Cervejarias artesanais de Santa Catarina estão enfrentando a escassez de garrafas. A alta demanda, encarecimento e falta das embalagens provoca a chamada “ruptura”. Este é um dos traços da crise enfrentada pelo ramo da bebida artesanal, considerada pelos cervejeiros como a pior desde que o ramo começou a se consolidar nas duas últimas décadas em SC.
Cervejeiros artesanais veem aumento no preço da embalagem, dos insumos e no frete dos produtos- Foto: Arquivo/Daniel Queiroz/ND/As grandes marcas, por reservarem produção, acabam ilesas à crise. Aos produtores pequenos o cenário exige mudança: é o que ocorre, por exemplo, com o cervejeiro Carlo Lapolli, ex-presidente da Acasc (Associação das Microcervejarias Artesanais de Santa Catarina) e da Câmara Setorial da Cerveja do Ministério da Agricultura.
A principal cerveja que a sua empresa vende está “represada” pela falta das garrafas de de 750m – quando encontradas, a unidade é vendida por R$ 4,00, quase o dobro do valor anterior (R$ 2,15).”O que acontece é que muitas empresas abandonam a garrafa e passam a comprar lata”, explica Lapolli.
SeguirEle estima que desde o início da pandemia de Covid-19 as garrafas de vidro encareceram 30%. Um novo aumento está programado para o próximo dia 1º, avaliado em 16,99%. A embalagem de papelão e o frete também passaram a pesar mais no bolso dos cervejeiros. “Acabamos não repassando o aumento no preço do cliente pois acaba não vendendo”.
Outra alternativa adotada é o abandono das garrafas e a escolha de manter o produto apenas em barris. O que acaba não contornado todo problema do encarecimento: cervejeiros contam que antes da pandemia os barris chegavam a custar menos de R$ 500. Hoje é pago mais de R$ 950.
Escassez de garrafas
Para Lucien Belmonte, presidente da Abividro (Associação Brasileira das Indústrias de Vidro), dois processos contribuem tanto para o aumento do valor como para a falta do produto: está mais caro produzir vidro e hoje há uma demanda muito maior que no início da pandemia.
“Os dois maiores custos na produção são a barrilha e o gás natural, ambas cotadas em dólar. No dia 2 de janeiro de 2020 o dólar estava R$ 4,03. Agora estamos em R$ 5,70. As importações encareceram mais de 45% desde 2020”, ressalta.
O aumento da moeda norte-americana também diminuiu as importações de embalagens, tornando o mercado interno ainda mais dependente da produção de vidro brasileira. O que provou aumento dos pedido – o que no fim prejudicou diretamente os pequenos cervejeiros.
“As grandes empresas fazem contrato de fornecimento. As pequenas (sem contrato e comprando quando há demanda) chegam na véspera de verão e não tem mais. Quem compra 100 milhões (grandes empresas) é diferente de quem compra 150 mil. Nos outros também anos haviam mais cervejarias importando garrafas, agora não”, afirma.
Dois passos para trás
Outras alternativas adotadas além de comprar diretamente das fábricas de vidro é a aquisição das garrafas de fornecedores ou por meio da importação. Mas o frete cobrado para trazer garrafas da China ou Argentina está insustentável – o combustível ficou mais caro.
É um dos tantos fatores que tornaram a produção das cervejas artesanais ainda mais complicada. Há também aumento nos insumos para a produção, como o malte e lúpulo. “Estamos perdendo a competitividade com as grandes empresas”, avalia Valmir Antonio Zanetti, presidente da Associação Vale da Cerveja e dono da Cerveja Blumenau.
Produtor de cervejas há uma década, Zanetti precisou diminuir os tipos de garrafas utilizados na empresa. “Já estávamos trabalhando para reduzir. Mas esse processo acelerou com a pandemia”, afirma. A escassez só não virou realidade pois ele já tinha contrato de entrega com uma fabricante.
Para ele, as cervejarias artesanais que passaram a se consolidar em Santa Catarina no início dos anos 2000 agora terão um 2022 de retração.
“Pequenas cervejarias que sonhavam em virar regionais e ‘estender tentáculos’ vão ter que ficar restritas ao âmbito municipal. Vai ser o jeito de ficarem vivas. É que nem um salto: terão que dar dois ou três passos pra trás e só depois conquistar espaço”.