Frita, assada ou em postas. Existem muitas maneiras de se preparar uma tainha. Independente da preferência, o importante é que o pescado aquece a economia catarinense entre maio e junho. Os pescadores, as peixarias, as empresas de logística, os restaurantes e as indústrias de beneficiamento ganham diretamente com a comercialização do peixe e das ovas. O assessor técnico do Sindipi (Sindicato dos Armadores e das Indústrias de Pesca de Itajaí e Região), Marco Aurélio Bailon, estima que foram pescadas 7.000 toneladas de tainha em Santa Catarina no ano passado – na pesca artesanal e industrial. Com média de R$ 8 por quilo, a economia catarinense recebeu mais de R$ 56 milhões que, literalmente, saíram do mar. Sem considerar o que é exportado com as ovas. Infelizmente, não há informações precisas da importância deste tipo específico de pescado para a economia do Estado.

A temporada da tainha começou no dia 1º com a pesca artesanal, que em 2016 capturou 3.542 toneladas. Mesmo ainda sem grandes lanços este ano, a tainha está no Mercado Público, nos balcões das 13 peixarias e nos cardápios dos 13 restaurantes. “A tainha muda a cara da cidade. Durante as próximas semanas vendemos basicamente a tainha, porque ninguém quer saber da garoupa ou do salmão. Quando a mídia divulga um lanço, as pessoas vêm à procura do peixe fresco”, diz o comerciante Marcelo Jacques, 46 anos, dono de três peixarias. A pesca da tainha é tão importante para Santa Catarina que desde 2012 é patrimônio cultural imaterial do Estado.
O presidente da Abrasel-SC (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Raphael Dabdab, informa que o aumento no movimento em bares e em restaurantes em busca da tainha depende do preço. Com a supersafra, o preço do pescado cai e os estabelecimentos têm como oferecer a iguaria a um valor mais atraente ao consumidor. “A procura tem relação direta com o custo da matéria-prima. Com mais tainhas no mercado, o preço do prato fica mais competitivo e a consequência é a de atrair mais consumidores”, afirma.
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O QUILO DA TAINHA
Preços nas peixarias do Mercado Público
Sem ova: R$ 10 a R$ 12
Com ova: R$ 15 a R$ 18
Ova: R$ 40 a R$ 50
Indústria pesqueira reclama da redução das licenças
Desde 2015, o governo federal colocou em ação o plano de manejo da tainha. O objetivo é reduzir o volume pescado para a perpetuação da espécie. Segundo a ONG Oceana Brasil, a quantidade de tainha retirada da água nos últimos anos tem sido maior que a capacidade biológica que a população tem de se recuperar. Essa decisão acertou em cheio a indústria pesqueira e parte dos pescadores artesanais.
Este ano, o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que passou a abrigar a pasta da pesca, publicou a instrução normativa liberando 32 licenças para embarcações das indústrias e 62 para as artesanais. “Não querem que a indústria continue pescando a tainha, que é a ocupação natural pelo defeso da sardinha. Com a redução de 20% ao ano da frota, o nosso futuro é incerto. Precisamos do aporte de novos conhecimentos e defendemos um sistema de cotas com novos processos de acesso à pescaria”, diz o assessor técnico do Sindipi, Marco Aurélio Bailon.
A Oceana destaca que a tainha é pescada em seu período reprodutivo, quando ocorre a corrida de imensos cardumes para o Norte. Uma pesca, portanto, que atua em um momento de grande vulnerabilidade para a espécie, aumentando o risco e a gravidade da sobrepesca. Com base em um estudo da ONG, o limite máximo de captura anual no Brasil, para o período de 2017 a 2019, não deverá exceder 4.367 toneladas.
Faltam pesquisas, políticas públicas e organização do setor
Gerente de Aquicultura e Pesca da Secretaria de Estado da Agricultura, Sérgio Winckler da Costa afirma que a safra da tainha é muito variável e depende de condições climáticas específicas. O peixe sobe o litoral brasileiro em busca de águas mais quentes e, por isso, o vento sul e o clima frio favorecem a safra. “O grande problema é a falta de estudos e de estatísticas oficiais. Temos apenas as informações passadas pela Fepesc e pelo Sindipi, mas os números não são confiáveis”, afirma.
O presidente da Fepesc (Federação dos Pescadores do Estado de Santa Catarina), Ivo da Silva, cobra a formalização de políticas públicas. “Somos o maior produtor de pescado do Brasil e não temos uma política pública, principalmente, para os pescadores artesanais. A pesca da tainha está no sangue do manezinho”, diz. Para o presidente da Câmara de Desenvolvimento da Indústria da Pesca da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), Agostinho Peruzzo, o próprio setor precisa se organizar para reivindicar com mais propriedade.
Em Florianópolis, a situação não é muito diferente do Estado. O superintendente de Pesca, Adriano Weickert, informou que o setor pesqueiro movimenta R$ 8 milhões. A estimativa é de que a pesca da tainha seja responsável por um terço desse total, por ser um peixe de alto valor econômico. “A venda não só movimenta a economia como gera mais saúde a partir do consumo maior do pescado. Também é importante salientar as dificuldades que os atuais pescadores estão enfrentando em função de uma legislação que não protege os pescadores artesanais, igualando essa atividade com a pesca industrial”, observa.
Pesca artesanal fortalece o social
Os pescadores artesanais começaram a lucrar com os pequenos lanços deste início de temporada. Na praia Brava, Norte da Ilha, o pescador Carlos Roberto Bernardo, 49 anos, capturou 180 tainhas na segunda-feira e mais 280 na terça. “Vendemos a centena, uma pela outra, pelo valor de R$ 1.800. No ano passado pegamos 20 toneladas e o objetivo é manter essa média”, conta.
Mais do que o ganho comercial, a pesca artesanal também fortalece o lado social das comunidades. O presidente da Fepesc, Ivo da Silva, destaca que a tainha provoca uma migração para as praias neste período. “A pesca é como qualquer outro negócio. Tem pescador com lucro e outro com prejuízo. A diferença é o lado social, porque todos que ajudam na pesca, seja apenas puxando a rede, já recebem uma tainha”, destaca.
Festival no Mercado Público e prato do Brasil Sabor
Com tanta procura pela tainha, o empresário Maurício Melo organiza o 1º Festival da Tainha no Mercado Público de Florianópolis. O evento está programado para acontecer em três sábados do mês de julho, nos dias 8, 15 e 22. “O objetivo é popularizar o pescado com diferentes pratos a preços acessíveis. Fizemos um prato com crosta de pistache, por exemplo, que é muito bem aceito pelos clientes”, informa.
Pela primeira vez em Florianópolis, o casal carioca Camila Jannotti, 29, e Átila Cardozo, 27, não perdeu a oportunidade de provar a iguaria. “Se já comi não lembro, mas ela é maravilhosa”, comemorou a estudante. Já o militar gosta da tainha assada. “Ensopada é a primeira vez, mas ela também está ótima ao molho de camarão”, sentencia.
A tainha também estará no festival gastronômico Brasil Sabor, da Abrasel. O evento acontece de 18 de maio a 11 de junho, em 60 restaurantes de oito cidades catarinenses, com descontos de 30% e 50%.
As capturas*
2016 2015 2014 2013
Artesanal 3.542 1.311 1.001 1.213
Industrial 3.500** 2.102 —– ——
* Por tonelada em Santa Catarina
** Número estimado
— não informado
Fontes: Fepesc, Sindipi e Projeto de Monitoramento da Atividade Pesqueira no Estado de Santa Catarina