CAROLINA LINHARES
BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) – O canibalismo entre aves e suínos é um dos sinais alarmantes da crise de abastecimento causada pela paralisação dos caminhoneiros. Como a ração não tem chegado aos produtores, os animais começam a comer uns aos outros na tentativa de aplacar sua fome.

“As aves estão passando fome, então dispara um mecanismo fisiológico. Elas estão num grupo fechadas e famintas, o que, eventualmente, estimula o canibalismo. Sem nutrientes, a mortandade é cada vez maior”, diz Helenice Mazzuco, pesquisadora de aves da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
Seguir“Isso é um comportamento inato de todas as espécies de modo geral”, afirma Osmar Dalla Costa, pesquisador da área de bem-estar de suínos da Embrapa.
Segundo eles, o tempo para que os animais entrem nesse processo de canibalismo varia de acordo com seu estado fisiológico, nutritivo e com o modelo de produção.
O isolamento dos animais em pequenos espaços impede que eles fujam ou se defendam uns dos outros. No caso das aves, é preciso mais de um dia sem nutrientes para que o canibalismo comece a aparecer.
Nos casos de canibalismo registrados durante esta crise, a explicação é o estresse gerado pela fome dos animais. Mas outros fatores, como doenças e variação brusca de temperatura, também podem desencadear esse comportamento.
Segundo Costa, há uma deficiência nutricional. Os suínos percebem que a rotina de alimentação de cerca de cinco vezes ao dia foi alterada e passam a ter comportamentos anormais.
Nesses casos, os animais maiores se impõem sobre os menores e praticam o canibalismo. “Os dominantes começam a ver que eles têm vantagens sobre os outros. Eles mordem esses outros, o que gera uma ferida, sai sangue. Como eles gostam do sabor, começam a morder cada vez mais os animais”, afirma o pesquisador.
Na sexta (25), o presidente Michel Temer usou a canibalização de frangos como exemplo do impacto da ação dos caminhoneiros. “Os frangos estão morrendo. Eu nem sabia que eles podiam canibalizar-se. Eles estão se canibalizando”, disse. “Imagina o drama terrível que os produtores estão passando.”
Neste domingo (27), o presidente Michel Temer (MDB) mencionou a preocupação trazida pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), de que 64 milhões de aves e pintinhos já foram perdidos por conta da crise.
De acordo com a ABPA, entidade que representa a avicultura e a suinocultura, o número de animais mortos “cresce exponencialmente a cada hora que eles passam sem o alimento”.
A associação informou ainda que 167 unidades frigoríficas estão paradas no país, o que significa 234 mil trabalhadores sem ter o que fazer.