Revolta e incerteza: comerciantes de Porto Alegre juntam cacos após enchente

20/05/2024 às 05h30

Setor acredita que retomada pode começar na semana que vem, mas ainda com atividade reduzida em decorrência da dificuldade no abastecimento de produtos

Vivian Leal, Especial de Porto Alegre Florianópolis

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Os bairros mais antigos e boêmios de Porto Alegre foram diretamente impactados pela enchente que atinge o Rio Grande do Sul. Comércios, bares e restaurantes foram completamente devastados pela força da água. Na Cidade Baixa, proprietários começam a limpeza e avaliação dos prejuízos deixados pela catástrofe.

Rua de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente – Foto: Vivian Leal/NDRua de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente – Foto: Vivian Leal/ND

Prejuízos da enchente no RS

O muro da garagem administrada pelo senhor José João da Costa, rua Luiz Afonso, caiu e agora ocupa parte da calçada do estabelecimento. “A água aqui chegou a mais de um metro de altura. Com a passagem dos barcos e das motos aquáticas, as ondas foram batendo no muro e ele não aguentou. Só pra construir de novo vai, pelo menos, uns R$ 30 mil”, acredita.

Também na Cidade Baixa, o Espaço Cultural 512 e a Cachaçaria da Chica, ambos administrados pelo empresário Guilherme Carlin, somam prejuízos acima dos R$ 200 mil.

“Fizeram aviso de evacuação do bairro horas depois de terem desligado as bombas [de escoamento da água], isso é um prejuízo incalculável para toda cidade, foram muitos bairros afetados e isso poderia ter sido evitado. É muito revoltante. Muito provavelmente, a gente vai ter que transferir a produção pra Santa Catarina e procurar um novo modelo de negócio”, relatou.

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    Espaço Cultural 512 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
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    Espaço Cultural 512 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
    Espaço Cultural 512 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND

Parte dos bairros Menino Deus e Cidade Baixa ficou completamente alagada depois que a CEEE Equatorial desligou a estação de bombeamento que faria a drenagem da região, sem informar a Prefeitura de Porto Alegre, o que impediu aviso à população e, consequentemente, a retirada de mobiliário, estoque e outras medidas para evitar perdas maiores nos estabelecimentos comerciais.

Levantamento divulgado nesta sexta-feira (17), pela Associação Comercial de Porto Alegre, aponta que bares e restaurantes reduziram o faturamento em 46,2% desde que as chuvas começaram na capital.

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    Cachaçaria da Chica em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
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    Cachaçaria da Chica em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
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    Cachaçaria da Chica em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
    Cachaçaria da Chica em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND

Laucir Dalmoro, proprietário do restaurante Refúgios, no Centro Histórico de Porto Alegre, está há 22 anos no endereço e nunca tinha visto nada parecido. “A água entrou, atingiu banheiros, balcão, consegui erguer freezeres, mas os balcões, que são fixados no chão, não teve o que fazer. Agora que a gente está começando a lavar, limpar tudo, pra saber qual foi o prejuízo. Vamos tentar voltar, né?!”, diz o empresário.

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    Restaurante Refúgios em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
    Restaurante Refúgios em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
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    Restaurante Refúgios em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
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Também na Rua dos Andradas, o empresário Felipe Guedes trabalha na limpeza da cafeteria Quiero Café. Desde o dia 2 de maio, ele vai, diariamente, conferir o nível da água na Rua dos Andradas, que invadiu o estabelecimento e impede o funcionamento desde então.

“Nós fechamos logo que vimos os primeiros alertas da Defesa Civil. A parte boa é que conseguimos doar 95% da comida congelada e resfriada, então a gente não considera prejuízo porque ajudamos outras pessoas. A gente tem que ser positivo, se não fecha as portas e ninguém volta a trabalhar”, afirma Guedes.

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    Cafeteria Quiero Café em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
    Cafeteria Quiero Café em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Vivian Leal/ND
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    Cafeteria Quiero Café em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Comerciantes após enchente no Rio Grande do Sul Image 2024-05-17 at 17.36.44
    Cafeteria Quiero Café em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente - Comerciantes após enchente no Rio Grande do Sul Image 2024-05-17 at 17.36.44

Segundo dados da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), no Rio Grande do Sul, 18% dos empresários do setor tiveram perda parcial no estabelecimento e outros 7% registraram perda total. “As grandes dificuldades do setor são com a equipe, estamos tentando ajudar quem perdeu tudo ou quem foi atingido de alguma forma. Por isso, quitar salários é muito importante, para que as pessoas tenham mais possibilidade nessa hora”, destaca João Melo, presidente da Abrasel no Estado.

Até o momento, segundo a entidade, os estragos causados pela tragédia climática deixam 66% das empresas com falta de água e 35% sem energia elétrica. Além da parcela que teve dano patrimonial ou interrupção nos serviços básicos, 74% indicaram dificuldades para conseguir suprimentos como alimentos e bebidas.

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