Ex-funcionários da marca Labellamafia afirmam que a empresa fez demissão em massa de trabalhadores e que os atuais donos não pagaram os direitos trabalhistas. Grife de roupas de SC entrou em recuperação judicial e foi comprada pelo grupo Blue Star Brands.
Marca Labellamafia já produziu campanhas com a atriz e modelo Deborah Secco – Foto: Instagram @labellamafia/Reprodução/NDNova gestão da Labellamafia demitiu efetivo, dizem ex-funcionários
Falta dinheiro para pagar aluguel, contas de água, energia e outras despesas básicas como alimentação e transporte. A ansiedade pela espera criou um cenário de incertezas.
Funcionários desligados na demissão em massa conversaram com o ND Mais sobre o caso. Segundo eles, a empresa inicialmente comunicou a demissão alegando que a marca “não estava em uma boa fase”.
SeguirA estimativa é de que pelo menos 40 funcionários tenham sido desligados, entre efetivos e prestadores de serviço. O acordo firmado, segundo as pessoas demitidas, incluía apenas o cumprimento do aviso prévio.
Grupo se reuniu em frente à fábrica da marca, em SC, para cobrar posicionamento dos novos gestores – Foto: Reprodução/ND“Não assinamos nenhum outro documento, somente o do aviso e cumprimos nos horários certos. Dispensaram a gente sete dias antes do término dizendo que o prazo continuaria correndo e que deveríamos ficar em casa”, diz uma ex-funcionária que não quis se identificar.
Ela explica ainda que, ao final do período de aviso prévio, eles deveriam voltar na empresa para assinar a documentação referente à rescisão e ao recebimento do Seguro-Desemprego, férias e demais direitos.
“No dia 4 [de junho] eles nos mandaram uma mensagem dizendo que não ia ser possível fazer a nossa rescisão pois a empresa não estava preparada ainda, que estavam no trâmite da nova gestão que assumiu a Labellamafia”.
“Falamos com o novo diretor, que é quem está assumindo a frente, e ele disse que eles iam se organizar para tentar mandar pagar os nossos direitos. Nosso FGTS está atrasado desde dezembro [de 2023]”, lamenta.
A nova gestão é operada pela empresa que tem como principal acionista Leonardo Perugine Alvez de Barros Filho. O ND Mais não conseguiu localizar a defesa do empresário e o espaço segue aberto.
Grife tem peças no estilo esportivas e streetwear – Foto: Instagram @labellamafia/Reprodução/ND“Tem pessoas que trabalharam na empresa e estão passando necessidade sem comida, eles não têm nada em casa. Alguns não têm como pagar aluguel, água, luz”.
A última tentativa de negociação do grupo com a nova gestão foi na quinta-feira (13). Segundo a ex-funcionária, os dirigentes pediram “paciência”.
“Tem funcionário que foi demitido com 11, 8, 6 anos de empresa. Todos com uma história na Labellamafia. É muito triste essa situação. Chega uma hora que a paciência se esgota”.
Em um vídeo compartilhado na internet, um grupo reunido em frente à fábrica da marca, localizada em Palhoça, na Grande Florianópolis, aguarda a chegada dos representantes para um novo posicionamento.
“Como a gente fala para um filho quando ele diz que está com fome? Como é que eu falo para o dono do meu apartamento que ele tem que esperar. Ele tem que receber também”, diz uma das trabalhadoras na gravação.
“Como eu vou falar para não cortarem a minha luz, a água, se eu também não tenho como pagar? Vou falar para ele esperar?”.
Funcionários demitidos cobram pagamento de direitos trabalhistas – Vídeo: Reprodução/ND
Nova gestão ainda previa demitir mais pessoas, diz ex-funcionária
Outra pessoa que trabalhava na empresa e também não quis se identificar, conta que pediu desligamento logo após a demissão em massa. Ela diz que a incorporadora que adquiriu a marca não assumiu as dívidas, como tinha sido acordado no ato da compra, feita durante a recuperação judicial.
“Eles estão se recusando a pagar as pessoas, incluindo a rescisão dos funcionários CLTs. Hoje eles [nova gestão] alegam que essa foi uma decisão do antigo dono, que não tem nada a ver”, explica.
“Eles [da nova gestão] tinham pedido para o setor de RH, inclusive, fazer mais cortes”.
Após a demissão em massa, o efetivo da empresa ficou com 70 pessoas e a fábrica, segundo a ex-funcionária, teve as atividades paralisadas temporariamente. Ela diz ainda que os trabalhadores que permanecem na Labellamafia agora trabalham em regime home-office.
Comentários em publicações no perfil da marca nas redes sociais mencionam o cenário atual de demissões na empresa – Foto: Instagram @labellamafia/Reprodução/NDO que diz o antigo dono
A marca Labellamafia foi criada pelo estilista Giulliano Puga, que também era o proprietário da empresa. Ao ND Mais, a assessoria de Giulliano afirma que as negociações de venda ocorreram ainda no fim de 2023.
A intermediação do negócio, feita pela empresa de consultoria financeira Target Avisor, foi concluída, segundo Puga, no dia 7 de maio, após o fechamento e assinatura dos contratos.
“Após essa data, Giulliano Puga deixou o comando das empresas. Os detalhes da negociação seguem em sigilo contratual, mas o projeto apresentado pelo grupo era sanear todos os compromissos, investir e reestruturar a empresa”, diz a assessoria do empresário.
Estilista Giulliano Puga vendeu a marca após processo de recuperação judicial – Foto: Instagram @giulliano/Reprodução/NDSobre as demissões e pagamentos atrasados aos colaboradores, a defesa de Giulliano diz que “nenhum atraso de pagamento foi registrado durante a gestão”.
“A assessoria jurídica de Giuliano está acompanhando o caso, pois há uma grande preocupação dele com os colaboradores. O grupo possuía 103 colaboradores na data de fechamento do contrato.
Há uma negociação em andamento para que o Giulliano assuma o setor de criação do grupo. Tanto da Labellamafia, como de outras marcas que o grupo pretende adquirir”.
Funcionários demitidos e atual gestão da marca não haviam entrado em acordo até a última atualização deste texto.
Marca Labellamafia é conhecida entre famosos
A marca Labellamafia nasceu em Santa Catarina, quando Giulliano começou a desenhar roupas para a sócia e atleta esportiva Alice Matos. As peças criadas se espalharam pelo Brasil a partir de lojistas multimarcas e também em franquias.
Famosos como Gracyanne Barbosa, Marcos Mion e a atriz Cleo Pires já vestiram peças da marca – Foto: Reprodução/NDA grife chegou a ter 270 pessoas trabalhando nos diferentes setores e produzia cerca de 100 mil peças por mês. Em 2019, o empresário assumiu a operação da marca integralmente.
Puga teve dificuldades em dar continuidade no processo de reestruturação da Labellamafia e entrou com um processo de recuperação judicial – meio legal utilizado para reorganizar empresas e evitar a falência.
Processo de negociação para venda da marca ao grupo Blue Star Brands encerrou no início deste mês, segundo o antigo proprietário.