabilidade dos bares e restaurantes segue prejudicada também pelo encarecimento dos alimentos. Alguns dos principais insumos, como carnes bovinas e laticínios tiveram aumentos de 40% e 30% no valor, respectivamente.

Restaurantes precisaram mudar oferta de pratos e aumentar os preços. – Foto: Pixabay/Reprodução/NDRestaurantes precisaram mudar oferta de pratos e aumentar os preços. – Foto: Pixabay/Reprodução/ND

Na pizzaria Caprese, na região central de Florianópolis, o cardápio precisou sofrer mudanças por conta da alta dos preços dos fornecedores como forma de diminuir os gastos.

“Tem que ser criativo com foco no cardápio! A gente precisou adaptar, usar alimentos mais baratos para reduzir o custo, mas sem comprometer a qualidade”, explicou o dono do restaurante, Alexandre di Bernardi.

Mesmo assim, não foi possível conter o reajuste de preços e os valores das pizzas e pratos subiram. A última alteração foi realizada em dezembro de 2021, quando “não deu mais para segurar”.

Durante a pandemia, a pizzaria perdeu 25% do quadro de funcionários. Para evitar ao máximo elevar os custos de produção, só foi possível repor 10% das vagas de colaboradores.

Ter o prédio próprio ajuda a conter um gasto significativo, no caso do restaurante. Entretanto, outros estabelecimentos ainda precisaram arcar com o aumento de aluguéis, que chegou a 27%.

As altas que impactam o setor são maiores que o acumulado do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 2021, que fechou o ano com variação de 10%. O índice é responsável por medir a inflação no Brasil e calculado mensalmente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Mesmo assim, a Abrasel observa que “aumento do custo da alimentação fora do lar (10%) foi inferior ao aumento do custo da alimentação no lar (15%), comprovando que os estabelecimentos absorveram aumentos sacrificando a sustentabilidade dos negócios”.

Dívidas para manter os estabelecimentos

O lucro da maioria dos empresários também está comprometido por conta dos juros de dívidas contraídas no período da pandemia. Segundo a entidade, 68% das empresas estão endividadas e 18% delas não estão conseguindo cumprir com os pagamentos em dia.

“Esse cenário reduz novos investimentos e a consequente geração de novos postos de trabalho, como demonstra o dado que 76,1% dos entrevistados não pretendem fazer investimentos nos próximos 12 meses”, consta na publicação da pesquisa.

Di Bernardi foi um dos donos de restaurante que precisou pedir empréstimos para poder manter o estabelecimento durante a crise. Agora, ele espera que o Refis (Programa de Recuperação Fiscal) o ajude regularizar as dívidas.

Expectativa para 2022

De acordo com o levantamento, apenas 34,8% dos entrevistados estão otimistas para o restante do ano. Quase metade dos empresários (49,3%) percebem o cenário como regular.

Entre as expectativas mais pessimistas, 10,1% das pessoas ouvidas consideram que o restante de 2022 deve ser ruim; 5,8% pensam que o ano será péssimo.

Para a Abrasel, o setor deve ter um “alto índice de fechamento de empresas e perda de empregos até o fim de 2022”.

Ajuda do poder público

O setor avalia que está pagando uma “conta desproporcional sozinho”, com as altas nos preços de insumos, o acúmulo de dívidas e a redução de clientes que prejudicam o cenário.

A Abrasel reivindica o apoio do governo do Estado e até mesmo das prefeituras para a adoção de medidas de apoio na recuperação da economia. Entre elas, sugere reduções de impostos, como ICMS, IPVA e IPTU, para bares e restaurantes.

“A esperança do empresário do setor está na sensibilidade dos deputados estaduais, que no final do ano passado aprovaram um projeto de lei de equiparação da carga de ICMS de SC ao PR”, afirma a entidade.

O projeto de lei proporciona uma redução dos atuais 7% para 3,2% de carga efetiva do tributo nos alimentos e de 25% para 3,2%nos vinhos, espumantes e destilados. Os empresários afirmam que a medida seria essencial para manutenção das finanças dos negócios, ameaçados pela crise.

Sobre a pesquisa

A Abrasel SC ouviu 69 estabelecimentos da Grande Florianópolis, Vale do Itajaí e regiões litorâneas de Santa Catarina para a realização da pesquisa entre dezembro de 2021 e março de 2022.

As perguntas, formuladas como enquete, foram respondidas por empresários do setor da alimentação que atuam em regiões que tem impacto positivo pelo fluxo turístico do verão.

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