Quando se pensa em uma boneca Barbie logo vem à mente uma mulher loira de cabelos longos, vestindo rosa. Um padrão. Mas na Barbiearia, a primeira barbearia LGBTQIA+ do Brasil, criada em Joinville, embora a boneca mais famosa do mundo seja uma referência no nome, a proposta ali não é seguir padrões.
O vanguardismo nos pequenos negócios da cidade no Norte de Santa Catarina não para por aí: o escritório da advogada Ana Paula Nunes Chaves é um dos primeiros do país a atender apenas mulheres. Já no salão da Lúcia Nara Ferreira, a Nara das Tranças, o orgulho dos cabelos afro e a geração de renda estão unidos há quase 40 anos.
Empreendedorismo da diversidade ganha força em Joinville – Foto: Carlos Jr/NDDa descoberta das tranças para a criação de um negócio
O movimento rápido das mãos de Lúcia Nara Ferreira mostra a experiência no ofício que ela aprendeu aos 12 anos. Hoje com 51, a conhecida Nara das Tranças conta com a renda exclusiva da profissão que já compartilha com a filha Ruahna, no salão que fica junto à casa em que mora no Adhemar Garcia, zona Sul de Joinville.
Nara das Tranças descobriu o ofício quase por acaso e fez dele a profissão da vida – Foto: Carlos Jr/NDA união de Nara com as tranças começou quase por acaso. Ainda adolescente, ela participaria de uma apresentação da música Morena de Angola na escola e, para isso, foi até um salão de beleza para enfeitar o cabelo com tranças.
“Eu fiz, mas não foi na frente do espelho. Foi depois que cheguei em casa que me olhei e disse ‘olha, que lindo, eu sei fazer isso aqui também’”, conta. Não demorou muito para que as tranças do cabelo de Nara fizessem também outras cabeças.
Com mais algumas aulas com a cabeleireira, ela logo aprendeu a arte de trançar e a fazer disso uma profissão. “Eu já fazia trancinha na vizinhança toda, adorava sentar atrás das minhas amigas na escola e fazer tranças. Foi aos 15 anos que comecei a ganhar dinheiro”, lembra.
Nara foi uma das primeiras pessoas a trabalhar especificamente com tranças na cidade. “Não era tão normal, até porque ou era cabelo curto ou cabelo alisado, ainda hoje tem isso. Naquela época as tranças não eram tão usadas”, observa.
O boca a boca, melhor tipo de marketing na época em que a internet não existia, fazia com que várias clientes chegassem à casa dela. Tanto que o pai de Nara já decretava: “a tua profissão está nas tuas mãos”. Na rebeldia típica da adolescência, porém, a filha só levou a sério o conselho depois que o pai faleceu.
Aos 22 anos, ela abriu um espaço definitivo para trançar cabelos. Desde então tira a renda do ofício, oferecendo várias opções à clientela. “Tem aquelas para o final de semana, que são enfeitadas com fio, e aquelas que duram até 20 dias. Além das tranças para três meses, que são as clientes mais fiéis”, detalha. Dependendo do tipo de trança, o trabalho pode levar até oito horas.
Embora tenha descoberto as tranças quase por acaso, Nara destaca a importância delas para a sua identidade. “Ser uma mulher negra e trabalhar com cabelo afro me diz quem eu sou, não vou fugir da minha raiz”, ressalta.
Agora, além de compartilhar as tranças com a filha, Nara cultiva o sonho de ter uma Kombi para poder passear por vários lugares trançando cabelos.
Acolhimento e cuidado na 1ª barbearia LGBTQIA+ do Brasil
A Barbieria é o que se pode chamar de empreendimento da diversidade. Um negócio como qualquer outro no sentido administrativo, mas que se diferencia ao atender pessoas que nem sempre se sentem acolhidas em empresas tradicionais dos mesmos segmentos, caso de mulheres, da população negra e do público LGBTQIA+.
“Empreendimentos da diversidade” geram renda e acolhimento – Foto: Carlos Jr/NDCriados por empreendedores que sentiram na pele essa falta de acolhimento, ou que a assistiram em outras empresas, esses negócios se destacam no mercado. Afinal, além de garantirem renda e emprego, proporcionam satisfação pessoal.
Considerada a primeira barbearia LGBTQIA+ do Brasil, a Barbiearia nasceu em 2020 para ser um local de acolhimento. A ideia surgiu com seus dois criadores, um casal de homens gays, que não tiveram boas experiências em barbearias tradicionais voltadas ao público masculino.
“Ela surgiu do trauma que a gente criou de ir em barbearias, um lugar desconfortável para quem é gay”, conta o maquiador Felipe Alves, de 28 anos. Como clientes desses locais, ele e o companheiro Diógenes Machado, também de 28 anos, sabiam que isso era um problema também para outras pessoas.
Além disso, ele conta que o problema também acontece com mulheres de cabelos curtos. “Se a gente que tem aparência mais masculina, com barba, passava por isso, para quem é mais afeminado, uma mulher mais masculina ou uma pessoa trans é bem pior. Aí que pensamos em abrir o negócio e abraçar esse pessoal”, explica o maquiador.
Felipe e Diógenes abriram o negócio após viverem situações desagradáveis em barbearias tradicionais – Foto: Carlos Jr/NDA Barbiearia nasceu em um bairro da cidade, no Iririú, mas após um ano ganhou um espaço ainda maior no Centro de Joinville. Em um bar no térreo, casais com crianças e até grupos de idosas se divertem enquanto aguardam o atendimento, que ocorre no segundo andar.
São vários serviços oferecidos, como corte, coloração, manicure e o pacote drag, que conta com maquiagem, unhas e cabelo para uma transformação completa.
Apesar do negócio ser uma novidade considerada “ousada” em Joinville, o casal não teve dúvidas sobre o potencial para atrair a clientela. A preocupação dos dois era, na verdade, a de abrir um negócio em meio a uma das fases mais críticas da pandemia do coronavírus, com salões e barbearias fechando a todo momento. Apesar disso, o sucesso do empreendimento é visível após quase dois anos da abertura.
“A gente saiu de duas para sete bancadas, tudo tem acontecido muito bem, o público tem aprovado”, conta Diógenes. Agora, além do casal, a Barbiearia conta com três barbeiras, uma manicure, duas cabeleireiras e uma auxiliar de cabeleireira. E a equipe vai aumentar, já que mais três profissionais serão contratados nos próximos dias.
Embora a empresa tenha crescido, a ideia é não se desvencilhar da proposta inicial. “A gente não consegue atender Joinville inteira e nem é nosso objetivo. Não adianta querer um salão cheio e perder nosso propósito”, fala Felipe. Hoje, a renda do casal vem totalmente da barbearia, negócio que também traz satisfação pessoal aos dois.
Diógenes, por exemplo, deixou a área da tecnologia, em que trabalhava há dez anos, para se dedicar ao negócio. Além disso, também se abriu para novas possibilidades. “Ele era retraído, nunca usaria maquiagem nessa vida, e ficou muito mais aberto a coisas novas”, conta Felipe. Além disso, ouvir e ver a satisfação dos clientes também traz mais sentido ao negócio.
“Temos uma cliente trans que iniciou a transição agora e vivia como um homem de cabelo comprido. Ela entra aqui vestida de homem, vai no banheiro e coloca a roupa feminina, corta o cabelo, vai no banheiro, coloca a roupa de menino de novo e vai pra casa porque ela vive em segredo. Então é o único momento que ela tem de se sentir mulher, de ser tratada no feminino”, fala Felipe.
Atendimento sem “juridiquês”, de mulher para mulher
Com 12 anos de carreira, a advogada Ana Paula Nunes Chaves não demorou a perceber situações machistas no dia a dia da profissão. Ela foi ensinada em casa a não aceitar a distinção entre homens e mulheres, mas sempre entendeu a dor que o machismo pode causar.
“O tratamento que meus colegas davam a algumas clientes era machista, como rir de determinadas situações, principalmente por questões da família, além de desmerecer a fala da mulher e também a mim como mulher negra”, lembra.
Foi então que, em 2016, surgiu a ideia de abrir um escritório exclusivamente para mulheres em Joinville, que acabou se tornando a primeira iniciativa como essa na cidade.
“Será que dá certo?”, pensou Ana na época. Ao pesquisar na internet, logo descobriu duas mulheres que já trabalhavam dessa forma em São Paulo e em Porto Alegre. Daí começou a planejar o novo negócio: “se já tem gente pensando assim, eu não estou errada”, relembra.
A ideia era criar um ambiente acolhedor, onde as mulheres pudessem ser ouvidas e que o “juridiquês” ficasse de fora. “Eu sou igual a ela. A diferença é que tenho a minha formação, mas estamos na mesma. Somos mulheres, temos os mesmos direitos. Uma está sendo violada e a outra está ali para ajudar”, destaca a advogada.
Ana Paula criou escritório de advocacia para mulheres após perceber machismo na profissão – Foto: Carlos Jr/NDNo início, porém, havia preocupação com o novo modelo de negócio. “Meu medo inicial foi uma rejeição: ‘como Joinville vai entender? Eu sou uma mulher negra, estou sozinha, não tenho família na área jurídica’. Mas foi muito boa a aceitação, melhor do que eu pensava”, conta.
No escritório, as questões de família são a principal demanda, como união estável, divórcio, guarda, adoção e alimentos. Além disso os casos de violência contra a mulher também são significativos.
Em todos os casos, um atendimento sensível às questões de gênero faz a diferença no acolhimento. Ela conta que essas demandas têm inclusive avançado no judiciário, com cadeiras específicas nos cursos de Direito, doutrina e código de leis para mulheres.
“É uma área que cresceu e hoje há várias advogadas que trabalham para mulheres”, fala. Apesar disso, ela reforça que é preciso mais, e isso inclui o entendimento de juízes nos casos de mulheres que têm filhos e passam por sacrifícios para sustentá-los.
Ana comemora o sucesso profissional e a satisfação pessoal – Foto: Carlos Jr/NDO atendimento de mulher para mulher faz o escritório ter sucesso, ainda que Ana não tenha a intenção de montar uma banca. “Foi uma guinada considerável na minha carreira, mas nunca quis crescer o escritório. Essa advocacia artesanal, como a gente diz hoje, é diferenciada, próxima, não é recorta e cola. O seu processo não é igual ao de ninguém”, destaca.
E se o sucesso profissional é uma realidade, o mesmo se pode dizer da satisfação pessoal. “Eu não só trabalho com o que eu gosto, mas sinto prazer no que eu faço. Tem uma questão social, política, uma questão da minha existência. O impacto é diário, eu me reconstruo e aprendo com elas”, salienta.
Democracia na base dos empreendimentos
Negócios como os de Diógenes, Felipe, Nara e Ana demonstram a importância de empresas que escapam do padrão, como explica Vânia Rego, mestre em Gestão e Políticas Educacionais, e consultora do Sebrae. “A sociedade não é homogênea e o empreendedorismo pode contemplar a diversidade”, destaca.
Apesar disso, ela alerta para a importância de um cenário democrático, que oportunize as mesmas condições para todos. “57% da população é negra e há mais negócios de negros ou de brancos? E quando há de negros, estão no mesmo patamar que os de brancos? Não tem a ver com a capacidade intelectual, mas com oportunidades”, pontua.
Ainda que as mulheres sejam 52,2% da população brasileira, um estudo do Sebrae mostra que elas representavam apenas 34% dos empreendedores no último quadrimestre de 2021. Já negócios de mulheres empregadoras somavam um número ainda menor no período, que correspondente a 13,6%.
Mas abrir um negócio não é por si só sinônimo de sucesso, já que muitas pessoas empreendem por necessidade. Prova disso vem do estudo Afroempreendedorismo Brasil, desenvolvido pela RD Station, Inventivos e o Movimento Black Money.
O levantamento mostra que 48,6% dos empreendedores negros ainda não haviam obtido renda com o negócio. Acesso a crédito e preconceito racial eram os maiores obstáculos, de acordo com os entrevistados.
Vânia destaca que é com suporte para formação e aporte financeiro que se cria um empreendimento de oportunidade – que se diferencia dos chamados empreendimentos de necessidade, que abrem margem para o trabalho informal.
“A tendência da falta de democracia é invisibilizar aquilo que não está normalizado como padrão aceitável. E qual é o padrão? É como se os pobres devessem empreender sempre por necessidade, sem a criação de oportunidades”, salienta a consultora.
Ainda que os empreendimentos da diversidade, como ela chama, ganhem espaço, essa não é a realidade total no Brasil atual. “Nem todas as pessoas estão buscando o que gostam, mas aquilo que precisam. É só quando se tem oportunidade e escolarização mínimas, a depender também do incentivo, que as pessoas tendem a criar um negócio com o qual elas têm afinidade”, explica.
Afinidade essa que impacta no empoderamento de empreendedores e clientes. “É o sentimento de ser acolhido e empoderado, não no sentido de olhar alguém de cima para baixo, mas de não olhar ninguém de baixo para cima”. Todos iguais.