Pesquisadores apontam o que fazer para evitar novo apagão em SC

Bandeira da escassez hídrica, com taxa extra que passou para R$ 14,20 em cada 100 KWh, entrou em vigor na última quarta-feira (1º)

Marcos Jordão Florianópolis

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A pior crise hídrica que o Brasil vive nos últimos 91 anos agrava ainda mais o financeiro dos consumidores por conta do aumento na conta de luz, a partir desta quarta-feira (1°). Dessa forma, começa-se a levantar a possibilidade de racionamento e um novo apagão em Santa Catarina.

Imagem mostra ponte Hercílio Luz, em Florianópolis (SC), apagada para ilustrar o apagãoPesquisadores apontam o que fazer para evitar novo apagão em SC  – Foto: Gustavo Bruning/ND

Além disso, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), não descartou a possibilidade de um possível racionamento.

“O que eu tenho acompanhado é que o governo tomou as medidas necessárias, criou uma comissão para acompanhar e tomar as decisões a tempo e a hora no sentido de impedir que ocorra isso aí que você [repórter] colocou, que haja apagão. Agora, pode ser que tenha que ocorrer algum racionamento. O próprio ministro [de Minas e Energia] disse isso”, explica Hamilton Mourão.

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Como disse o vice-presidente, uma das decisões tomadas foi a criação da bandeira de escassez hídrica. Dessa forma, a taxa extra passou para R$ 14,20 para para cada 100 kilowatt-hora (KWh) consumidos até abril de 2022.

Imagem mostra bandeiras e suas taxas cobradasBandeiras tarifárias da conta de luz. Atualmente, o Brasil está na preta – Foto: Celesc/Reprodução/ND

“A falta de chuva nas áreas de reservatórios das matrizes é o principal fator para a crise elétrica. Por conta disso, a geração de energia é menor e o governo acaba precisando utilizar outras fontes com o custo de aquisição mais alto, sendo repassado para o consumidor”, explica o economista Guilherme Alano.

Além do uso consciente, os pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) alertaram para a imediata necessidade de reduzir o consumo de energia para evitar cenários ainda piores que o aumento na conta de luz.

“Trata-se agora de adotar medidas de redução do consumo, especialmente nas residências e prédios públicos, para tentar evitar o cenário catastrófico de um apagão energético no Brasil em alguns meses”, aponta o grupo de pesquisadores.

De acordo com a Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina), a produção de energia por meio térmico representa 22% da produção total no Brasil.

Para o economista Guilherme Alano, os próximos meses serão essenciais para entender a melhora da situação hídrica no Brasil e saber quais os próximos passos serão adotados.

“Se, de fato, não voltar a chover, vem o aumento de preços e o incentivo para o consumo consciente, como vem acontecendo. Em seguida, os cortes esporádicos e o racionamento de energia. Em último caso, onde avalio que seja bastante improvável, vem o apagão”, explica.

É preciso diversificar a geração de energia

Segundo o grupo de pesquisa da Sinergia da UFSC, uma das maneiras de evitar um possível racionamento e apagão é o investimento em energias renováveis e usinas híbridas, aquelas que usam mais de uma fonte renovável de forma complementar, por exemplo, uma usina que gera energia solar durante o dia e eólica à noite.

Imagem mostra coletor de energia eólicaEnergia eólica é responsável por apenas11% da produção no Brasil – Foto: Freepick/ND

“A maior parte destas estratégias, infelizmente, só são possíveis no longo prazo, pois a instalação de novas usinas ou até o desenvolvimento tecnológico demora tempo e, portanto, no curto prazo, ainda estaremos vulneráveis a essas flutuações climáticas e ao regime de chuvas”, avaliam, conforme nota.

Enquanto a produção de energia hidráulica representa 65% no Brasil, apenas 13% são renováveis, sendo 2% solar e 11% eólica. Mesmo com a impossibilidade de adotar novas medidas em pouco tempo, os pesquisadores apontam estratégias que poderiam ser adotadas para incentivar a produção de energia eólica e solar.

“Modelos de negócio que facilitassem o acesso a essas tecnologias, como por exemplo, cooperativas de geração solar, onde vários usuários/consumidores se reúnem para ter ganhos de escala na produção de energia solar enquanto os custos são diluídos”, sugerem os pesquisadores no documento.

Geradores distribuídos também contribuem na capacidade instalada do sistema elétrico nacional, o que poderia diminuir a possibilidade de novas crises energéticas no futuro.

“Em caso de queda de energia devido ao rompimento de um cabo de transmissão, geradores distribuídos podem operar de modo a fornecer energia em substituição à geração principal”, avalia o professor Tiago Davi Curi Busarello.

Melhorias na rede operacional

De acordo com o grupo de pesquisadores da UFSC, outro fator apontado como solução possível para melhorar a eficiência operacional dos sistemas de energia elétrica é a utilização de redes inteligentes, ou seja, são sistemas de distribuição e de transmissão de energia elétrica que utilizam recursos de tecnologia da informação e automação.

Dessa forma, são capazes de identificar e atuar para melhoraria da eficiência operacional nos quesitos estabilidade, confiabilidade e fornecimento ininterrupto de energia elétrica.

“A geração distribuída inteligente geralmente possui uma fonte renovável de energia como fonte primária. A energia gerada é processada e injetada no sistema elétrico no ponto de conexão do gerador distribuído”, complementa o professor.

Até quando deve permanecer a estiagem?

De acordo com o meteorologista catarinense Piter Scheuer, o período de estiagem já era esperado por conta do período do ano e devido a passagem da La Niña, responsável pelo resfriamento das águas do oceano Pacífico equatorial.

“À medida que vamos passando pela neutralidade e passando pelo La Niña, as chuvas podem regularizar, mas está previsto apenas para o ano que vem. Portanto a estiagem prossegue em Santa Catarina”, complementa o meteorologista.

O fenômeno faz com que ocorra certa interferência de massas de ar, tanto quentes quanto frias, provocando variação nas temperaturas. Isto é, momentos de aquecimento e de temperaturas mais amenas. Dessa forma, é esperado chuvas irregulares e, possivelmente abaixo da média em todo o Estado.

“Chuva vai ter, mas de uma maneira bastante mal distribuída. Enquanto numa determinada região, por exemplo, ocorre uma pancada com trovoada associada a temporal – típico da primavera – em um área vizinha há pouca chuva e só aumento de nuvens”, exemplifica Piter.

O que diz a Celesc

A Celesc relembrou a publicação do decreto do governo federal que estabelece ações para a redução do consumo de energia elétrica na administração pública federal e o programa para redução voluntária da demanda por grandes consumidores, por exemplo, as indústrias.

Questionada pela reportagem do ND+ sobre a possibilidade de um novo apagão em Santa Catarina, a Celesc informou que segue a projeção do Governo Federal e do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), ou seja, que, no momento, descarta essa chance.

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