No início da pandemia, Jackson Feuser passou pela primeira dificuldade na vida profissional, aos 20 anos. A empresa onde ele havia começado a trabalhar demitiu vários funcionários. “Fiquei cinco meses desempregado, só recebendo o seguro-desemprego”, lembra Jackson. O mesmo aconteceu com milhares de catarinenses que se viram sem perspectivas de conseguir trabalho durante a fase mais crítica da pandemia.
O jovem Jackson Feuser encontrou oportunidade de trabalho, mesmo durante a crise, na indústria têxtil. – Foto: Reprodução/NDTVO governo federal tomou algumas medidas que ajudaram a manter a economia do país funcionando. Além do auxílio emergencial, flexibilizou as leis trabalhistas, distribuiu cerca de R$ 700 bilhões para Estados e municípios e ainda postergou impostos para dar fôlego ao setor produtivo.
“O governo federal foi muito preciso no início da pandemia. Fez com que a atividade econômica não tivesse um impacto tão negativo”, explica o presidente da Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina), Mario Cezar de Aguiar.
Depois daquele período crítico da pandemia, Jackson percebeu que a indústria logo voltou a contratar. E conseguiu emprego de auxiliar de expedição de mercadorias em uma fábrica de toalhas.
“Agora, a situação está melhor. Até meus colegas que estavam desempregados já estão trabalhando também”, comemora Jackson.
Foi o setor industrial do Estado o que mais gerou empregos a partir do segundo semestre do ano passado. E só neste ano a indústria teve um saldo positivo de 60.465 novos postos de trabalho. Seguida pelo setor de serviços, que teve um saldo de 49.300 empregos formais.
Taxa de desemprego em SC foi a menor do País
No último trimestre, de abril a junho, a taxa de desemprego em Santa Catarina foi de 5,8%, o menor percentual de todo o país. Em seguida, vem o do Rio Grande do Sul, com 8,8%, e do Mato Grosso, com 9% de taxa de desemprego. Traduzindo: nossa taxa de desemprego é 52% menor do que a do Estado com o segundo melhor número no Brasil.
A taxa de trabalho informal catarinense também é a menor do país: 27,7%, de acordo com números do primeiro trimestre. Para efeito de comparação, a média nacional ficou em 39,6% no mesmo período.
Uma das razões para Santa Catarina ter esse índice mais baixo de desemprego é a força do empreendedorismo no Estado. SC tem hoje 835 mil empresas de pequenos negócios, que variam de R$ 81 mil de faturamento por ano até R$ 4,8 milhões por ano.
Esses empreendimentos representam 93% de todas as empresas que existem no Estado. E ainda temos um outro mercado que vem abrindo cada vez mais oportunidades por aqui.
Ecossistema ideal para desenvolver novas tecnologias
Guilherme Lopes Sousa, de 23 anos, veio do Maranhão há 3 meses só para trabalhar no Instituto da Indústria em Florianópolis. E o cargo dele não é um emprego qualquer.
Ele faz parte de um novo grupo de pesquisadores chamado “STEM”, da sigla em inglês que significa ciência, tecnologia, engenharia e matemática. “Minha missão é digitalizar todos os dados da indústria, pra torná-la mais competitiva”, diz Guilherme.
Guilherme Lopes Sousa é pesquisador de sistemas fabris inteligentes e desenvolve soluções tecnológicas para a indústria. – Foto: Reprodução/NDTVNo caso da fábrica de toalhas que citamos, por exemplo, existem vários sistemas de computador que 1) controlam o número de peças produzidas em um mês, 2) o quanto de mercadoria tem no estoque, e 3) a quantidade de produtos vendidos por mês.
O problema é que ainda não existe um sistema único que possa relacionar todas essas informações para que o fabricante possa saber exatamente quando pode entregar o produto com mais rapidez e eficiência. É exatamente um sistema para solucionar esse problema que o Guilherme está pesquisando.
Mas por que o Guilherme saiu lá do Maranhão para trabalhar aqui? Simplesmente por que Santa Catarina tem um ecossistema completo que permite o desenvolvimento de novas tecnologias. É todo esse potencial de inovação e produtividade que garante ao nosso Estado uma posição privilegiada no mercado nacional e internacional.
Hoje, a produção industrial do Estado responde por 26,7% do PIB de Santa Catarina. Enquanto a média nacional varia entre 11 e 12%. E, de acordo com a Fiesc, somos o segundo Estado do país em produtos industrializados. “Estamos trabalhando para sermos o Estado mais industrializado do Brasil”, diz o presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar.
Déficit da balança comercial
Santa Catarina tem uma grande infraestrutura de portos para fazer escoar toda a nossa produção. O principal é o complexo portuário de Itajaí, o segundo maior do país, que soma as movimentações do porto de Itajaí e do porto de Navegantes.
“Nós movimentamos desde frutas, madeira e derivados até motores, eletrônicos, bobinas de papel, de aço, ou seja, cargas que têm uma importância crucial para o comércio exterior”, afirma o diretor de operações e logística do porto de Itajaí, Heder Cassiano Moritz.
Só em 2020, as exportações do Estado somaram US$ 8,1 bilhões. As importações quase alcançam US$ 16 bilhões. Como SC importa mais do que exporta, temos o que é chamado de déficit da balança comercial: uma diferença de US$ – 7,9 bilhões.
A balança comercial é a união das contas de importação e exportação de um local, sendo um importante indicador econômico. – Foto: Arte/NDPode parecer negativo, mas não é bem assim. Apesar de termos uma balança comercial negativa desde 2009, o secretário de Assuntos Internacionais do Estado, Fernando Raupp, explica que depende muito do que está sendo importado.
“Se estamos importando peças para fabricar um produto aqui no Estado, esse produto terá valor agregado e será vendido até para outros Estados”, diz o secretário. Ou seja, o dinheiro da venda desse produto será somado às riquezas produzidas em Santa Catarina.
Desafios da exportação
Mas será que chegamos a um limite ou a indústria catarinense pode vender mais produtos para outros países? Santa Catarina é o nono Estado que mais exporta no Brasil, respondendo com 4% de tudo o que é vendido para o exterior. E para quem trabalha com relações internacionais, existe um mercado gigantesco para ser conquistado.
Cristina Wolowski é CEO da Links Relações Internacionais e explica que exportar não é tão complicado como há algumas décadas. O problema é que nossa experiência com exportação ainda é recente, começa a partir de 1991 com a abertura do mercado no Brasil.
Ela afirma que não temos pessoas especializadas em exportação e que muitos empresários ainda acham que é preciso ganhar o mercado interno primeiro. “Isso é um erro”, diz Cristina. “Você não precisa esgotar o mercado interno para olhar o mercado externo. O mundo inteiro precisa dos nossos produtos”.
Cristina revela ainda que só 5% da população brasileira fala inglês. Isso significa que poucas pessoas entendem como funciona o mercado exterior.
“Se os empresários soubessem como é exportar, já estariam ganhando muito mais mercado. O que falta é ter uma equipe na empresa só para trabalhar nas exportações, saber qual mercado precisa do seu produto, adaptar embalagens e ir atrás”, conclui.
O secretário executivo de Assuntos Internacionais revela que sempre tem equipes procurando novos mercados para exportar os produtos catarinenses.
“Por que nunca pode parar. O mercado internacional é muito volátil. E é muito fácil vender Santa Catarina, por causa da semelhança com países europeus”, diz Fernando Raupp.
Infraestrutura do Estado precisa melhorar
Para o presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar, o Estado precisa melhorar a infraestrutura para tornar os produtos catarinenses mais competitivos.
“Tanto no transporte, no fornecimento de energia, de gás. E, sem contar com uma matriz de transporte rodoviária e ferroviária, nossa infraestrutura é muito prejudicada e acaba tirando a competitividade da nossa indústria, explica Mario Cezar de Aguiar.
Para atender a essas demandas da indústria, o governo do Estado informou que existe um crédito pré-aprovado de R$ 1 bilhão com o BNDES. Somando com recursos próprios, serão R$ 3 bilhões por ano para investir no escoamento da produção. Mas a implantação de ferrovias ainda vai demorar.
O secretário da Fazenda, Paulo Eli, explica que as ferrovias voltaram para a pauta do governo, e que vai sair o novo marco regulatório do sistema ferroviário, em que a concessão será autorizada pelo poder público.
“Aí, poder público e poder privado podem construir uma solução para termos ferrovias no Estado. Estamos trabalhando nisso junto com a Fiesc”, diz Eli.
Desde 2008 que se fala no projeto da ferrovia Leste-Oeste, mas até hoje nada foi feito. O presidente da Fiesc revela que o Estado já gastou quase R$ 25 milhões em projetos ao longo dos últimos anos e nenhum foi concluído.
Ele ressalta que só é possível ter uma indústria competitiva se o sistema de transporte de cargas for eficiente. “Nós defendemos um sistema ferroviário interligado à malha ferroviária nacional, porque o grande centro produtor brasileiro ainda é o Sudeste. Então, temos que entregar nossos produtos através de uma malha ferroviária integrada”.
O nosso Estado é uma grande potência que ajuda na industrialização do país. Várias entidades trabalham para que SC seja o Estado mais industrializado do Brasil.
Mas, para isso, as ferrovias parecem ser o ponto da virada para que a nossa indústria possa competir no mercado internacional, gerando mais empregos, mais renda e um futuro mais promissor.