Sem “próxima rodada”: barmen se reinventam na quarentena

Proprietário e mixologista de bar em Florianópolis conta os detalhes e desafios de como a classe enfrenta o período de pandemia da Covid-19

Lorenzo Dornelles Florianópolis

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No fim da lista dos estabelecimentos considerados essenciais, os bares e casas noturnas passam por situações delicadas em tempos de quarentena. Ao chegar na data em que é comemorado o Dia do Barman, neste domingo (4), os profissionais da classe vislumbram com esperança uma retomada segura das atividades enquanto ainda passam por um ano atípico e desafiador.

Em meio à pandemia da Covid-19, foi necessário criar novas formas de manter a marca ativa, interagir com clientes e, principalmente, obter alguma renda enquanto lida com o isolamento.

Barman Diego Rita conta como lida com o período de isolamento social – Foto: Reprodução/InstagramBarman Diego Rita conta como lida com o período de isolamento social – Foto: Reprodução/Instagram

“A quebradeira foi generalizada e vai continuar sendo. Para a gente do segmento de bares, a pandemia não está nem na metade, ainda tem um processo longo para conseguir se sentir minimamente calçado. Foi um ano para sofrer bastante”, definiu Diego Rita, proprietário e mixologista do Franklin Bar, localizado no Centro da Capital.

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Primeira sensação: “logo tudo volta”

O profissional relembra que no dia 17 de março, quando precisou fechar por conta de decreto do Estado, o sentimento era de que o estrago não seria tão grande.

“O primeiro momento foi marcado com a sensação de que ‘logo a gente volta, logo fica normal, logo está tudo certo…’ a gente ainda estava olhando para o normal”, revela.

Nesse sentido, foi lançada uma primeira ação para ajudar os pequenos comércios: os vouchers. A ideia, que entrou em prática até o dia 31 de maio, consistia em uma colaboração do cliente, que ganharia um retorno em um valor ainda maior para consumo no estabelecimento.

No entanto, a promoção acabou perdendo força com o tempo. “Nas duas primeiras semanas teve algum tipo de adesão. Depois só pingou uma mixaria, porque foi apenas em um momento emotivo mesmo”, lamenta Diego Rita.

Necessidade de se reinventar

A partir daí, novas ideias precisaram surgir. Uma das principais preocupações do mixologista foi a de pelo menos manter a marca ativa, e não ser esquecido pelos clientes. “Foi quando eu inventei de fazer o Curso de Coquetelaria de Guerrilha”, conta.

“A ideia era fazer os drinks em casa, com o que tem em casa. Sem precisar de equipamentos profissionais nem nada. Foi uma série de 12 aulas, no meu quintal. Foi tudo muito improvisado”, continua Diego Rita.

Ele esclarece, no entanto, que não faturou com a ação. “Foi apenas para manter a marca ativa e uma interação com os clientes, eu consegui parcerias para dar descontos em alguns produtos para os clientes que fizessem as aulas.”

Diego Rita comemorou a adesão das pessoas à ideia. “Teve uma super interação, porque era naquele momento do meio quarentena, todo mundo parado, nenhum bar aberto”.

Decepção na primeira reabertura

No fim de junho, apareceu a oportunidade de reabertura dos bares e restaurantes em Florianópolis. “Fizemos todo um protocolo enorme para conseguir reabrir, com metade dos espaços. Não funcionou!”, lamenta.

“O mês de julho e as primeiras semanas de agosto foram terríveis, seria melhor nem ter aberto”, afirma Diego Rita.

De acordo com o proprietário do Franklin Bar, as pessoas ainda estavam muito assustadas para ir até um estabelecimento que não é considerado essencial.

“Tinha um estado de medo muito grande neste período. Mesmo autorizado pelo poder público e tomando todos os cuidados além dos que foram exigidos, não foi suficiente para tirar o povo de casa”, conclui.

Delivery de drinks: “foi um fiasco”

Com a falta de atividade presencial, Diego Rita tentou encontrar uma forma de renda no serviço de entrega de drinks.

“Começamos a quebrar a cabeça para saber como iríamos fazer a entrega de drinks. E a experiência não foi boa. Tivemos todo um cuidado para tentar fazer o ‘take away’, e posteriormente o ‘delivery’, para explicar para as pessoas como elas iriam finalizar em casa, como comunicar para elas como fazer, etc. Mas foi um fiasco isso, não conseguimos vender quase nada”, lamenta.

Serviço de delivery de drinks não deu bons resultados – Foto: Reprodução/InstagramServiço de delivery de drinks não deu bons resultados – Foto: Reprodução/Instagram

Ele explica que beber um drink em casa é algo completamente diferente da experiência presencial, o que consequentemente afeta as vendas.

“O drink é só um complemento, frequentar bar é uma experiência social, não é só o drink. Não tem ‘desce a próxima’, não existe isso, porque vai demorar 45 minutos para chegar a próxima rodada na sua casa. A experiência de tomar drink em casa não foi algo que os clientes absorveram”.

Início da retomada

Desde a última semana de agosto, Diego Rita observa um processo de “cansaço” da pandemia por boa parte da população. “A prefeitura cita a baixa de casos, o povo entende que está passando tudo isso e cada vez mais a gente atende pessoas no presencial, porque ninguém mais aguenta ficar em casa, são raros os que ainda estão em isolamento”, aponta.

Ele ressalta que os protocolos seguem em vigor e o estabelecimento, que opera até a metade da lotação máxima, ainda se esforça para manter a segurança dos clientes.

“Estamos vendo alguns clientes com bastante confiança nos nossos cuidados, várias vezes nos dizem que foi o único lugar que se sentiram seguros para arriscar”, ressalta o proprietário.

Porém, mesmo com uma melhora no cenário, Diego Rita pondera que o caminho ainda é longo para o setor. “A tendência é de alta, cada semana está sendo melhor que a anterior, mas ainda tá muito longe”.

Ele relembra do momento antes da pandemia em comparação com os dias de hoje, e ressalta que os danos para a classe são enormes.

“Tá bem complicado, a gente não conseguiu lotar a casa ainda, utilizando metade do espaço. Lembrando que um dia antes do primeiro caso, no dia 13 de março, a gente estava com a casa lotada, em uma quarta-feira. Então de 70 pessoas em uma quarta para menos de 32 em uma sexta, é um choque”, revela o profissional.

“Foi um ano de luto para a carreira, para a profissão, a recuperação está sendo muito lenta e vai se arrastar por muitos meses, essa é a minha visão”, conclui.