ENTREVISTA: ‘Há insegurança alimentar pela concentração de poder’, diz Nobel da Paz em Palhoça

Benny Dembitzer visita o Brasil para uma série de palestras em que discute a preservação ambiental e o combate à fome global, que estima ser "bem maior do que 1 bilhão de pessoas"

Filipe Prado Florianópolis

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O economista britânico Benny Dembitzer, 84 anos, visita Santa Catarina nesta semana para uma série de palestras em instituições de ensino da Ânima Educação que contam com o apoio do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul). O Nobel da Paz em 1985 retornou a Florianópolis depois de sete anos para a conferência “Recuperando o nosso planeta: cenários futuros e mudanças globais – economia, sociedade e meio ambiente” na Unisul, em Palhoça, na última terça-feira (30).

Benny Dembitzer é especialista no combate à fome e ganhou Nobel da Paz pela atuação na prevenção de conflitos nucleares – Foto: Filipe Prado/NDBenny Dembitzer é especialista no combate à fome e ganhou Nobel da Paz pela atuação na prevenção de conflitos nucleares – Foto: Filipe Prado/ND

O professor da University College of London, que visitou Joinville nesta quarta (31), criticou duramente a concentração de poder que gera desigualdades e amplia a fome no mundo, tema que chama de “trabalho da minha vida”.

Dembitzer já publicou três livros sobre o assunto, além de ter dirigido o Fundo de Pesquisa e Investimento para o Desenvolvimento na África, continente no qual trabalhou em diversos países, nos anos 70.

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“Grandes empresas escapam da regulação de proteger o meio ambiente e as pessoas”, disse no evento voltado a estudantes.

Dembitzer afirma não ser contra o capitalismo, mas defende uma profunda regulamentação do poder econômico, sobretudo o de grandes corporações e “monopólios poderosos como Google e Apple, que são mais poderosos que governos”.

Dembitzer foi laureado pela atuação como diretor europeu da Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear. Sobre o assunto, afirmou que “a guerra na Ucrânia pode, facilmente, ser a próxima guerra nuclear”.

O economista, que se disse “feminista”, também criticou a globalização, que “falhou porque o preço é pago por nós”.

“A ONU é impotente diante do poder econômico e da globalização”, destacou. A fala pode ser ilustrada pela falha da quebra de patente da vacina contra a Covid-19 no auge da pandemia – países pobres e em desenvolvimento foram os últimos a terem acesso à vacina produzida por laboratórios privados.

O britânico ainda ironizou o que chamou de “mito do carro ecológico” em referência aos carros elétricos, já que “o custo da produção é esquecido”.

Pouco antes da palestra, Dembitzer recebeu a reportagem do Portal ND+ para um rápido bate-papo.

Confira a entrevista:

A fome ainda é preocupação global. No Brasil, 15% da população passa fome, em torno de 33 milhões de pessoas. Por que um país que é grande exportador de comida ainda sofre com este problema?

Você mesmo respondeu a pergunta: porque as pessoas não são mestres da comida que produzem. Este é o principal motivo pelo qual ainda existe tanta fome no mundo. Pessoas produzem a comida, processam, vendem e não têm acesso à própria comida.

Outro problema é que as estatísticas não são tão confiáveis: pensamos que o número de pessoas com fome no mundo é de 1 bilhão de pessoas, 1 a cada 7, mas o número verdadeiro é provavelmente o dobro disso. Um grande número de pessoas não tem ideia de onde a refeição do dia seguinte virá. Insegurança alimentar acontece quando não se sabe se haverá a próxima refeição. Por que?

Por causa da concentração de poder. Poder das indústrias, das commodities… e há a China, o ‘player’ mais esperto do mundo porque tem o poder do estado para o capitalismo. Capitalismo estatal, o maior poder que há no mundo. Por isso o mundo está em grandes dificuldades: há uma grande concentração de comida na mão de poucos ‘players’, e isso é uma desgraça.

Em 2015, 86% das mulheres grávidas no Brasil tinham 3 refeições por dia. Em 2021, contudo, eram apenas 49%. Por que este é um problema tão urgente e quais as consequências?

A urgência é imediata! Muitas pessoas irão morrer, muitas mulheres irão morrer. Crianças precisam, desde a concepção até os primeiros mil dias, assim como as mães, de minerais, zinco, magnésio, íons, vitaminas e 7 tipos de comida.

O que acontece em muitos lugares do mundo é que, em vez de as pessoas produzirem uma variedade de comida, mais e mais terras são utilizadas para plantações de monoculturas voltadas à exportação. Grandes organizações como a Unicef, Organização Mundial da Saúde, a Nestlé falam: ‘temos alimentos para vocês’. Não! Não lhes dê os alimentos produzidos nos EUA e na Europa. Precisam encorajar e ensinar as pessoas.

O aquecimento da Terra, a temperatura da água, o solo tem se tornado mais infértil. Pensamos que porque temos uma sociedade democrática, com partidos de direita, esquerda e centro, temos direitos sociais e proteção legal. Isso é de menor relevância.

A inflação é um problema global intensificado pela guerra na Ucrânia devido ao preço do petróleo.

O Brasil não tem produção de petróleo? Por que o governo brasileiro não ajuda a população?

Sim, mas o preço dos derivados de petróleo são estipulados pelo mercado internacional devido à política de Paridade de Preços Internacionais (PPI) da Petrobras, uma empresa de capital aberto.

Exatamente! Em países como o Brasil, grande, poderoso e rico como é, grande parte da inflação é uma inflação importada – e não há razão para isso. Isso ocorre porque há imensa concentração de poder em poucas mãos.

Os EUA, que ficam dizendo que os sauditas são criminosos pelo assassinato do (jornalista Jammal) Kashoggi, pediram aumento da produção de petróleo para não afetar a eleição de (Joe) Biden. É o poder! Capitalismo é apenas uma pequena parte disso. Não culpe o capitalismo! Pessoas jovens precisam entender que o sonho por uma sociedade mais justa, a vida precisa ser encarada de uma maneira completamente diferente.

Para enfrentar essa inflação, o Banco Central do Brasil estipulou a taxa Selic em 13,75% ao ano. Quão efetivo são os juros altos contra a inflação?

Temos este problema no Reino Unido.Há quem diga: ‘para enfrentar a inflação é preciso dar pequenas quantias de dinheiro às pessoas para reajustar a economia’. A outra diz: ‘vamos reduzir os impostos e dar mais dinheiro às pessoas, incluindo abolir a Green Levy (imposto britânico sobre a emissão de CO2)’. Isto irá fazer a inflação muito maior porque este governo (liderado pelo primeiro-ministro Boris Johnson) é economicamente iletrado. Dar mais dinheiro, sem bens, sem combustível, sem água… os preços irão subir ainda mais.

Prêmios Nobel de Economia como Paul Krugman e Joseph Stiglitz tornaram-se críticos de medidas econômicas neoliberais depois da crise de 2008, quando a Casa Branca precisou investir mais de um trilhão de dólares para salvar bancos e instituições financeiras. Como avalia a economia neoliberal diante dos desafios ambientais atuais?

Nunca foram compatíveis porque um dos elementos chave do liberalismo, que vem da Escola de Chicago e foi adotado por (presidente dos EUA, Ronald) Reagan e Margareth Thatcher (no Reino Unido), pressupõe desregulação, e isso gera fragilidade na proteção ambiental.

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