Os bairros mais antigos e boêmios de Porto Alegre foram diretamente impactados pela enchente que atinge o Rio Grande do Sul. Comércios, bares e restaurantes foram completamente devastados pela força da água. Na Cidade Baixa, proprietários começam a limpeza e avaliação dos prejuízos deixados pela catástrofe.
Rua de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após enchente – Foto: Vivian Leal/NDPrejuízos da enchente no RS
O muro da garagem administrada pelo senhor José João da Costa, rua Luiz Afonso, caiu e agora ocupa parte da calçada do estabelecimento. “A água aqui chegou a mais de um metro de altura. Com a passagem dos barcos e das motos aquáticas, as ondas foram batendo no muro e ele não aguentou. Só pra construir de novo vai, pelo menos, uns R$ 30 mil”, acredita.
Também na Cidade Baixa, o Espaço Cultural 512 e a Cachaçaria da Chica, ambos administrados pelo empresário Guilherme Carlin, somam prejuízos acima dos R$ 200 mil.
“Fizeram aviso de evacuação do bairro horas depois de terem desligado as bombas [de escoamento da água], isso é um prejuízo incalculável para toda cidade, foram muitos bairros afetados e isso poderia ter sido evitado. É muito revoltante. Muito provavelmente, a gente vai ter que transferir a produção pra Santa Catarina e procurar um novo modelo de negócio”, relatou.
Parte dos bairros Menino Deus e Cidade Baixa ficou completamente alagada depois que a CEEE Equatorial desligou a estação de bombeamento que faria a drenagem da região, sem informar a Prefeitura de Porto Alegre, o que impediu aviso à população e, consequentemente, a retirada de mobiliário, estoque e outras medidas para evitar perdas maiores nos estabelecimentos comerciais.
Levantamento divulgado nesta sexta-feira (17), pela Associação Comercial de Porto Alegre, aponta que bares e restaurantes reduziram o faturamento em 46,2% desde que as chuvas começaram na capital.
Laucir Dalmoro, proprietário do restaurante Refúgios, no Centro Histórico de Porto Alegre, está há 22 anos no endereço e nunca tinha visto nada parecido. “A água entrou, atingiu banheiros, balcão, consegui erguer freezeres, mas os balcões, que são fixados no chão, não teve o que fazer. Agora que a gente está começando a lavar, limpar tudo, pra saber qual foi o prejuízo. Vamos tentar voltar, né?!”, diz o empresário.
Também na Rua dos Andradas, o empresário Felipe Guedes trabalha na limpeza da cafeteria Quiero Café. Desde o dia 2 de maio, ele vai, diariamente, conferir o nível da água na Rua dos Andradas, que invadiu o estabelecimento e impede o funcionamento desde então.
“Nós fechamos logo que vimos os primeiros alertas da Defesa Civil. A parte boa é que conseguimos doar 95% da comida congelada e resfriada, então a gente não considera prejuízo porque ajudamos outras pessoas. A gente tem que ser positivo, se não fecha as portas e ninguém volta a trabalhar”, afirma Guedes.
Segundo dados da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), no Rio Grande do Sul, 18% dos empresários do setor tiveram perda parcial no estabelecimento e outros 7% registraram perda total. “As grandes dificuldades do setor são com a equipe, estamos tentando ajudar quem perdeu tudo ou quem foi atingido de alguma forma. Por isso, quitar salários é muito importante, para que as pessoas tenham mais possibilidade nessa hora”, destaca João Melo, presidente da Abrasel no Estado.
Até o momento, segundo a entidade, os estragos causados pela tragédia climática deixam 66% das empresas com falta de água e 35% sem energia elétrica. Além da parcela que teve dano patrimonial ou interrupção nos serviços básicos, 74% indicaram dificuldades para conseguir suprimentos como alimentos e bebidas.