O “Super El Niño”, nome dado pelo Bureau de Meteorologia da Austrália, promete impactar as lavouras em Santa Catarina. A informação foi confirmada ao ND+ nesta sexta-feira (30) pela Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina).
O engenheiro agrônomo Ronaldo Coutinho reforça e diz que “tudo de ruim pode acontecer com a atuação do El Niño”.
El Niño pode impactar produção agrícola em Santa Catarina – Foto: Eduardo MontSou-Rally da Safra/Divulgação/ND“Primeiro precisamos pensar que os dois fenômenos climáticos, El Niño e La Niña, têm impacto. No entanto, o El Niño é o que traz o maior volume de chuvas”, explica.
SeguirDe acordo com Coutinho, são estas chuvas que podem impactar no cultivo de grãos em Santa Catarina. Isso porque com mais chuvas os dias de sol costumam ficar menos frequentes, e o astro serve de combustível para o cultivo.
“Da segunda metade de julho pra frente a chuva vai ficar mais frequente. Teremos menos dias ensolarados e começamos a ter mais doenças nas plantas, doenças que antes não tínhamos”, diz.
O excesso de chuva vai impactar também nos cereais como trigo e aveia. Em geral, o engenheiro explica que estas são culturas que não gostam de muita chuva.
A água presente no solo irá para as safras deixando os grãos úmidos. Assim, os agricultores precisaram usar ainda mais recursos para manter uma boa safra.
“No caso das doenças causadas pela umidade, por exemplo, isso pode fazer com que toda a safra seja perdida”, fala Coutinho.
Neste ponto é importante lembrar que Santa Catarina é o maior produtor nacional de maçã e cebolas. O Estado é também o segundo maior produtor de tabaco, palmito, pera e arroz. Todos podem ser afetados pelo El Niño.
Ruim para os cereais
A Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) concorda que o cultivo de alho e cebola culturas em sua maioria irrigadas, serão prejudicadas.
“O excesso de chuvas pode ocasionar problemas fitossanitários, resultando em aumento nos custos de produção pelo aumento no número de pulverizações com fungicidas, bem como problemas com erosão do solo decorrentes de enxurradas, que para regiões de maior declividade, podem trazer prejuízos econômicos significativos aos produtores”, diz em nota.
Para os cereais de inverno, com destaque para o trigo, a preocupação de técnicos e produtores é com a previsão de excesso de chuvas para os meses de outubro/novembro, período que coincide com as fases de maturação e colheita da cultura.
Caso essas previsões se confirmem, Santa Catarina pode ter perdas em produtividade pelo aumento da ocorrência de doenças fúngicas (Brusone e Giberela), que prejudicam diretamente a qualidade do grão de trigo, reduzindo o valor comercial do produto colhido, com perdas normalmente irreversíveis.
Os produtores que não realizam plantio direto sobre a palha poderão ter problemas com erosão a partir do escorrimento das camadas superficiais do solo, causando prejuízos econômicos. Da mesma forma, temporais com ventos fortes poderão ocorrer, causando prejuízos em pomares e benfeitorias.
Bom para o milho
Segundo o analista de socioeconomia e planejamento agrícola da Epagri/Cepa, Haroldo Tavares Elias, a condição de chuva entre próxima e acima da média climatológica esperada para as regiões catarinenses nos próximos meses pode favorecer o cultivo de milho e no desenvolvimento de pastagens nativas e cultivadas, se bem distribuídas ao longo da primavera.
“Lembrando que nos últimos três anos tivemos períodos de estiagem prolongada, em especial no Extremo Oeste de Santa Catarina e na região do Vale do Rio Uruguai”, diz.
As regiões de Chapecó e São Miguel do Oeste concentram cerca de 50% da área cultivada de milho para fins de silagem.
“Nessas regiões o zoneamento agroecológico estabelece o cultivo favorável a partir de agosto e setembro. É importante salientar que o milho silagem é a base da alimentação para produção leiteira”, frisa o analista.
Ele afirma que o milho é uma cultura que demanda muita água, mas também é uma das mais eficientes no uso desse recurso.
“Uma variedade de ciclo médio cultivado para a produção de grãos secos consome de 500 a 700 mm de água em seu ciclo completo, dependendo das condições climáticas”, fala.
O período preferencial de cultivo da soja se inicia em outubro. Essa espécie é mais resistente a períodos curtos de estiagem. Neste ponto, Coutinho e Elias concordam.
“Caso ocorra excesso de chuvas durante o ciclo de desenvolvimento, poderá ocorrer doenças fúngicas em maior intensidade e elevar os custos de produção em virtude da aplicação de fungicidas e outros agroquímicos”, explica o analista.
El Niño vai “lavar” tudo
Outro ponto negativo do fenômeno é que os pesticidas usados para matar doenças que serão mais proliferadas poderão ser “lavados” pelas chuvas.
“Isso faz com que tenha que ter mais aplicações, mais uma vez, aumentam os custos de produção”, reitera.
A economia
No começo do ano, um estudo feito por Cristopher Callahan e Justing Mankin, da Universidade de Dartmouth, e publicado na revista “Science” mostrou que o fenômeno impacta também a economia global.
Segundo o artigo publicado, somente este ano, o fenômeno deverá provocar um rombo de US$ 3 trilhões (R$ 14,8 trilhões) na economia global até 2029.
A pesquisa foi feita após a análise durante dois anos do desempenho da atividade econômica global após os fenômenos de 1982-1983 e 1997-1998. Foi nela que os cientistas concluíram a existência de um desaceleração no crescimento da economia.
Em Santa Catarina não será diferente. De acordo com Coutinho o custo de produção vai aumentar, o que pode impactar o bolso dos catarinenses.
“Tudo vai depender da quantidade de chuvas. Quanto mais chuvas registrarmos, mais impactos teremos na agricultura”, opina.
Enchentes
“Em anos de El Niño a condição de enchentes é mais frequente e impacta na perda de solo por erosão”, conta Coutinho.
A Defesa Civil de Santa Catarina aponta que nos meses de julho e agosto, a tendência é de chuva dentro a acima da média. Nestes meses, o fenômeno El Niño já poderá influenciar no regime da precipitação no Estado.
“Porém, isto não exclui a chance de episódios de frio intenso, com ocorrência de geadas e precipitação invernal. É importante ressaltar que os eventos de frio devem ocorrer, mas não serão duradouros”, explica em seu site oficial a Defesa Civil.
El Niño traz risco de enchentes para Santa Catarina – Foto: Andreas Solaro/AFP/Divulgação/NDPrevisão do tempo para Santa Catarina
De acordo com a Epagri/Ciram, a previsão para o trimestre julho-agosto-setembro deste ano, em Santa Catarina, é de chuva mais frequente e com totais elevados, especialmente nas áreas do Estado mais próximas ao Rio Grande do Sul.
“A previsão é de um inverno de pouco frio, intercalado com períodos mais aquecidos, como ocorreu neste último mês de junho”, ressalta a meteorologista Marilene de Lima.
Ela explica que a condição de chuva entre próxima e acima da média climatológica esperada para as regiões catarinenses nos próximos meses está associada ao El Niño, previsto para se configurar no decorrer do inverno e com intensidade moderada a forte.
A meteorologista Laura Rodrigues explica que o inverno de 2023 já está sendo bem diferente dos últimos anos:
“Entre 2020 e 2022, a La Niña estava configurada e favoreceu dias de frio prolongado, com longos períodos de estiagem no Sul do Brasil. Em anos de El Niño, ao contrário, são comuns os dias de chuva mais frequente e bem distribuída em SC. O último evento El Niño de intensidade moderada a forte ocorreu em 2015-2016, quando as chuvas foram frequentes e volumosas no Estado, durante o inverno e primavera de 2015” diz Laura.
O que é El Niño?
O El Niño nada mais é que um fenômeno atmosférico-oceânico caracterizado por um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical em decorrência do enfraquecimento dos ventos alísios.
Segundo o portal “muito geomática” o evento costuma ocorrer em intervalos de dois a sete anos e provoca diversas alterações climáticas globais e inúmeros prejuízos socioeconômicos e ambientais às regiões afetadas.