‘Na pandemia, tivemos mais certeza de que estamos no caminho certo’, diz Luciano Hang

02/09/2022 às 06h00

Luciano Hang se transformou junto com sua Havan em um dos cases de maior sucesso no Brasil, apostando no varejo com dezenas de lojas físicas, mas sem esquecer de oferecer a opção de compras virtuais

Rosana Ritta Florianópolis

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Um balcão, um funcionário e um espaço de apenas 45 metros quadrados na avenida Primeiro de Maio, em Brusque. Assim, com esta humilde estrutura surgiu a loja Havan, fruto da sociedade do empresário Luciano Hang e do antigo sócio, Vanderlei.

O nome representa a união das iniciais dos nomes dos dois. Daquele pequeno espaço inaugurado em um período de grande dificuldade e de recessão econômica no país, hoje a Havan se tornou um fenômeno no varejo, com 168 lojas e a perspectiva de concluir o ano com 170.

Em 1994, a Havan ganhou a primeira grande e nova casa, de 7 mil m², inspirada na sede do governo dos Estados Unidos, adotando o slogan de “A Casa Branca Brasileira”.

Um ano depois, começou a ganhar o Brasil, com a inauguração da primeira filial, em Curitiba, seguindo o mesmo estilo arquitetônico. Neste mesmo ano, foi erguida em Brusque a Estátua da Liberdade, que se torna símbolo da rede de lojas e está presente na maioria de suas unidades.

No ano passado, ao completar 35 anos, a rede informou o registro de faturamento recorde de R$ 13 bilhões, filiais em 21 Estados brasileiros, e no Distrito Federal e 22 mil colaboradores.

Em paralelo ao crescimento da rede, mais recentemente – de 2016 em diante – a figura de Luciano Hang ganhou popularidade. Ele passou a aparecerem programas de entrevistas e games na televisão e até mesmo protagonizar comerciais. Se tornou um personagem, com a criação do “Véio da Havan”.

Hang também é conhecido pela posição política em defesa do atual governo federal e até mesmo por adotar, além dos símbolos norte-americanos, mais recentemente as cores verde e amarelo da bandeira brasileira em suas vestes e nos uniformes dos funcionários. Hoje, figura como um dos homens mais ricos do país. Fenômeno na internet e pai dedicado, Hang conversou com a jornalista Vanessa no início deste mês. Confira a entrevista.

De Brusque, Hang expande sua rede pelo Brasil, enquanto cultiva o personagem “Véio da Havan” – Foto: FOTOS REPRODUÇÃO FACEBOOK/NDDe Brusque, Hang expande sua rede pelo Brasil, enquanto cultiva o personagem “Véio da Havan” – Foto: FOTOS REPRODUÇÃO FACEBOOK/ND

Conforto, fidelização e oferecimento de experiência única ao cliente passam a ser prioridades nas relações de comércio

Como serão as lojas físicas e virtuais do futuro? Como a tecnologia irá afetar as relações de consumo? Qual é o varejo do futuro?

Durante e depois da pandemia, tivemos cada vez mais a certeza que estamos no caminho certo. Distribuímos nossas lojas pelo interior do Brasil.

Vendemos muito e, automaticamente, temos um custo-benefício que nos tornou uma das empresas mais competitivas do varejo no Brasil. O que precisamos é ter o menor atrito possível com o cliente.

Ele tem que comprar da maneira que achar mais confortável. Tem uma frase que gosto que diz que “não se muda hábito por imposição, mas, sim, por uma experiência espontânea”.

E a gente notou isso há muitos anos, por isso, temos uma loja onde as pessoas vão para passear, levar a família e, também, para comprar. É isso que estamos fazendo a vida toda.

Se notarmos que nosso cliente quer comprar mais pelo online, vamos disponibilizar tudo o que for possível para isso, mas queremos também no offline, nas lojas físicas, oferecer uma experiência única para encantar nosso cliente.

Como estamos quando o assunto é infraestrutura, capacitação, tecnologia, inovação?

Como gosto de dizer, nós não temos medo do futuro, porque somos o futuro. Desde o princípio pensamos em montar uma empresa de varejo que atendesse às necessidades dos nossos clientes. Levamos a Havan para cidades pequenas e médias, onde se tornaram centros de turismo, lazer e compras, tendo até cinemas em algumas lojas.

Oferecemos 350 mil produtos dando condições de várias formas de pagamento, estacionamento, lojas climatizadas, visuais que enchem os olhos do cliente, com bom relacionamento, levando a tecnologia para que o cliente possa ser bem atendido, fazendo com que os atritos sejam os mínimos possíveis

Na condução dos negócios, quais lições a pandemia tem deixado?

Acho que a pandemia nos ajudou a andar mais rápido nas tecnologias, mas temos loja online desde2003 e sempre nos atualizamos para entregar aos nossos clientes o que tiver de mais moderno no mundo. Seguimos esta tendência de ‘omnicanalidade’ para atender às necessidades dos nossos clientes.

Quais são os desafios que você, Luciano Hang, enfrenta no cotidiano e como os tem vencido?

O Brasil é um país de uma burocracia enorme e o que nós sofremos é o que todo brasileiro empreendedor sofre: um índice elevado de burocracia estatal que resulta na dificuldade para empreender.

Mas, com 36 anos de experiência, sabemos que temos que ter muitos projetos para que alguns sejam feitos dentro do espaço que possuímos para produzir.

Há discussões sobre apagão demão de obras em vários setores. Como você lida com esse desafio?

Nós não temos problemas com mão de obra. Pagamos um salário diferenciado, o melhor salário do varejo brasileiro, distribuímos lucro, fomos reconhecidos pelo GPTW (Great Place to Work) como melhor empresa para se trabalhar no Brasil.

Trabalhamos o nosso colaborador para que se sinta da melhor maneira possível na nossa empresa. Então, por todo o Brasil, cada vez que abrimos uma nova loja temos um volume descomunal de 300 a500 candidatos por vaga na abertura. Depois, quando começamos a trabalhar, nunca tivemos dificuldade em nenhuma praça brasileira para encontrar mão de obra.

O país é feito de pequenos empreendedores que movimentam a economia, mas muitos CNPJs morrem nos primeiros anos de vida. É necessário que tipo de apoio para esses empreendedores? Financeiro? De gestão? Treinamento?

A alta mortalidade de empreendedores no Brasil ocorre em função dos excessos de burocracia. Por isso, tenho trabalhado para que o governo atrapalhe menos. Não é ajudar. É não atrapalhar.

É normal que desapareçam empreendedores devido à dificuldade no Brasil de empreender, mas também tem grandes oportunidades, porque quem consegue ser comprometido, disciplinado e perseverante, consegue se estabelecer no mercado.

Você é referência para muitos no Brasil por ser uma das principais lideranças empresarias referência em gestão. Ao longo da sua trajetória, quais foram os desafio se como eles te fortaleceram?

Aquela frase que diz para tirar o S da crise e criar, é verdadeira. Cada grande crise econômica que eu passei desde a abertura, em 1986,me fortaleceu.

Já no início teve o Plano Cruzado – Plano de Estabilização Econômica conhecido popularmente como “Plano Cruzado”, criado em fevereiro de 1986 durante o governo de José Sarney, com o objetivo de estabilizar a inflação com uma nova moeda -, onde não tinha mercadoria para vender, enfrentávamos altas taxas de inflação e altas taxas de juros, depois vieram a queda do mercado financeiro em 2008, a crise econômica de2015/2016, todas estas situações me fizeram focar mais nas soluções.

Todos temos os mesmos problemas, mas é preciso arranjar maneiras de driblar as dificuldades. Todas as vezes, nas grandes dificuldades, saímos mais fortes e nos anos subsequentes crescemos em níveis muito rápidos. Por isso, a minha dica é não focar nos problemas, porque sempre tem uma solução. Quem mais persistir, quem mais perseverar conseguirá passar e ficar mais forte.

As tendências de consumo do futuro apontam para o comércio virtual. Entretanto, você é referência em comércio apostando em lojas físicas, com investimentos robustos no setor. Vai continuar investindo nelas?

A tendência do futuro é o omnichannel – estratégia de vendas que integra diferentes canais de comunicação e divulgação, oferecendo aos clientes uma experiência demarca unificada -, ou seja, é ter este canal em que o cliente possa escolher onde quer comprar. É justamente isso que a Havan tem: ótima loja física em que as compras feitas nos canais digitais podem ser retiradas na megaloja mais próxima, sem custo extra; ou ainda a opção de comprar em uma das lojas físicas e receber o produto em casa, como for mais confortável ao cliente.

Você tem planos de expansão para o mercado virtual?

Nós continuamos investindo em lojas físicas e virtuais, pois queremos dar aos nossos clientes uma experiência única, para que ele possa escolher de que forma quer comprar.