Nos tempos em que contava com um porto importante e exportava produtos para outras regiões do país e nações vizinhas, Florianópolis foi sede de uma unidade de fabricação e reparo de embarcações que entrou para a história da cidade e ainda é muito lembrada por antigos moradores.
O estaleiro Arataca funcionou em Florianópolis entre 1907 e 1964 e respondeu especialmente pela manutenção de embarcações do empresário Carl Hoepcke – Foto: Instituto Carl Hoepcke/Divulgação/NDO estaleiro Arataca funcionou entre 1907 e 1964 e respondeu especialmente pela manutenção de embarcações do empresário Carl Hoepcke, que fundou em 1895 a ENNH (Empresa Nacional de Navegação Hoepcke) e foi um dos principais protagonistas da industrialização de Santa Catarina no século passado.
O estaleiro foi construído numa pequena praia também batizada de Arataca, que tinha cerca de 200 metros de extensão, ao lado da cabeceira insular da ponte Hercílio Luz. Ali, depois, funcionou o bar Arataca e hoje está o restaurante Pier 54, próximo a ranchos de pesca que continuam ativos e a algumas casas que resistiram às transformações provocadas pela duplicação da avenida Beira-mar Norte.
SeguirO estaleiro era composto por cinco edificações que abrigavam oficinas de soldagem, fundição e carpintaria, depósitos e 135 metros de trilhos para puxar os barcos para a terra, inclusive os de grande porte, de mais de mil toneladas, como o Carl Hoepcke, a grande estrela da companhia de navegação.
Galpões da empresa Hoepcke – Foto: Instituto Carl Hoepcke/Divulgação/NDEm 1952, segundo a historiadora Sara Regina Poyares dos Reis, a unidade ocupava uma área de 15 mil metros quadrados e empregava 114 funcionários, incluindo mestres de larga experiência que com a desativação do estaleiro foram colocados à disposição do 5º Distrito Naval.
Ali perto, a empresa Hoepcke manteve uma fábrica de pregos e outra de gelo, que também eram transportados por via marítima para outros pontos da Ilha e do litoral. Com o tempo, o estaleiro passou a construir veleiros para competições oceânicas e barcos para outras empresas de navegação.
Como o terminal era muito utilizado para o transporte de passageiros – os navios iam para o Rio de Janeiro e paravam nos portos de Itajaí, São Francisco do Sul, Paranaguá e Santos –, aquela era uma das áreas mais movimentadas da cidade. Os jornais da época noticiavam o embarque de famílias mais abastadas que se dirigiam ao Rio, então capital da República, em navios equipados com salão de festas e piano-bar.
O embarque e o desembarque dos passageiros eram acontecimentos que paravam a cidade, porque ligavam a Ilha de Santa Catarina à metrópole que ditava a moda e era sinônimo de charme e poder na visão dos brasileiros de outras regiões do país.
Embarcações para competições de vela
No livro “Carl Hoepcke – A marca de pioneiro”, a historiadora Sara Regina dos Reis conta que, além da manutenção dos navios da companhia, o estaleiro tinha capacidade para construir embarcações de calado regular e barcos de competição, e costumava chamar trabalhadores extras para dar conta quando a demanda aumentava.
Em 1961, o Arataca cortou ao meio um navio chamado Caeté, que a CNNH conseguiu reaver após ser abandonado por uma empresa de Belém do Pará que o havia adquirido. De autoria do engenheiro italiano Arturo Boncenso, o projeto aumentou o tamanho da embarcação de 50 metros para 61,40 metros, mais que duplicando a capacidade de carga.
O remo era o esporte que movimentava Florianópolis e torcedores no começo do século XX. – Foto: Reprodução/NDNuma época em que o remo e a vela eram os esportes mais praticados em Florianópolis, o estaleiro passou a fabricar veleiros de competição da chamada Classe Brasil, que participaram de muitas regatas até Buenos Aires e Rio de Janeiro.
Antes disso, na década de 1940, o então governador Aderbal Ramos da Silva, genro de Carl Hoepcke, mandou construir no estaleiro o iate Annita, em homenagem à sua filha mais velha. O barco tomou parte de muitas competições, inclusive a regata Buenos Aires- Rio, abrindo mais um flanco de trabalho para o Arataca, que passou a receber encomendas de velejadores e empresários do centro do país.
Uma orla pródiga em trapiches
O acervo do Instituto Carl Hoepcke conta com fotografias do estaleiro, do porto desativado e das embarcações da companhia e de outros operadores marítimos. Ali, assim como em toda a orla, havia vários trapiches, incluindo os que atendiam as demandas da antiga alfândega, do Mercado Público e os que ficavam no bairro Rita Maria. Hoje, os frequentadores do Pier 54 podem ver fotos do antigo estaleiro, exibidas em suas paredes.
“Os trapiches, que hoje permanecem apenas nas fotografias, nas telas dos pintores da época ou na lembrança daqueles que os conheceram, localizavam-se junto ao porto”, escreveu Sara Regina Poyares dos Reis em seu livro. “As mercadorias retiradas dos navios seguiam para o depósito [onde fica hoje o Armazém Rita Maria], à espera dos comerciantes que as iam buscar, ou (…) eram levadas por pequenos vagões para outro depósito situado na rua Deodoro”.
Também o Moinho Joinville e o Lloyd operavam na região, em trapiches que ficavam no Estreito, na parte continental da cidade, onde o canal era mais profundo e facilitava as manobras das embarcações. Ali perto, onde funciona a companhia pesqueira Pioneira da Costa, a firma Hoepcke tinha outro trapiche onde eram depositados os produtos inflamáveis da empresa Shell.Hoje, a maioria dos moradores de Florianópolis não conhece e nem circula pela orla onde ficava o estaleiro Arataca.
O antigo acesso era feito por uma rua que passava perto do monumento a Hercílio Luz, perto da ponte que leva o nome do ex-governador. A área foi desapropriada pelo Estado e tombada pela Prefeitura de Florianópolis e em 2014 ocorreu a demolição das paredes do estaleiro, onde costumavam se reunir se vândalos e usuários de drogas.
Âncora exposta no Armazém Rita Maria – Foto: Instituto Carl Hoepcke/Divulgação/NDA empresária Patrícia Grillo, filha de Annita Hoepcke e neta de Carl Hoepcke, informa que o leme, a grande bússola e o timão do navio Carl Hoepcke estão expostos no Armazém Rita Maria, próximo à área onde ficavam os galpões da empresa. “Onde está o restaurante Pier 54 era a oficina dos barcos e ainda pertence à Hoepcke, que na realidade passou para o nome da empresa pertencente a um dos sócios”, diz Patrícia.
Curiosidades
– Além dos vapores de maior porte, a Cia. Hoepcke chegou a ter mais de 20 lanchas, chatas e iates com os quais fazia o transporte entre Florianópolis e São Francisco do Sul, chegando a entrar em Joinville, por meio do rio Cachoeira, com mercadorias destinadas a cidades do interior daquela região;
– A Carl Hoepcke & Cia. trazia os motores da Alemanha e construía os barcos no estaleiro. No início da década de 1920, os navios da empresa Hoepcke ajudaram a trazer materiais importados para a construção da ponte Hercílio Luz;
– Além do encerramento das atividades do porto de Florianópolis, contribuiu para o fim do estaleiro Arataca a construção do aterro da Baía Sul, que reduziu o contato do centro histórico da cidade com o mar;
– Passageiros de Laguna, cidade também servida por um porto, vinham até a Capital pelos vapores Max e Meta, da ENNH, e então embarcavam para as outras cidades do país nos navios maiores da companhia (Carl Hoepcke, Max e Anna);
– Segundo a historiadora Sara Regina Poyares dos Reis, o termo arataca vem do tupi-guarani e pode designar uma espécie de beija-flor e também um tipo de armadilha indígena usada para capturar pequenos pássaros e animais;
– O Rio de Janeiro era o destino de muitos passageiros que queriam conhecer e desfrutar das belezas da “Cidade Maravilhosa”. Pelo menos três vezes por mês os navios da Hoepcke faziam essa rota. O Rio era referência para tudo no Brasil: o Carnaval, a imprensa, a sociedade, o futebol, Vasco da Gama, Flamengo e Botafogo, times pelos quais torciam nove em cada dez florianopolitanos.